Não tenho filhos. E daí?

Reencontro com as colegas da antiga turma de graduação via um grupo virtual que foi criado. Muito tempo que não as vejo, que só tenho contato com algumas poucas por intermédio do facebook. Das primeiras perguntas: Quem casou? Quem tá solteira? Quem teve filhos? Respirei fundo, porque já pressentia como ia ser a tônica da conversa e falei de mim, como estava a minha vida, no que fui solenemente ignorada. Aqui o papo é outro. Muitas respondem orgulhosamente que casaram. Que já tiveram filhos. O primeiro e o segundo. Que estão grávidas. Como não tenho filhos, não casei e nem penso em engravidar no momento, senti que fui deixada de lado. Já um pouco cansada daquela conversa, tentei mudar o assunto. Muito embora porque entenda que nós somos maiores que esse projeto do casamento e que, vez ou outra, é bom conversar sobre filhos, mas também é prazeroso bater um papo sobre carreira, viagens, projetos profissionais, bofinhos, bofinhas e outras contingências mais. Então ousei perguntar: “Além disso (casamento e filhos), quais são as outras novidades? Que vocês andam fazendo de bom, meninas?”. E escuto, na lata, de uma colega que já tinha dito anteriormente que estava grávida, repetindo em alto e bom som: “eu fiz um FILHO!”. Assim, com letras garrafais mesmo. Entendo que ela esteja feliz e empolgada com a primeira gravidez (e com todo direito), mas o que não gosto é dessa sutil crítica que permeava a conversa, em dividir, as mulheres entre aquelas casadas (supostamente bem-sucedidas) e as solteiras coitadas (“mas não se preocupe, deus vai te mandar o homem certo na hora certa”). Percebendo o rumo da coisa, eu fui irônica de uma forma que até me causou arrependimento depois e falei sem pensar: “E por acaso você quer um troféu por estar grávida?”

familiaNão, não gostei do que eu disse. Achei desnecessário e um pouco arrogante até. Mas tentei ir na defesa de escolher entre um caminho ou outro. Porque sempre acreditei em um feminismo amplo e generoso, que respeita as liberdades e projetos de vida diversos de outras mulheres. Não estou criticando a escolha de ninguém em casar e ter filhos. Apenas não tolero que façam isso comigo porque tenho escolhido justamente o oposto.

Bem, depois disso, achei que fosse ser expulsa do grupo. Não fui. Mas também não me senti mais confortável de estar lá. Vi-me como uma estranha no ninho. Deslocada, perdida, sem conseguir me comunicar. Mas mais do que isso. Muito mais. A percepção da sociedade ainda é de lançar esse olhar piedoso e de cobrança para a mulher que tem mais de trinta anos e que ainda não casou. Mulher assim é considerada um projeto amputado; falta-lhe alguma coisa. Que pode ser prontamente resolvido com um marido e crianças. E dói saber que sejam as próprias mulheres a cumprir esse papel do carrasco. Nós, vítimas e algozes ao mesmo tempo dessa cultura que insiste em nos dar um script pré-acabado pra todo mundo. Mas eu rejeito, sabe? Não quero esse roteirão. Não vou dar chance para que meçam minha felicidade ou lhes dar poder para que façam o balanço da minha vida baseado em critérios que não são meus. Não acho que uma mulher que tenha casado e tido filhos seja superior a mim. Nem tampouco eu sou a ela. Somos todas mulheres, com trajetórias e escolhas diferentes. Por que eu deveria medir a minha vida pela sua? Não percebem o quão arbitrário e violento é isso? Favor parar com essa coisa de criar um ranking de parâmetro de sucesso individual pra saber quem fez mais ou menos com a sua vida. Coisa mais ultrapassada e démodé…

E o fato de eu não ter casado e não ter tido filhos não faz a minha vida menor ou incompleta. Também não é uma vida perfeita e sem crises. Uma das poucas coisas que tenho certeza, é que a existência não deve ser pautada pelo suposto verde da grama de outrem. Esse verde definitivamente não me cabe, não me representa, não me acolhe. Meu verde é outro, sabe? Sorrindo ou não, a minha grama é uma aquarela com nuances amarelas, azuis, brancas, vermelhas, cinzas e marrons. Aceite isso antes de querer me enquadrar. Apenas.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Arte linda da Carol Rossetti. Só pra lembrar que não somos menos mulheres porque decidimos não ter filhos.

Teve um dia que me chamaram de puta…

I’m a bitch, I’m a lover
I’m a child, I’m a mother
I’m a sinner, I’m a saint
I do not feel ashamed
I’m your hell, I’m your dream
I’m nothing in between
You know you wouldn’t want it any other way

Meredith Brooks – Bitch

E esse dia não foi o único, mas foi uma ocasião diferente das inúmeras vezes em que fui chamada de puta no dia a dia. A diferença estava na importância que a pessoa tinha na vida do meu companheiro na época. Sim, fui chamada de puta por umx familiar de um namorado, mas também não foi x primeirx membrx da família de um namorado meu que me chamou de puta. O que diferenciou é que, nas outras vezes, eu ainda não estava empoderada e, dessa vez, já era Biscate assumida.

