Velha

Lá pelos meus dezessete, dezoito, eu comecei a dizer que não tinha medo de envelhecer, dizia mesmo que queria envelhecer. E a resposta mais comum que eu recebia era: “espera chegar aos 40, aí você vai ver”. Bom, eu cheguei e minha relação com a velhice não mudou, ela continua bem vinda, estou curtindo. O que mudou foi a resposta que escuto: “espera chegar aos 50, espera chegar aos 60”.

Eu entendo o desconforto das pessoas, especialmente das mulheres, com a velhice. Como não entenderia? Primeiro porque os corpos velhos nos recordam a finitude. Findamos, o que nos apetece esquecer e que o tempo não cessa de nos recordar. Recusamo-nos, como sociedade, a lidar com a morte que, indiferente, chega. Essa amarra se agrava porque não é só a morte que negamos, mas a diversidade. Em uma sociedade como a nossa, tão rigorosa na vigilância dos corpos, tão atenta ao encaixe nos modelos de beleza, ter um corpo fora do padrão é difícil. O corpo que envelhece não é bem vindo, não é bem visto pela sociedade. Ser bonita é ser jovem, por princípio (e branca e magra e cis, mas aqui vou falar de um padrão específico, certo?). Parecer velho é ser feio e se, eventualmente, alguém velho ainda consegue escapar do carimbo e nos parecer bonito, não há dúvida: é porque parece mais jovem do que é. É preciso disfarçar as evidências, escamotear os indícios de que se viveu. E isso é das coisas que mais me fazem curtir o envelhecimento: eu gosto da vida. Eu gosto da minha vida.

O tempo passa, eu passo nele, ele passa por mim, ele passa em mim e eu não pareço mais jovem, nem mais velha, pareço mais eu. Legal se a gente pudesse ir sendo, apenas. Que os anos fossem. Que a pele narrasse. Que as caixinhas de adolescente, criança, terceira idade, jovem, não nos definissem, não nos limitassem, não nos explicassem.

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Velho, velha, velhice, envelhecer. Eu escrevo, eu afirmo, acho que há, nisso, uma resistência preciosa. São, penso, muitas as transversalidades relevantes nesse tema. Tem a aceitação do tempo. Da transitoriedade da vida. Tem a desconstrução da norma de beleza. E tem, acho, o reconhecimento de que somos e podemos ser. Que não há nada inerente nem às pessoas nem aos momentos da vida das pessoas. Não somos mais ou menos curiosos na infância que na velhice. Tem quem é mais em uma etapa que em outra. Tem quem é sempre. Tem quem é nunca. Não somos mais ou menos dispostos na velhice que na juventude (proporcionalmente à capacidade física, of course). Há crianças que preferem ler do que correr e velhos que curtem bater uma bola com os netos. Não somos mais isso ou aquilo, não precisamos ser mais isso ou aquilo sendo jovens ou velhos. Não devíamos precisar seguir uma forma para sermos reconhecidos, aceitos, amados. Estar. Estar criança, adolescente, adulto, jovem, velho. E, em cada estar, ser, construir-se, reconhecer-se, fazer-se.

Vou sendo, vamos sendo, o que vivemos. O que gozamos. O que sofremos. O que escolhemos. Mas o que vivemos, gozamos, sofremos, escolhemos não é solto no ar, não vivemos a parte de um discurso social. Não são “as mulheres” que se cobram, que não se conformam com o envelhecimento, não é natural essa dor, a angústia, o desassossego. Como não é natural o comportamento de se aceitar como é, de não dar tanta importância pra opinião alheia, de viver tranquila com cabelos brancos, manchas, rugas e todas as marcas do tempo na pele. Não são “os velhos” que desistem, que param de sonhar, que deixam de sair, que não se relacionam, que são rabugentos, que não sabem sonhar. Não é natural a pessoa velha encolher-se, afastar-se, definhar. Como não é natural a pessoa velha afirmar-se, viajar, dançar, interagir, ansiar, planejar, gozar. Não se trata de questionar, julgar, validar ou hierarquizar as opções pessoais (pintar o cabelo não deveria ser, em si, melhor ou pior que acolher os brancos, por exemplo nem sair pra pedalar é intrinsecamente melhor do que ficar tricotando) mas entender que as escolhas são qualificadas e localizadas em relação ao discurso homogeneizante e prevalente na sociedade. Envelhecemos em um contexto que diz, diariamente, que não podemos, não conseguimos, não servimos, ficamos obsoletos. Somos humanos, somos humanas, esses comportamentos são construídos. Somos as possibilidades e o que fazemos com elas e o que elas fazem da gente. Estar ou sair da norma tem seu preço e ele é cobrado diretamente do nosso desejo, da nossa liberdade, da nossa autonomia, do nosso prazer.

 

Tia Sônia e o tio Alzha

É tia Sônia primeiro: irmã do meu pai e também minha madrinha. Tia Sônia de luta: presa e torturada pela ditadura. Tem um video da Comissão de Anistia em que ela dá depoimento, e assim fala sobre a cadeia e a tortura: “Eu dizia: eu não vou morrer. Eu nasci para ser feliz e é assim que eu vou viver.”

