Vermelho escarlate


Sangue, vermelho vivo. Sabe aquele sangue que corre por dentro? Então, a gente tem. E a gente escorre. Todo mês, com a graça da natureza, ele escorre. Bem ali do meio das pernas, seguindo uma rota conhecida que vem das entranhas, do útero, do processo de fazer-se mulher. Um fluxo pulsante que sai pela vagina, e volta para a terra. Que é força fecunda, matéria prima das nossas células.

Sangue menstrual devia ser motivo de orgulho. Orgulho, sim.  Sinal do corpo de que tudo anda bem, seguindo seu caminho de desaguar os rios femininos. Eu menstruo. E todas nós, mulheres, fluímos neste ciclo. Sem se esconder, vamos repetir? A gente menstrua.

E já é hora de esquecermos aquelas velhas amarras que vem dos moralismos antepassados, de que menstruar tem que ser escondido, que tem que ter sofrimento (claro, eu sei, cólica e TPM é um inferno, mas vamos deixar sair!), que trepar menstruada é ruim, que tem que ir no banheiro quase escondida, que o sangue é nojento, é “eca”, que mulher menstruada tem que se recolher e esperar acabar essa “tortura”. Vamos esquecer a história mal contada de que menstruação rima sempre com incômodo, que é ruim ir à praia, nadar, correr, sair de roupa justa e, até, viver, porque tem sangue vindo da vagina.

Deixemos o sangue vir enquanto a gente dança, ama, e se espalha por aí sem medo. Deixemos o sangue vir porque ele é força, uma renovação mensal da gente mesmo. A gente pode se tocar, o sangue que sai é de um vermelho colorido e bonito, a gente pode usar absorvente interno e agora os incríveis coletores menstruais (tire suas dúvidas aqui, no Blogueiras Feministas), a gente pode sentir a nossa feminilidade por inteiro, pode dormir se tiver sono, pode berrar se tá nervosa, pode chorar sem motivo, pode mandar todo mundo a merda, pode viver o que se chama ciclo. Porque a vida é cíclica. E existe prazer nos ciclos, um prazer bom de ser o que se é.

A artista plástica Vanessa Tiegs (http://vanessatiegs.com/) usou o seu sangue menstrual para pintar quadros, esses aí que ilustram o post. Foram 88 pinturas com seu próprio sangue, que hoje transitam por galerias ao redor do mundo. Ousada? Ela foi lá e fez, com seu ciclo, arte. E a gente pode fazer com o nosso ciclo o que bem entender.

Porque biscate é bem vermelho escarlate. Que pinta e borda as mais diversas ousadias de ser mulher.


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