Mas, pensemos: Porque me chamar de puta? Bem, a pessoa usou esse nome pra mostrar que desaprovava meu relacionamento com esse namorado. Afinal, um homem como ele não deveria namorar uma mulher como eu. Mas, como sou eu? Bem, sou ex-professora, formada e pós graduada, com meu emprego próprio, me mato de estudar todos os dias pra passar em um concurso público e apaixonada pela minha mãe. Se eu fosse uma mãe, tia, avó, irmã, eu adoraria uma mocinha dessas como namorada de umx membro da minha família. O que incomodou tanto essa pessoa, afinal? Ah, eu esqueci, sou daquelas mulheres que transa no primeiro encontro, não frequenta igrejas, bebe muito, mora fora da casa de sua mãe e seu pai, foi criada em um “lar desfeito” (ah, o medo de mulheres divorciadas criarem pequenos monstros que não fazem as tarefas de casa sozinha!) e tem suas opiniões muito fortes. Sim, eu sou uma biscate!

Meus companheiros não precisam ir a casa de minha mãe e meu pai me pedir em namoro, na verdade, se ninguém por lá aceitar o namorado ou namorada, eu nem ligo. Sou carinhosa, gosto de cuidar de quem amo, cozinho e faço agrados, mas espero agrados de volta, como me ajudar com a louça que acumulou em minha pia por causa de minha tendinite (afinal, divisão de tarefas vem também de cuidar e amar). Não sou muito simpática com pessoas que me impõem coisas como religião, comportamentos e atitudes. Não quero e nem preciso ser recatada ou delicada, falo alto, rio alto, durmo pelada na casa do namorado. E apesar de adorar namorar, tenho uma lista beeeeeem extensa de parceirxs sexuais em meu passado.

Foto da Marcha das Vadias de Brasília em 2013.

Foto da Marcha das Vadias de Brasília em 2013.

Biscate, piranha, vagabunda, puta, palavras que pra mim são tão comuns (resignifiquei todas para não julgar as coleguinhas) que fiquei em dúvida se deveria me defender ou não, mas, no calor da discussão, me defendi, me magoei. Afinal, praquela pessoa, ser puta é ser indigna. Não ser mulher praquele cara especial (bastante, como todos os caras que não separam mulheres pra transar e pra casar) era ser puta, ele não me buscou na casa de mamãe e pediu minha mão em casamento, eu não cheguei virgem até ele. Então eu não era mulher que a “família” escolheria pra ele.

O fato é, não existe isso de você não é homem ou mulher pra alguém. Relacionamentos deveriam ser construídos longe de preconceitos e caixinhas de “par ideal”. E, quando conseguimos construir fora de caixinhas esse relacionamento entre duas pessoas (ou 3 ou 4, a escolha é das pessoas envolvidas), vem uma pessoa de fora querendo se meter no que tá dando certo por puro preconceito. Então, familiares, acho que se um homem namora uma puta, biscate, vadia ou o que for, isso só diz respeito a ele. Deixe que ele seja feliz, pois, se escolheu aquela pessoa é porque é com ela que quer dividir aquele momento de sua vida. Seja por uma noite, seja por meses ou anos.

This labeling
This pointing
This sensitive’s unraveling
This sting I’ve been ignoring
I feel it way down
Way down

These versions of violence
Sometimes subtle, sometimes clear
And the ones that go unnoticed
Still leave their mark once disappeared

Alanis Morissette – Versions of Violence

Vandalize o discurso de ódio nas eleições!

Texto assinado pelas coordenações
das Blogueiras Feministas e pelo Biscate Social Club.

No último domingo (28/09), foi realizado um debate ao vivo entre os principais candidatos a presidência do Brasil transmitido pela Rede Record.

Ao longo do debate, o candidato Levy Fidelix (PRTB) proferiu diversas ideias preconceituosas. Em relação a usuários de drogas, disse que: “o País tem mais de 1 milhão de drogados apenas nas grandes capitais. Esse pessoal todo não trabalha, não produz nada, além de serem, honestamente, peso para qualquer governo”. Em outro momento, ao elaborar uma pergunta ao candidato Pastor Everaldo (PSC), ofendeu presidentes da América do Sul dizendo que “Evo Morales vai trazer mais cocaína pra cá”, além de chamar Cristina Kirchner de louca. Porém, o pior ainda estava por vir.

Em determinado momento, a candidata Luciana Genro (PSOL) questionou Levy Fidelix: “os homossexuais, travestis, lésbicas sofrem uma violência constante. O Brasil é campeão de mortes da comunidade LGBT. Por que as pessoas que defendem tanto a família, se recusam a reconhecer como família um casal do mesmo sexo?”.

Na resposta Levy Fidelix derrubou um caminhão de chorume, fazendo relação direta entre o conceito de família com reprodução, além de se referir a homossexualidade como uma doença e relaciona-la a pedofilia. Por fim, ainda bradou que a maioria não deve aceitar essa minoria, que é preciso enfrentá-los. Praticamente conclamando a população para agir com preconceito e violência contra lésbicas, gays, bissexuais e pessoas trans*.