E assim foi. Tia Sônia de olhos verdes brilhantes, de risada pronta. De ideias incríveis e inusitadas. Ela me ensinou a comer comida japonesa, a usar os pauzinhos. E a olhar pro mundo de outro jeito. Um jeito mais aberto, mais solidário, mais generoso. Um jeito que eu tento guardar e manter. Um jeito que foi presente da minha tia-fada madrinha.

Elas (minha tia e Pilar, sua companheira da vida toda) tinham um laboratório de fotografia em um banheiro, certa época. Fotos: muito parte da vida. E a gente, criança, ia para lá e se encantava ao ver as imagens aparecendo, se formando, se fixando à medida em que o papel era mergulhado nos diferentes líquidos da revelação. Fotos, viagens. Outras formas de olhar.

Paris na casa delas, nos tempos da ditadura. Primos, risadas, bagunça. A gente podia. A gente falava, a gente fazia com elas. A gente era sujeito, e assim se sentia. Tia Sônia de tanta vida. De tanta vida feliz, como ela tinha dito que seria.

O tio Alzha. Insidioso, foi chegando. A gente reconheceu bastante rápido, porque minha avó já tinha sido visitada por ele. E, embora fosse diferente, era a mesma coisa. O tio Alzha – essa doença cruel que é o Alzheimer, que eu chamo assim na minha cabeça pra tirar as garras dele – chegou pra ficar, como de hábito. E hoje, dez anos depois, reina absoluto. Os olhos brilhantes permanecem, a risada. Mas não há mais sentido nem nexo nas conversas. As conversas são como rios: a gente entra no fluxo e vai indo.

 Vou lá duas vezes por semana, há mais de um ano. Nosso trajeto é sempre o mesmo: a gente sai da casa delas, passeia pelo calçadão e vai até a casa da minha mãe. Lá a gente fica, a gente conversa, vê TV, lancha. E volta caminhando. E conversando.

De vez em quando, me dá vontade de gravar uma das nossas conversas. Pra dar ideia. Porque a gente conversa mesmo, o tempo todo: não é porque as palavras não fazem mais nexo que não há nexo na conversa. Quem já conversou com bebê pequeno (e eu adoro fazer isso) sabe: há nexo na emoção, na intenção. Assim é com tia Sônia. Ela come algo de que gosta, dá um sorriso e diz: “lindo!”. E a gente entende que ela gostou.

Às vezes, começa a contar uma coisa e vai se irritando sozinha: “então eles vieram e fizeram e foi tudo uma merda e eu mandei para a puta que pariu”…. (os palavrões sempre estiveram no vocabulário: não são da doença. São dela mesma). Eu escuto, concordo com a cabeça e arremato: “mas aí você explicou para eles, não foi? E resolveu?”. Em geral ela aceita. Foi isso mesmo. Ela explicou, e no final deu tudo certo. Se acalma.

Aprendo com tia Sônia, ainda e de novo, a olhar o mundo de um jeito diferente. A entender que o tio Alzha está aí, mas minha tia, aquela da vida toda, também está. O desafio é a gente conseguir estar juntas sem o suporte tão confortável da lógica racional. Puta desafio. Mas a gente vai navegando.

E, de vez em quando, ela dá aquele sorrisão, segura na minha mão e diz, confiante: “você é minha.” Sou mesmo, tia. Tá certo. Bora lá. Convivendo com o tio Alzha, como dá. O amor insiste e resiste. Fresta. E quem disse que era racional?

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Sônia e Pilar. Vida.

Você poderia ser mãe dele

“Você poderia ser mãe dele” – disse. E, já enquanto dizia, soube que nada estava mais longe da verdade.

Bastava prestar atenção no rosto dela.

O rosto dela. Os olhos cintilantes dela.  Aquele brilho. Aquele ar de que apenas segurava o sorriso pronto. Por pura bondade, por generosidade: não escancarar a felicidade na frente dele. Não o deixar mais no chão do que já estava.

O olhar que ela lhe lançava era assim, piedoso.

E permanecia sem dizer nada.

Pra quê?

Estava tudo tão claro.

Ofuscante.

Ele fechou os olhos com força: tentativa de apagar a imagem que rodava na sua cabeça como carrossel. Os dois abraçados. Fundidos. Derretendo-se um no outro. Exatos.
Precisos como um soco no estômago.

Quando os abriu de novo, ela já não estava mais ali.

Ouviu, ao longe, a porta da sala bater.

 

Os Experientes: nunca é tarde para a biscatagem

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Recentemente, a Rede Globo exibiu a minissérie Os Experientes, com foco em histórias que tenham como protagonistas pessoas idosas. Quatro episódios com produção caprichada que trouxeram um pouco de diversidade para a televisão por alguns dias. Afinal, tirando atores e atrizes muito celebrados, como Fernanda Montenegro e Antonio Fagundes, é raro ver pessoas idosas atuando e ganhando papéis principais.