O silêncio dos outros candidatos

Após essas declarações, houve o momento das considerações finais, mas nenhum candidato usou esse tempo para repudiar veementemente as declarações absurdas de Levy Fidelix. É assustador pensar que NENHUM dos candidatos tenha usado seu tempo para repudiar a fala de Fidelix.

E, se nenhum deles o fez, se ninguém quis marcar posição nesse momento tão importante diante de uma manifestação fascista de um candidato a presidência em rede nacional, então fica difícil endossar as falas e programas dos candidatos quanto ao tema dos direitos LGBT.

É fácil estampar tais temas em programas de governo ou discursos de campanha. O uso demagógico das lutas das minorias não é novidade. Porém, responder de modo enfático e imediato é o atestado de quem tem a sensibilidade para perceber a gravidade do discurso homofóbico, lesbofóbico, bifóbico e transfóbico proferido. E isso não aconteceu.

O candidato Eduardo Jorge (PV) reconheceu em declaração no twitter que errou ao não repudiar o discurso de ódio no momento do debate. Após o debate, Luciana Genro publicou em seu twitter uma mensagem de repúdio. Ao que parece os outros candidatos não irão declarar nada quanto ao que foi dito por Levy Fidelix.

Nessa hora em que alguém mostra todo o seu ódio em rede nacional, não responder só mostra o quanto essa pauta é pequena para a nossa política. Que dia triste esse em que um sujeito incita a violência contra homossexuais dizendo: “Vai para a avenida Paulista, anda lá e vê. É feio o negócio, né? Então, gente, vamos ter coragem, nós somos maioria, vamos enfrentar essa minoria. Vamos enfrentá-los”; e assistimos os demais silenciarem.

O discurso de ódio será vandalizado

O discurso de Levy Fidelix é homofóbico e também carrega muitos outros discursos de ódio. Porém, é preciso lembrar que não devemos desumanizar Levy Fidelix, como ele faz quando se refere a gays, lésbicas, bissexuais e pessoas trans*. Esse discurso não é coisa de um monstro horroroso que mora em um lugar distante ou de apenas um candidato nanico isolado. Não. Esses discursos estão no cotidiano dos corpos marginalizados.

É o discurso que rasga, violenta e mata diversas pessoas todos os dias. Esse discurso não vem só de Levy Fidelix, vem também de nossos vizinhos, amigos, parentes, etc. O que você faz quando alguém diz: “tenho até amigos gays, mas não quero que nenhum chegue perto”? Ou que “respeita, que tolera”, que “não entende como tem homem que gosta de outro homem”, que diz que “a mulher é lésbica porque nunca achou o homem que a pegou de jeito”?

Esse discurso limpinho de tolerância é o suficiente para você? A piada feita com aquelas pessoas que não se encontram dentro de uma categorização normativa de gênero e orientação sexual é engraçada para você?

Apoiamos as diversas manifestações populares em repúdio a Levy Fidelix. Estão sendo organizados desde beijaços na Avenida Paulista até campanhas de denúncias em massa ao Ministério Público Federal. Exigimos que o candidato não possa mais participar dos debates, porque não aceitamos que discursos de ódio sejam proferidos em canais de televisão que são concessões públicas.

Não, não é fácil ouvir Levy Fidelix fazer um discurso extremamente violento em um debate para candidatos a presidência. Não desce. Não tem como dar conta disso. E por isso, esse tipo de discurso não pode mais ser admitido. Nem no debate de candidatos para presidente, nem por aquele seu amigo do trabalho, nem pelo tio no jantar de família. Não aceite ser tolerado. Não aceite ser apenas respeitado. Nós não merecemos migalhas. Nós merecemos existir da forma que queremos e não dentro dessa categoria normativa que engessa. Vandalize essas categorias e vamos à luta! Vandalizar a política!

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Foto de Danilo Verpa/Folhapress.

+ Sobre o assunto:

[+] OAB pede cassação da candidatura de Fidelix por declarações homofóbicas

[+] Luciana Genro e Jean Wyllys apresentam representação contra Levy Fidelix por discurso homofóbico em debate

 

Seriam as feministas super mulheres?

Adorei esse post da colega biscate, Sara Joker, mas esse comentário da Danusia no post mexeu muito comigo:

“(…) mais uma consideração… tem uma coisa que ainda me incomoda muito no discurso feminista. Vejo as feministas publicando textos lindos na internet, lindos mesmo… Mas todas elas dizem que são super bem resolvidas sexualmente. Todas. Acho que ainda não li nenhuma feminista insegura na cama. Pois bem, eu sou. feminista, e nem um pouco bem resolvida, em VÁRIOS aspectos da minha vida. o que não me faz nem um pouco menos feminista. E já tive sim vários problemas de ser rejeitada por ser gorda. VÁRIOS. Sendo gorda me tornei invisível pro homens.”

Mas achei que minha resposta ao invés de comentário devia virar post.

Sempre me defini como feminista desde que conheci o feminismo lá nos idos de 80/90 mas encontrar esse grupo de mulheres feministas pela internet e depois tê-las também na vida offline mudou bastante a minha vida.  Não sou a mais militante de todas, mas manifesto minhas opiniões sempre que possível, visando explicar o quanto o mundo ainda é machista e porque precisamos do feminismo (um parêntesis de agradecimento ao discurso da minha eterna Hermione) , ou participar de marchas e outros eventos sempre que dá.

O feminismo que vivo hoje é de acolhimento, parceria, debate, questionamento. Desde que encontrei minhas amigas de idéias e ideais me sinto menos só e de quebra tenho companhia deliciosa par várias conversas. Esse tipo de irmandade e comunhão você pode achar também em sua religião, aliás, a sensação de pertencimento e acolhimento é uma das coisas que faz as pessoas frequentarem suas igrejas. Mas isso você também pode achar na militância. Essas sensações fazem bem para autoestima, é inegável. Mas serei eu uma super mulher sempre correta? Longe disso, tanto que adorei o post da Sara e me identifiquei.

Mas o que isso tem a ver com supostamente as feministas terem autoestima aparentemente mais elevada ou serem mais bem resolvidas consigo mesmas e na cama?

Como disse a Luciana, sempre sabiamente (minha gurua) , posso dizer por mim. Olha, feministas são como todas as pessoas, tem medos e  inseguranças, mas no aprendizado diário com as amigas aprendemos todas a ver que somos mais, muito mais, que as mulheres de Nova que a mídia teima em vender (e até mesmo a mídia vem mudando isso: um exemplo são as campanhas da Dove de “real beleza”),  aprendi a curtir o meu  estilo próprio, a ser menos fútil, a prestar mais atenção no próximo. (sobre ser menos fútil, ainda curto coisas lindas, mas foco mais no “ser” que no “ter”) . Consequentemente, a gente encana menos com o corpo, o sexo, as relações amorosas. O foco da vida muda, é mais crítico às demandas exteriores da sociedade, e isso dá leveza.

Veja bem, mesmo com isso tudo o medo de não ser aceita, de ser gorda, de ser feia (verdadeiros monstros na cabeça de uma mulher) diminui muito, quase some, embora    às vezes espete aqui e acolá. Mas temos amigas maravilhosas que botam a gente no devido lugar: o de rainhas de nós mesmas.

Sobre sexo, bom, ao não julgar o comportamento sexual de alguém pelo meu parâmetro (é certo o meu? Certo para mim, não obriga ninguém) também me vejo mais livre sexualmente e com menos medo de ser julgada.  E também fico mais livre, mais livre fico mais segura de mim. São pequenas atitudes que mudaram em mim a partir da convivência com o feminismo, embora eu já fosse livre, só encontrei que não me julgue.

Ademais, é natural das pessoas na internet sempre mostrarem o seu melhor, raramente mostrando os seus defeitos. Talvez por isso as feministas fiquem parecendo fantásticas super mulheres.  Mas observe que mesmo parecendo super,  sempre tem um post de autocrítica, de questionamento e exposição de medos, como o que me inspirou a escrever este post.

Na verdade isso é só fruto de encontrar gente bacana parecida com a gente e que nos apoia. Então o feminismo é autoajuda? Não, mas é também  amizade e suporte. E isso faz toda a diferença.

Sou Bissexual Não Sou Indecisa

Texto de Sara Joker com participação especial de Thayz Athayde

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Porque você fala tanto que é bissexual? Pra que falar sobre isso se você, atualmente, namora um homem? Poderia deixar quieto e viver sua vida sem preconceito? Ora, porque namorar um homem não me faz hétero, a minha orientação sexual continua sendo bissexual.

Eu poderia deixar quieto se conseguisse apagar todo o preconceito que passo por ser bissexual, mas não posso apagar, sou bissexual desde sempre, já amei mulheres cis e trans, já amei homens cis. E esconder uma parte da minha identidade me fará incompleta e infeliz. Passei anos da minha adolescência escondendo minha sexualidade, por me achar estranha. Acreditava que amar mulheres e homens era errado, que tinha algo errado comigo.

Se eu me abrir, lutar, brigar junto axs minhxs companheirxs de militância, e isso puder fazer com que outras pessoas não pensem que são erradas, que não são aberrações (como eu pensei de mim mesma), continuarei levantando a bandeira de bissexual.

No movimento LGBT, somos invisíveis, esquecem de nossa existência, somos xs enrustidxs, xs indecisxs. Algumas pessoas acreditam que não sofremos tanto preconceito, pois podemos escolher ter uma relação heteronormativa. Não é verdade, não há escolha, não escolhemos quem vamos amar. Tipo “ah, acho que hoje vou me apaixonar por uma mulher!” Não é assim, sofremos com a insegurança de algumxs parceirxs, namoradxs, ficantes. Mulheres bi são alvo de objetificação por alguns homens (“pegar menina bi é legal porque ela é liberal e vai fazer ménage. Mas não namora não porque ela pode te trocar por outra mulher.”). Mas, mesmo assim, assumimos nossa bissexualidade.