Para as mulheres, envelhecer significa também tornar-se cada vez mais invisível, assexuada e resignada na visão de uma sociedade que prega a juventude como símbolo máximo da esperança e das mudanças. Porém, qualquer pessoa que está envelhecendo, ou que convive frequentemente com pessoas idosas, sabe que as mulheres muitas vezes se libertam de uma série de amarras nesse período da vida. Ao passar o tempo dos cuidados com filhos, auge da carreira e até mesmo o fim do casamento, muitas finalmente param e olham para dentro de si, encontrando uma mulher que deseja e quer novos horizontes. Esse pode ser o resumo da história de Francisca.

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Após a morte do marido, 45 anos de casada, ela descobre que não se lembra onde estava em vários desses anos. Apenas vivia. Um homem, que segundo ela não tirava nem a roupa dele e nem a dela no momento de fazer sexo. O luto de Francisca surge quando descobre por meio de cartas que por vários anos o marido teve uma amante, que frequentava o círculo de amigos da família. Nesse momento, surge a abertura para que a vizinha Maria Helena a convide para sair, para dançar.

Envelhecer significa vivenciar mudanças físicas na pele e no sentir do corpo. Em diferentes momentos, a dança acaba sendo um catalisador dessas sensações corporais para Francisca. Quando Cristiano, um homem bem mais novo, a pega para dançar no baile. Quando na intimidade, ela dança com Maria Helena. E, no fim, quando assume que está vivendo um sonho mágico, enquanto seu filho cheio de preconceitos pede que ela caia na real.

Francisca e Maria Helena não se questionam como deveriam nomear sua sexualidade. Se agora são lésbicas, se antes eram heterossexuais. Esses termos que são importantes politicamente, mas que no vasto mundo dos sentimentos tornam-se obsoletos. Há o que une Francisca e Maria Helena, o nome que se dá a isso é o mais básico de todos: amor. Vivendo suas vidas elas já estão subvertendo o que se espera de duas mulheres que deveriam estar “vivendo seus lutos e aguardando a morte”, como insiste em repetir Daniel, o filho de Francisca.

Há o receio da solidão. Há a necessidade de cuidados específicos. Porém, ninguém precisa viver quieta num canto porque a sociedade não quer ver ou mesmo reconhecer sua finitude. A velhice, assim como todas as outras fases da vida, merece ser celebrada. Nossa preocupação deve ser sempre prover as pessoas mais e mais possibilidades. Porque não há época melhor ou pior, há o momento em que escolhemos e podemos viver.

Assista o episódio completo “Folhas de Outono” no youtube.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Velhice – a vida na prateleirinha?

Velhice. O que acontece com as pessoas caso não morram antes.

E o ponto de partida desse texto é o rebu causado pelo beijo das maravilhosas Nathalia Timberg e Fernanda Montenegro em “Babilônia”. Como um fio a ser puxado de um novelo. Mas é só um fio mesmo.

Muito se falou do beijo por ser um beijo gay. Mas a mim impressionam também certos “que nojo!” que andaram dizendo por aí. Nojo? Beijo? Beijo gay? Não, não apenas. Beijo entre pessoas idosas. Beijo na boca entre pessoas idosas.

Pessoas idosas: pessoas. Como pessoas adolescentes, jovens. Como pessoas adultas O que quer que seja isso: adulto é um não-ser. Já não é mais adolescente, ainda não é idoso. Tá no meio. Sem adjetivos. Pessoa apenas. Ponto de vista. Já as “pessoas idosas” são vistas, tantas vezes, como se não fossem mais. Ainda sendo.

Tiram-se delas, sem nem perceber, direitos: de vida. Como se aos idosos cabesse ficar sentados na prateleirinha, esperando o dia em que deixarão de ser de verdade. Então, tudo causa escândalo, tudo é motivo de espanto: viagens? Pra quê?  Você vai se cansar. Namorado? Não já passou o tempo disso? Olha, ele só pode estar querendo se dar bem em cima de você. Por que outro motivo? Um curso novo? Na sua idade? Dinheiro jogado fora. Melhor botar na poupança. Deixar para os filhos, para os netos, para os sobrinhos. Sente ali na prateleirinha. Quietinho. Isso. Não faça barulho. Espere. Espere. Vai chegar.  Não se agite. Não se irrite. Calma. Está vindo, não percebe?

Sexo? Aí não, né. Aí é demais. É feio, é grotesco, é errado. É incômodo, é desagradável. Sexo de idosos. Que idéia. Prazer? Idosos, prazer? Jura?  É quase indecente pensar nisso. Não, não, esquece.

Velhice: apenas o que acontece com quem não morreu antes.

Mas parece que não. Com uma sociedade em que, cada vez mais, o ideal é o rápido, o efêmero, o novo, o jovem… ah, esse sim, dinâmico, veloz, enérgico, em tudo se parece com o ideal dessa sociedade em que a história, a memória, a experiência são cada vez mais desprezadas em favor do rosto sem rugas e sem vida pregressa de quem ainda mal começou a viver.