Uma amiga lésbica me disse, uma vez, que eu era corajosa, que acha bonito eu levar tão a sério a militância LGBT. Na época, estava em um relacionamento bem estável e longo, ou seja, poderia me esconder naquele relacionamento de anos, como posso me esconder no atual, e fingir ser hétero. Poder, eu podia, mas não devia, seria desonesto comigo mesma. E era isso que ela admirava em mim, eu estava dando a cara a tapa, mesmo sabendo que podia me esconder. Pra mim, ser bissexual é dar a cara a tapa todos os dias contra a invisibilidade.

Não é possível esconder a bissexualidade. Pelo menos não de mim mesma. Então, assumir-se bissexual e lutar contra a bifobia não é apenas uma questão de escolha mas é dar cada vez mais visibilidade à bandeira bissexual e demandar respeito e espaço. É desconstruir estereótipos sobre a bissexualidade, entre eles, que quando uma mulher, como eu, está em um relacionando com um homem, isso não faz com que eu me “torne” heterossexual. Namorar uma mulher não me torno lésbica. A luta pela visibilidade bissexual é justamente para que as pessoas entendam que não existe apenas orientações monossexuais. Mesmo estando em um relacionamento com uma pessoa de determinado gênero, ainda assim, continuo sendo bissexual.  É como diz aquele música que não canso de gritar nos protestos: eu amo homem, amo mulher, tenho direito de amar quem eu quiser.

Leia também: (in) visibilidade bissexual no Blogueiras Feministas

Esta postagem faz parte da Blogagem Coletiva pela Visibilidade Bissexual organizada pelo Bi-Sides.

Tutorial

Por Cíntia Moraes, Biscate Convidada

Tutorial sobre o que fazer quando publicam foto ou vídeo de uma mulher (nua ou nem) sem a autorização dela:

Passo 1 – NÃO BUSQUE AS FOTOS! (Se já recebeu: NÃO ABRA AS FOTOS!)

Viu como é simples não compactuar com invasão de privacidade e machismo?

Fim do tutorial!

nao quero ver

MAS CINTCHA ELA É GOSTOSA! MAS CINTCHA ELA É FAMOSA! MAS CINTCHA EU SÓ QUERO COMPARAR O PEITO DELA COM O MEU! MAS CINTCHA… GENTE: NÃO! NÃO!! E NÃO!!!

Sites de fofoca divulgando esse crime como notícia aguçando a curiosidade de geral? Você abrindo as fotos escondidinho no seu computador ou disponibilizando elas pro seu grupinho de amigos? Lidem com o fato de serem tão criminosos quanto quem divulgou as fotos sem a permissão da mulher em questão.

Para fazer sua parte no combate a esse tipo de crime basta não dar audiência pros arquivos vazados. Esse crime só arrasa a vida das mulheres que são vítimas dele porque gente como você compartilha as fotos e vídeos por aí!

E se tu diz por aí que respeita as mina, mas tá aí de olho nas fotos, TCHANAM!, você não respeita as mina, aproveite e faça o favor de sumir da minha vida também. Das coisas que eu não quero é correr o risco de dividir uma timeline de Facebook que seja com gente que sabendo da gravidade de um crime, compactua com ele.

Empatia e bom senso a gente exercita em público ou sozinho, o resto é hipocrisia.

cintcha*Cíntia Moraes é ex-jornalista, feminista e caipira.

Quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha?

Por Bianca Cardoso*, Biscate Convidada

Ativistas e participantes de protestos foram presos por meio de medidas absurdamente arbitrárias que ferem direitos fundamentais da democracia. Essa semana, foram revogados os pedidos de prisão temporária e começaram a surgir mais informações sobre o inquérito.

Uma das principais testemunhas é um ex-integrante do grupo Frente Independente Popular que tem um histórico de violência contra a mulher.

Então, a denuncia de uma pessoa que se desentendeu com o grupo do qual fazia parte foi a peça fundamental para estabelecer o inquérito. Parece programa de fofoca, mas o melhor ainda estava por vir. A manchete em letras garrafais diz: Traição amorosa de ativistas ajudou na investigação do Rio.

Uma traição amorosa na cúpula da organização rotulada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público de quadrilha armada ajudou os investigadores a apurar como agia o grupo responsabilizado pelo comando dos protestos violentos que ocorreram no Rio a partir de junho de 2013.

Líder dos manifestantes, Elisa Quadros Pinto Sanzi, a Sininho, é acusada em depoimento de ter roubado o companheiro da ativista Anne Josephine Louise Marie Rosencrantz. Veja bem, Sininho não é apenas a maior terrorista que esse país já teve. Ela também ROUBA namorados de outras militantes. Nesse momento, alguém levanta a plaquinha: cadê a sororidade, Sininho? E eu respondo que a verdadeira sororidade é a siririca.

 Então, não basta acusar Sininho de ser uma terrorista por meio de ligações gravadas em que ela pergunta o preço de um rojão, que é vendido em qualquer loja que comercialize fogos de artifício. Também é preciso pintá-la como uma “destruidora de lares”. Porque mulher que rouba namorado de outra, com certeza não é alguém de confiança. Porque o machismo tem que ser inserido na questão para mostrar o quanto essa mulher faz “coisas erradas”.