E os idosos, ah, os idosos… e no entanto. É só olhar em volta. Estão por aí, por todo canto. Fazendo viagens, conhecendo gente nova, caminhando na praia, jogando na praça, contando histórias. Estudando, pensando, divagando, esculpindo, pintando. Trabalhando, ralando, se esforçando, aprendendo. Idosos são pessoas vivendo. Continuando a vida.

Questões de saúde? Problemas de vista, dificuldade de andar, outros cuidados? Sim, evidente. Mas isso é apenas uma parte. Como é parte da vida de tantas outras pessoas. Que não precisam ser definidas por essas questões, por esses problemas. Modos de olhar.

Pessoas. Que já viveram um tanto. Mas que estão vivas. Hoje, vivas. Vivendo a vida de agora. Com os beijos de agora. Os amores de agora, as tristezas de agora. Continuando a fazer sua história, a cada dia. Fora da prateleirinha.

Sobre idade, mulheres e desejos

Li recentemente um blog de uma brasileira que vive na Austrália. A menina fez uma lista falando das diferenças culturais entre os dois países. Não costumo dar ibope pra esse tipo de comparação que geralmente recai na inferiorização da cultura brasileira frente ao outro. Como se nada aqui prestasse ou se eles, os outros, fizessem tudo certo e nós, bárbaros, as coisas erradas. Não dá. Porém, algo me chamou atenção na lista dessa moça. Ela disse que lá na Austrália, os homens mais velhos preferiam se relacionar com mulheres da idade deles. Que era até difícil ver um casal com uma diferença significativa (?) de idade.

Daí fiquei pensando em um monte de coisas. Até meio contraditórias. Confesso que achei bacana isso de pessoas mais velhas continuarem namorando, se apaixonando, se encantando. Mas também acho que a diferença de idade entre casais não pode ser tabu. Chato mesmo é ter regras rígidas pautando normas em relacionamentos afetivos. Né?

Mas, em nossa cultura, só um lembrete: homens, de qualquer idade, estão autorizados a ter vida sexual e afetiva. O mesmo não vale para as mulheres.

É sem sombra de dúvida, um hábito cruel e canalha desautorizar socialmente que uma mulher mais velha namore. Com alguém da idade dela, mais velho ou mais novo (aí o escândalo é total). Parece válido indagar: por que mulheres consideradas “maduras” ainda causam bastante estranhamento por exercerem seus desejos e suas sexualidades? Parece que a sua avó, a sua tia, a sua mãe ou aquela sua ex-professora devem estar condenadas a viver sempre no lugar da não-libido; como se fossem seres destituídos de desejos e que devem ser engolidas por essas identidades, quase sempre ligadas a maternidade com uma conotação conservadora e aprisionante.

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Vejo com dó o escarcéu que a mídia faz em torno da vida amorosa de Susana Vieira. Quase sempre na perspectiva de ridicularizá-la e de torná-la uma figura folclórica porque a mesma simplesmente comete a ousadia de namorar. E de namorar homens mais novos. Mas e daí? Susana poderia se relacionar com toda a torcida do Flamengo mais a do Corinthians que não seria da nossa conta.

Mas a mídia que alimenta as fofocas das celebridades, esperta como ela só, sabe que criar esses personagens como esse, da “senhorinha sem-vergonha”, ajuda e muito a vender revistas e a aumentar o número de acesso aos sites de espetacularização da vida privada. E sinceramente, a gente só perde com isso. Porque não devíamos reforçar essa cultura que tanto deprecia as mulheres mais velhas no exercício das suas liberdades de corpos e afetos. Ora, todxs nós chegaremos lá (assim espero, risos). E que vida linda, farta e generosa podemos ter sem esses rótulos babacas e moralistas! Realmente precisamos alimentar esse julgamento que acaba pesando muito mais pra nós, mulheres?

Não concordo e não darei o braço a torcer. Jamais esboçaria qualquer sinal de reprovação se minha mãe, aos 56, viúva, quiser namorar. Aplaudo e sempre aplaudirei pessoas que optam por serem felizes, sozinhas ou acompanhadas, por viverem seus desejos à revelia do olhar alheio, da patrulha alheia. Gosto dos que têm fome, como diz o verso de uma música de Adriana Calcanhotto. E vamos parar de apontar o dedo e deixar que as pessoas apenas fluam nas suas experiências, em qualquer fase da vida.