 Em pleno 2014, nós ainda vemos afirmações como essas: mulher rouba o namorado da outra. Como se alguém pudesse ser usurpado de um relacionamento, como se as poções mágicas de amor fossem reais. Porque quem foi roubado é o homem comprometido, que estava indefeso e, segundo uma das testemunhas, era tratado como capacho por Sininho.

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 Não há defesa social para a mulher que rouba namorado na sociedade machista. Não há direito constitucional para a mulher que se atreve a ter relacionamento com um homem comprometido. Parece que não há desejo nos relacionamentos. Que as pessoas não fazem escolhas e não tem autonomia. Então, minha dúvida é: quantos namorados preciso roubar para configurar formação de quadrilha? Preciso acumulá-los? Posso repassá-los numa boca de suruba? Posso traficá-los se pagar uma cerveja para a polícia? Porque a única acusação que há contra essas pessoas, segundo o próprio desembargador Siro Darlan, é essa.

 Sininho é uma mulher. E não sou eu quem vai dizer se é inocente ou culpada, não sou eu quem vai julgá-la. Porém, o veredito social de ser uma biscate, uma vadia, ela já tem. E me reconheço nesse veredito, porque perante os olhos da sociedade eu roubo namorados de outras mulheres, quando na verdade, estou apenas vivendo minha sexualidade sem me preocupar com os compromissos que essa pessoa tem ou não. Parece nonsense dizer isso, mas sinto que precisamos explicar: as pessoas não são um objeto para serem roubadas. Elas deveriam ser livres para serem o que quiserem. Ao menos, agora, Sininho responderá o processo em liberdade. Mas, a liberdade das mulheres fica onde quando o fato de roubar o namorado de alguém é um dos itens constantes num inquérito policial sobre formação de quadrilha?

10478212_885847744762498_1294414712196997681_n*Bianca Cardoso, feminista e ladra de namorados alheios no horário comercial. Nos intervalos é autora do Groselha News, moderadora e autora do Blogueiras Feministas.

Ninguém nasce feminista, torna-se feminista

Por Nikelen Witter*, Biscate Convidada

feminista

Imagem pescada do Blogueiras Negras

É bem legal dizer que a gente é feminista desde criancinha, que a pataquada do patriarcado nunca nos convenceu, que a rebeldia esteve sempre presente em nossas veias, que nunca atendemos às ordens de fechar as pernas, sentar eretas ou deixar os meninos falarem primeiro. Sério, é BEM legal. Mas, na maior parte das vezes, isso é só uma parte da verdade. Não tem nada a ver conosco, ou com as nossas memórias, nem são mentiras para parecermos mais cool in the feminist world. Tem a ver com o fato de que nascemos imersos numa cultura patriarcal. Com o fato de que ela nos forma, informa e enforma. Se alguém levanta do dedo e diz: “não, comigo foi diferente”, deve lembrar que é um, que isso não é o coletivo, e que as exceções, quase sempre, estão aí para confirmar a regra.

Tornar-se feminista é um caminho longo, cheio de curvas, cheio de auto percepção. Não raro com brigas violentas, com os outros, consigo mesmx. Todas as nossas informações sobre o mundo estão construídas e alicerçadas em séculos dessa cultura centrada no masculino. Estes séculos viajam desde a teoria do sexo único (há o macho e um macho deformado chamado mulher) dos gregos e que até hoje está presente em nossa linguagem quando usamos o homem como sinônimo de humanidade. Passam pela origem do pecado: teu nome é mulher. Chegam ao mundo do sexo binário, em que o feminino (fé menor) é visto como mais frágil, mais fraco, mais indolente (claro, porque ter 19 filhos em sequência é moleza). Todos esses discursos reduzem à biologia elementos que são culturais. Todos esses discursos trabalham no sentido de crescermos acreditando que todas as diferenças com que o mundo trata os homens e as mulheres são óbvias e naturais.

É comum ouvirmos em resposta: “as mulheres têm filhos. Ponto.” Como se isso fosse explicação suficiente. Não é. As fêmeas terem filhos é um dado biológico, no caso dos humanos, porém, todas as construções feitas a partir daí terão traços culturais. No que se releva, no que se hierarquiza, nas formas social e culturalmente endossadas e valorizadas de comportamento. As comparações com fêmeas animais (muitas vezes até “melhores” que as humanas), nesses discursos, têm igualmente o mesmo objetivo, acomodar à biologia – usada como argumento inquestionável (?) – toda a história humana, com sua evolução, diversidade, recriação, reorganização, mutação. Pior, em muitos desses discursos, toda a diversidade da natureza é apagada para se recolher apenas aquilo que pode ser usado para referendar um padrão feminino e ocidental, cuja criação tem cerca de 2 milênios de história e uma “rigidez” de menos de 200 anos.