Sexo, Idade e o Absurdo

Há um momento em “E o vento levou” em que o galã, Reth Butler, meio agoniado de não conseguir a atenção da não tão mocinha Scarlett, pergunta: “Você já pensou em casar só pela diversão?” e ela, entre surpresa e desiludida, responde: “Besteira, diversão é só pra homens”. Vejam bem, essa fala veio de uma personagem mulher em um filme que retrata a Guerra da Secessão Americana e o período logo a seguir, ou seja, por volta de 1865. Uma mulher, nessa época, seria educada pra reprimir seus desejos, pra subestimar seu prazer. Além disso ela foi casada primeiro com um moço demasiado jovem e inexperiente e posteriormente com um personagem mais velho e aparentemente não muito atento a satisfação da esposa. Nada mais razoável do que uma personagem assim considerar a diversão e o prazer do sexo como exclusivos dos homens. Pra sorte dela, o moço Reth a ajuda a perceber que essa idéia é um equívoco e que devia ter gozo pra todos os envolvidos no rala e rola.

Desde 1865, vamos combinar, muita água já passou por baixo da ponte, tivemos o Relatório Kinsey, a pílula anticoncepcional, tem gente cantando alegremente: “a porra da buceta é minha”, a Marcha das Vadias está na rua, o aborto é legalizado em vários países, há uma compreensão maior do papel do clitóris no orgasmo, tem muita gente envolvida na busca do Ponto G, já se fala em pornografia direcionada às mulheres e por aí vai. Temos até um blog que tem BISCATE no nome, né? Dá pra imaginar que a fala da Scarlett, “diversão é só pra homens”, está totalmente superada, não? Claro, a gente sabe que sempre tem um ou outro mais antiquado, mas as pessoas bem informadas já ultrapassaram isso… Bom, detesto partir o coração de vocês, mas não, não superamos não.

Se tivéssemos superado não teríamos uma decisão, vinda de um Supremo Tribunal de um país teoricamente de Primeiro Mundo, “europeu e esclarecido”, deliberando que uma indenização destinada a uma mulher (por conta de um erro médico que a impede, entre outras coisas, de trepar) deve ser reduzida porque, ATENÇÃO, sexo não é uma coisa relevante para uma mulher de 50 anos. Eu reli pra ter a certeza de que não tinha entendido errado. Mas é isso mesmo: juízes decidiram reduzir uma indenização a ser paga por um hospital por causa de erro médico porque, no entender deles, mulher de 50 e tais anos não tem que ficar de saliência, afinal, nem vai ter mais filhos mesmo. MAS, GENTE, QUE ANO É HOJE?

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Leiam e chorem, amiguinhos: “O Supremo Tribunal Administrativo reduziu o valor da indenização que a Maternidade Alfredo da Costa tem de pagar a uma mulher que ficou impedida de voltar a ter relações sexuais com normalidade depois de ali ter sido operada há já 19 anos. Um dos argumentos invocados pelos juízes, com idades entre os 56 e os 64 anos, é o de que a doente “já tinha 50 anos e dois filhos”, isto é, “uma idade em que a sexualidade não tem a importância que assume em idades mais jovens, importância essa que vai diminuindo à medida que a idade avança”.

Tal decisão traz, inequivocamente, uma visão utilitarista da sexualidade feminina. Sexo, pra mulheres, deve ser para procriar. O corpo feminino serve, a princípio, a terceiros. Como incubadora, prioritariamente. Ecoa a fala da Scarlett: Diversão? É só para os homens. Como bônus, temos a acompanhar mais um elemento da visão machista sobre a sexualidade feminina: uma mulher não é pra se dar ao desfrute, imagine uma mulher velha! Afinal, sexo é uma coisa para corpos femininos jovens, que possam ser devidamente objetificados. Além de incubadora, um objetivo secundário: ser parque de diversão pros homens. Bobagem nossa achar que sexo tinha relação com o prazer que a pessoa, em seu corpo, com formato e idade que tivesse, podia obter no processo.

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Depois de ler essa notícia que me chocou, entristeceu e revoltou, fui fuçar no google. Sabe como é que é, coloquei, em diversas combinações, as palavras: sexo, mulher, velhice (só façam isso em casa se tiverem o estômago forte). Não, o choque, a tristeza e a revolta não foram embora. O que eu li foi uma sucessão de textos que naturalizavam, justificavam ou mesmo preconizavam a redução da vida sexual das mulheres com o passar dos anos sem nenhum questionamento do papel da cultura, da mídia, dos valores nesse processo (não estou falando dos artigos acadêmicos, mas de matérias de portais, posts em blogs e sites ditos femininos). Nenhuma interrogação. Alguma lamentação, muito conformismo, uma e outra dica. E, na minha cabeça, um monte de temas completamente ignorados nas publicações. As mulheres mais velhas fazem menos sexo  e, muitas vezes, quando o fazem, não aproveitam nem se satisfazem e isso não causa nenhuma coceirinha no juízo de vocês? Tipo autoimagem, autoestima, padrões de beleza, a mitificação da mulher como ser sem desejo, a supervalorização da relação entre sexo e amor para as mulheres, o desconhecimento do próprio corpo, a pouca prática da masturbação, a vinculação entre sexo e procriação… nada disso, sério mesmo, é sequer mencionado quando se fala em sexualidade feminina na terceira idade? Só diminuição da lubrificação, desconforto e bola pra frente, tem outras atividades que podem ocupar o tempo? Pronto, pra que falar mais sobre o assunto?

Então, eu não sei vocês, mas eu pretendo falar muito sobre o assunto. Perguntar. Me indignar. E continuar afirmando, em palavras e ações (de preferência mais ações que palavras #intençõesbiscates), que a relação entre idade e sexo não deve ser necessariamente de “quanto mais A, menos B”, seja em quantidade, qualidade ou, mesmo, vontade. Nossa sociedade imediatista, focada na juventude, machista, cristalizou a ideia de que as mulheres, ao envelhecerem não são mais desejáveis (e, claro, nunca desejantes, a não ser que sejam essas, essas, essas…biscates, que não se dão ao respeito) e é essa ideia que, acho eu, precisa ser desconstruída pra que absurdos como a decisão do Supremo Tribunal Administrativo português não continuem sendo regra no nosso cotidiano.

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PS. Para além do sexismo clamoroso eu suspeitava que a decisão compreendia, também, um forte componente de classe. Ali, escondidinho discretamente na matéria, temos a informação de que a vítima do erro médico era uma empregada doméstica. Sem mais elementos, não coloquei esta discussão no meu texto. Os elementos surgiram, (ieba) nesse texto que nos dá ainda mais pra pensar, “O sexo e a idade” de João Taborda da Gama: “em 1998, um “administrador de empresas” retirou a próstata na sequência de uma biopsia ter revelado cancro. Afinal não havia cancro nenhum e, além do susto, o “administrador” ficou incontinente e impotente. Ao senhor “administrador” “com quase 59 anos”, o tribunal atribuiu, em 2008, 224 500 euros de indemnização. Ainda há três meses o STJ fixou em 100 000 euros a indemnização a um homem “social e financeiramente bem-sucedido na vida” que, num caso idêntico, ficou incontinente e com as ereções reduzidas a 60%-70%. Tinha 55 anos. Quando uma vida vale em média 65 000 euros nos tribunais, a filosofia judicial é clara: antes morto que mortiço. Os tribunais sabem bem o valor do sexo depois dos cinquenta, mas sobretudo para homens que estão bem na vida. Na cabeça dos tribunais, um homem rico e uma mulher pobre são mesmo pessoas de sexo diferente.

Pulso

Ele segura sua mão. Ela, deitada, enfraquecida, muita pele, muito osso. Dor. Muita dor. Ele chora. Ela, não. Ela não produz mais lágrimas. Produz ausência. Lembranças. Ele lembra: o riso, sempre. O primeiro beijo, tudo errado, dentes batendo, línguas demais. Tesão. Ele lembra o choque de desejá-la tanto que teve que se afastar pra não gozar só encostando nela, esfregando nela. Lembra os seios, jovens e duros, depois macios e pesados, ainda mais depois, saborosos e moles. Sempre dela. Sempre bons. Lembra a pele enrugando e a mão dele se perdendo nos cantos quentes: entre os dedos, a curva do pescoço, atrás do joelho, entre as coxas, o cu, a buceta molhada. Sempre pronta, ela dizia. Sempre foi verdade.

Lembra as certezas que teve: pra vida toda. Só não sabia é que, mesmo toda, a vida também acaba. Lembra de esquecer a felicidade mas, em fragmentos, ela o machuca. Lembra as conquistas que avaramente empilhava e ela sempre tratava de zombar, ele fazia o inventário de sua felicidade e ela espalhava em ventanias de desassossego. Lembra que sempre queria mais e ela sempre tinha mais pra dar.Lembra a trepada no banheiro do restaurante. Lembra as viagens de carro e o sexo oral que ela lhe fazia com olhos risonhos. Lembra a intimidade em casa, o natural andar nu e, de repente, o pau latejava, ela ria adivinhando a necessidade dele. Lembra as mudanças: papaiemamãe, de quatro, de lado, ela cavalgando, ele invadindo, em pé, sentados, lenços, óleos, bolinhas, de quatro, papaiemamãe. Lembra os dias em que não saíam de casa, o sexo fazendo às vezes de comida. Lembra o mês inteiro sem trepar, a mãe dela doente, ela sofrendo junto, ele sofrendo com ela. Lembra as perdas, todas as perdas que eram vazios maiores que o espaço do seu abraço.

E, claro, lembra o rabo. Que bunda, senhor, que bunda, ele a enrabava sempre que podia, ela fazendo doce, aiaiai e oferecendo e pedindo e mandando. Enfia. Sim, ele lembra, ele pensa, mais, mais e ela sempre tinha mais pra dar. Lembra as mãos dela tocando, agarrando, movendo-se, firmes, fortes, quentes. Lembra a língua dela deslizando no seu corpo. Lembra os dedos dele se enfiando entre as pernas dela a qualquer hora. Quente. Molhada. E, agora, ela quase não está mais lá.

Ele segura sua mão pra que ela não parta sem que ele saiba. Não, ele segura sua mão para que ela não parta. Ele a quer, tanto. Ele, em pontadas, reconhece sua fome. Será?