Criadxs sob esta lógica, tornar-se feminista é contracultura. Nesse sentido, infelizmente, não basta vivência ou experiência. O feminismo como uma meta nos exige reflexão, reconstrução e, quando possível, formação. Já ouvi muitxs jovens dizerem: eu acho legal o feminismo, mas não me sinto capaz de dizer que sou feminista porque não conheço o suficiente. Numa palestra que ministrei, comecei com: “vocês devem ter algumas dúvidas…” O pessoal balançou tão enfaticamente a cabeça que reconsiderei meu algumas.

Nessa mesma ocasião, recebi a seguinte reclamação: “a gente tenta perguntar, mas muitas feministas debocham da gente, das nossas dúvidas”. Identifiquei-me imediatamente nos dois lados da questão. De um lado, essa escalada difícil contra a cultura hegemônica, essas dúvidas que envolvem questionar (muitas vezes) a mulher que mais admiramos e nos espelhamos: nossa mãe e a vida que ela levou. Essa dificuldade de se colocar contra pais, patrões, namoradxs, contra o “mundo todo”. É difícil sim, não se pode fingir que não é. Perceber isso não é afirmar uma guerra ou buscar culpados, é entender as regras do jogo como estão postas. A contracultura das diversas correntes do feminismo quer mudar o jogo todo, mas antes é preciso modificar as peças e aí está a outra dificuldade. A auto modificação leva tempo e causa dores, secreta raivas, afunda tristezas. Num dado momento, olhar para quem ainda não andou esse caminho é como se nos víssemos mais uma vez, aceitando o que nem de longe aceitamos mais.

Como elxs não notam tudo o que está errado? Simples, da mesma maneira que um peixe que nasce na água salgada (mesmo que metaforicamente possa viver na doce) não sabe a diferença entre uma e outra. Não acha que a água salgada lhe pesa, pois ela sempre esteve ali, sempre foi daquele jeito e há uma grande quantidade de peixes dizendo que a natureza é assim e que querer a água doce é loucura de peixas mal amadas que odeiam o mar inteiro.

Não, nem de longe eu imagino ter todas as respostas sobre o feminismo. Acho que nem quero ter. Por isso mesmo, sempre que ouço qualquer pergunta, lá vou eu tentar me pensar, me perguntar; ver se, onde e como essa dúvida me corrói e, claro, buscar informações para responder. Isso porque, dada a minha experiência bem limitada de humana, nem todas as questões da cultura se puseram para mim. Não posso, de onde estou, olhar tudo e dizer que sei como se deve agir nessa ou naquela situação. Assim, creio, ainda estou no processo de tornar-me feminista, como todxs estamos, pelo simples fato de que continuamos a pensar e a responder as questões que o mundo e cultura nos propõem. E essas questões podem ser antigas ou mudar todos os dias.

Quando Simone de Beauvoir falou em tornar-se mulher, ela falava dessa imersão que nos informa e forma. Como não estamos imersos no feminismo, é natural que esse tornar-se seja mais longo, mais difícil e caudaloso. Provavelmente, sequer possa ser terminado por qualquer pessoa nessa nossa estreita passagem nesse mundo. Até lá é perguntar muito. Questionar(-se) o tempo todo. E, quando possível, responder as tantas dúvidas de quem está começando a mesma escalada que a gente.

nikelen*Nikelen Witter teve que aprender a aceitar o próprio nome e com isso compreendeu que não tinha saída se não ser diferente. Transformou a vida de E.T. em profissão só para ler em tempo integral e acabou dando aula de História em faculdade. Atualmente, tenta escrever compulsivamente na medida que os dias e noites permitem, militar pelo feminismo e seduzir jovens leitores (porque a ideia de seduzir os jovens é boa demais!).

Se eu for embora?

Now there’s gravel in our voices
Glass is shattered from the fight
In this tug of war, you’ll always win
Even when I’m right
‘Cause you feed me fables from your hand
With violent words and empty threats
And it’s sick that all these battles

                                                          Rihanna – Love The Way You Lie

Aprendi, com um relacionamento meu e com alguns relacionamentos de conhecidas minhas, que certos homens não sabem lidar com a separação tão bem. Não estou falando do medo de perder, nem da fossa, nem da tristeza ou da vontade de se afastar para não sofrer que muitos homens e muitas mulheres sentem; falo daquela sensação machista que muitos homens têm de que SUAS (pronome possessivo) companheiras são posse e só podem ir quando eles desejam uma nova namorada/esposa/noiva.
Eu sofri com isso no meu primeiro namoro, onde eu sofria humilhação, era maltratada, mas não podia deixá-lo, afinal, ELE escolhia quando iria me abandonar. Quando decidi ir embora, fui com medo, fui perseguida, perdi minha paz. Falo por mim, eu consegui tomar a decisão de ir embora. Largar de um homem assim é difícil, algumas querem mas não conseguem. Têm filhxs, trabalham junto com ele, as ameaças de ¨tirar xs filhxs¨ou de ¨destruir sua profissão¨.
A violência, em muitos casos, não é física, então não é fácil de enxergar, se estamos de fora, alguns homens parecem homens acima de qualquer suspeita, companheiros, que apoiam o emprego de suas companheiras. Muitos são “perfeitos cavalheiros”, quando a companheira decide brigar, gritar e mandá-lo embora, aparecem com presentes, cartões carinhosos, mensagens no ZapZap, pedindo pra voltar, que não vivem sem elas. Exato, não vivem, então preferem morrer e matar a viver sem ela, ou ela viver com outro!