Vira a mão que segura com zelo e beija o pulso que acelera quase imperceptivelmente. Ele sempre a tirou do prumo. Ele a olha. Olhos entreabertos, respiração difícil, osso, pele, dor. Ela adivinha. Sempre soube do tesão dele no momento mesmo que. Quero. Querida, tem certeza? Quero. Ele sobe na cama de hospital, alta demais, estreita demais, não importa. Ela está nua, coberta apenas pelo lençol. Ele se coloca entre as pernas dela, as mãos não se demoram, o dedo procura os lábios, grandes e pequenos, afasta-os: quente, pronta. Ela: eu disse que queria. Ele ri, precisava ter certeza. Curva-se, com uma certa dor nas costas, a idade pesa nele um pouco menos, mas também já chegou. Desajeitado, repete o beijo. O primeiro. O errado. Línguas demais, dentes batendo, vontades que não se pode dizer. Que nem mesmo se devia sentir. Mas ela sabe, sempre o soube antes dele aceitar o querer. Afasta a coxas e a faz dobrar os joelhos, porque ela já não tem forças. A língua já conhece os caminhos. Primeiro os grandes lábios, sem pressa. Pra cima, pra baixo. Com força, leve, leve. Beijos. Sugar, sem força. Ela arfa. Ela ri. Ou não é riso isso que acende lágrimas no olho dele? Ele para. Não, não, continue. Ele entrelaça a mão com a dela, e dirige-se aos pequenos lábios. Mais delicadeza, mais prazer. São brancos os poucos pelos que restam. Ele sopra, quente, uma brincadeira de sempre. O clitóris chama. Pulsa, avermelha-se. A língua desliza, certeira, e pressiona. Ele beija. Chupa. Lambe. Roça o queixo, flácido, no sexo dela. O dedo entra e sai, entra e sai, entra e sai. Ela soluça. Leva a outra mão dele com esforço até a boca e, num movimento firme, chupa o polegar. Ele também arfa, meio sem ar. Ela sempre soube deixá-lo tonto. Ele, mais rápido, dedo e língua. Ela, mais firme, com mais fome, polegar. Ele chora. Ela não. Não produz mais lágrimas. Gozam. Ela geme, ele já não sabe se de prazer ou da dor que é sempre dela. Ela vai embora hoje, ele sabe, ela sabe. Ele desliza pra fora da cama, pega um copo d’água, senta e segura, mais um pouco, a mão dela. Beija o pulso, mas já não há.

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Amar

Não existe saudade mais cortante
Que a de um grande amor ausente
Dura feito um diamante
Corta a ilusão da gente…
(Zé Ramalho)

A vida é curiosa, passo tanto tempo tentando entender como funcionam os sentimentos, quando na verdade, só preciso sentir. Eles não são para se racionalizar, pelo menos, não pra mim.

Estou em casa!

Estou em casa!

Essa sexta e esse sábado que passaram, me dei conta do que é ser puro sentimento, sem racionalidade, um simples passeio ao centro do Rio de Janeiro, encontrar pessoas que me marcaram num passado distante e voltar a um local que, até hoje, enxergo como minha casa. Esses momentos me fizeram ver que o tempo não apaga sentimentos, eles ficam latentes, esquecidos no cantinho do meu coração, até a pessoa ou um local reaparecer, aí tudo volta com força!

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

15 anos depois! (parte da) Turma de 1999 :)

Amar é tão simples, é tão fácil e é tão surpreendente. Eu me surpreendo com os meus sentimentos todos os dias. Me surpreendo com como posso amar tanto, num tamanho sem fim, às vezes, um amor que dói, às vezes, um amor que cura. Dói quando vemos o sofrimento de quem amamos, sem poder fazer nada para ajudar. Cura minhas tristezas quando vejo minhxs amadxs felizes.

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Nostalgia e lágrimas! Um pedaço da minha infância do lado de fora da janela do ônibus!

Tem amor que me surpreende, recebo uma notícia, a pessoa cheia de dedos, achando que pode me magoar, me conta algo que só faz amar mais e se sentir orgulhosa por amar essa pessoa. Pessoas que nem esperava compreensão, me auxiliando quando mais preciso! Amigxs antigxs voltando para a minha vida com toda força e importância.

Sou feita desses sentimentos, amar é o que faz de mim tudo o que sou, da cabeça aos pés, sou puro amor.

How I wish
How I wish you were here
We’re just two lost souls
Swimming in a fish bowl
Year after year
Running over the same old ground
What have we found?
The same old fears
Wish you were here
(Pink Floyd)

Que seja eterno, enquanto duro

Toda vez que. Penso na gente. Penso em pernas, coxas, bundas, pelos, cheiros, suores. Na verdade nunca imaginei a gente juntos, felizes para sempre, cinemascope, velhinhos de mãos dadas passeando no parque, café da manhã levado na cama. Mas já imaginei, sim, você e eu trepando, fodendo, metendo, barulhando, molhando. E aí não tem idade não. Acho que essa coisa vai ser sempre assim, os dois fisicamente mais gastos, sexualmente não.

Há aquela maldita pressão institucional de que uma trepada sensacional é capaz de mover montanhas e por causa disso todos os amores impossíveis se tornam possibilidades de redenção. Sei que não. Você não vota em quem eu voto, você não crê nos mesmos deuses que eu, você não gosta de futebol, nem de quindim. Teu trabalho acho chato, insuportável. O que deixa boa parte de nossas conversas uma monotonia sem classe, metódica. Mas tua língua, não. Nunca me foi áspera. Só quando necessária, para a fricção.

happy end

Você se casou, é? Não? Não casou? Não quero saber, sabia. De verdade. É um pouco de egoísmo talvez. Mas quem sabe tanto de minhas vielas, percursos, axilas, pés, pintas, cores de calcinha ou cueca, precisa saber mais do quê? Se tenho medo da solidão? Talvez. Mas com você eu tenho medo é de não mais poder tocar, sussurrar, gritar, morder. Só me avise se não puder atender. Eu não te pergunto nada. Nada. Mas talvez, quem sabe, não me pergunte também.

Não posso prometer isso. Porque não sei. Sabemos que sim, teu gosto tá aqui a fazer prova disso. E que prova… Mas não posso prometer que será sempre assim. Nem é poesia, nem é drama, nem é roteiro de novela. É só o que deve e deveria ser. Tem medo de se machucar? Então nunca ande de bicicleta. De clichê, só os desesperados, urgentes e finitos. E romance barato é gostoso, é foda de gostoso. O chato e inconveniente é o acreditar no romance que só pode ser dos outros…

Vem cá, me beija.

 

O Tempo e a Gente

Érico, Senhor do Tempo

O título, claro, é inspirado de “O Tempo e o Vento”. Porque adoro o Verissimo. O Érico, digo. Verissimo e suas mulheres. Ana Terra, Bibiana. Mulheres que crescem, que envelhecem. Que guardam solidez e força na sua história. Mafalda, também. A mulher do Verissimo. A mãe da Clarissa e do Luiz Fernando.

A passagem do tempo. As rugas. Os cabelos brancos. Mulheres. Com rugas e cabelos brancos. Mulheres com história pra contar. Com história inscrita no corpo. Peso, volume. Rugas. Marcas. Cicatrizes. Cabelos brancos.

Quando eu tinha uns quatorze anos escrevi um texto que falava disso. De um homem, de uma mulher. Sentados numa mesa, um em frente ao outro. Não lembro como começava o texto, lembro que a mulher dizia que estava velha, o homem a olhava, pensava na vida que tinham vivido juntos, no caminho percorrido e “viu, naquele rosto, as marcas daquele caminho. ‘Você está linda’, murmurou”.  Assim acabava o texto.

Eu tinha quatorze anos e já achava isso. E, certamente, muita gente disse “você só acha isso porque tem quatorze anos”. Ah, a inocência. Ah, o encantamento da vida não-vivida, você aí, pele lisinha, magra, tudo por vir, você pode achar bonito. Bobinha.

Bom. Se foi mesmo com quatorze, fazem trinta e dois anos. Ninguém hoje há de dizer que eu sou novinha. O texto tá em algum lugar por aqui, se eu procurar bem eu acho. Mas hoje me dizem “ah, você não parece! Ah, você tem  a pele tão boa, você não tem cabelos brancos, você”… qualquer coisa, né? Qualquer coisa menos aceitar, na lata, pelo valor de face, que eu gosto. Gosto de história. Gosto de tempo passado. Gosto de vida vivida. Gosto das marcas.

Eu gosto, e isso incomoda. Não peço desculpas, não digo “apesar de”… apesar de que? Minha vida, minha história. Meu corpo. Eu. Eu, é isso. Gosto mais de mim hoje. Tenho carinho, sim, por aquela menina perdida e meio selvagem de quatorze anos. Mas voltar? De jeito nenhum. Não tenho nem saudade. Foi bom, tanta coisa. Foi difícil, foi sofrido, foi alegre, foi maravilhoso, foi difícil de novo. Caminho. Marcas. Vida.

Sir Anthony, sendo lindo

Não é “felicidade”: é vida. Vida que se vive. Quando a gente vai, tudo pode acontecer. Alegrias, mas muitas dores também. Riscos. Penhascos. Cortes, arranhões. Nossos abismos. Vida é movimento. Desafio. Desafino. “Felicidade”, assim, como beatitude, só os anjos, acho. Mas eles não vivem: perguntem ao Peter Falk de “Anjos Sobre Belim”. Ele sabia e optou.

Gosto de rostos com marcas. De cabelos brancos. De olhos com rugas nos cantos. De marcas na alma. De vislumbrar dores alheias. Acho bonito. Rostos lisos, barrigas achatadas? Posso até admirar as formas. Mas não me comovem. Nem hoje, nem quando eu tinha quatorze anos.

E agora eu tenho quarenta e seis. Já posso falar disso?

Simone Signoret, rugas e olhos verdes

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