Vá embora!

Vá embora!

Me assusta muito isso, me pergunto como estive com uma pessoa tão doentia no passado. Vejo mulheres que passaram por isso, independente de lutas por direitos das mulheres, quando é com a gente, o buraco é mais embaixo. Dói, nos sentimos culpadas pelos acessos de raiva, pela brutalidade. O medo só cresce, a vergonha de “causar” isso em um homem também cresce. Mas, entendam, minhas queridas, a culpa não é nossa. Somos vítimas, vítimas de seres com uma doença social chamada machismo.
Ninguém é obrigadx a ficar com ninguém, somos livres para ir e vir. Amar e estar junto é ser companheirx sem cobrar a presença eterna dx outrx em sua vida. Amar é deixar ir quando x outrx quiser ir, por mais que doa, por mais que machuque a falta, sabemos que é uma dor que passa, uma falta que pode ser preenchida por outra pessoa. Sem perseguição, sem medo de ir embora. Que seja bom, que você lembre com carinho do passado, não que se pense no alívio de partir!

Conversas sobre o feminino e outros bichos

Ontem, almoço com amiga querida. E conversas sobre o feminino. O não-feminino. Ela, como eu, cresceu naquela terra distante de relógios e vacas (que permitem os queijos e os chocolates). Chegou aqui, como eu, no início da adolescência. E teve que se deparar com o que era ser mulher, aqui.

Talvez por isso a conversa tenha sido na base de tanta concordância: a gente se entende, por ter tido um primeiro olhar sobre isso lá na Europa. Por ter crescido ouvindo conversas de feministas da década de 70, por lá. Por ter as mães que a gente teve, que, embora não se dissessem feministas, faziam parte dessa época pós-queima de sutiãs, em que as mulheres ocupavam os espaços, tratavam dos seus assuntos. Reivindicavam. Era o mundo pós-pílula, e, na Europa, era um mundo ainda marcado pelas duas grandes guerras – quando os homens foram para as frentes de combate e as mulheres ficaram para tocar a vida civil, as fábricas, os campos… quando acabou a guerra, como fazer as mulheres voltarem para dentro de casa?

Não que não houvesse contradições nesse mundo aí: eu, menina de classe média que crescia no Rio de Janeiro, fui pela primeira vez apresentada às noções de que meninas são “mais arrumadas”, “têm cadernos mais limpinhos” lá, em Genebra. Nunca tinha ouvido falar disso…. na escola, a gente tinha aula de costura e culinária, enquanto os meninos tinham “trabalhos manuais” variados. Coisa que me parecia bizarra. A gente reclamava muito disso, aliás. A gente, todas as meninas. E, na década de oitenta, isso mudou, como me contou minha professora de primário, Mlle. Guelpa: todo mundo passou a ter aula de tudo. Juntos e misturados, como deve ser.

Divaguei, mas esse parágrafo me trouxe de volta ao assunto: o que é “feminino” e “masculino”, onde se dá a linha de demarcação. Quem sempre morou no mesmo lugar, acho, pode ter mais dificuldade de perceber o quanto esses conceitos são construídos. A mim, na volta, no começo da adolescência, foi necessário um longo período de adaptação: como “ser menina” no Rio de Janeiro? Não era igual ao que eu conhecia; ralei para entender. Tanta coisa que, pra mim, era só um jeito de ser sem maiores consequências, aqui me encaixava em categorias bizarras como “hippie”, “fora do padrão”, “moderna” (Rá. Moderna, eu, aos treze anos? Passe de novo.).

A contraface disso, é claro, estava no que é “masculino”. Na estreita definição de “masculino”: tudo era considerado “efeminado”, no Rio de Janeiro, ou assim me parecia. Como sentar, como mover-se, como falar… regras tão rígidas. Sob pena de ser achacado pelo resto do mundo, sob pena de ser chamado de tantos nomes depreciativos. Sob pena de não ser amado e aceito, que é o que a gente sempre quer, no final das contas. Sobretudo quando é criança, quando é adolescente.

Olhando hoje, tanto tempo depois, a sensação que tenho é que isso aí só piorou. Afinal, na década de oitenta, ainda havia eflúvios de Hair, de amor livre, de flores nos cabelos. No meu portal, dizem-me. Certamente, no meu portal. Mas é dele que continuo olhando o mundo, e mesmo aqui, as definições me parecem hoje, tanto tempo e tanta luta depois, mais estreitas. Continuamos no mundo do “homem não chora”, e a ele adicionamos brinquedos ainda mais definidos por gênero: o mundo das meninas, antes bem colorido, virou um insuportável universo cor-de-rosa. Até ovo Kinder hoje tem “de menino” e “de menina”, pelamor. Caixinhas apertadas. Tão difícil se encaixar. Corresponder às expectativas. Saltar a barra cada vez mais alta da aceitação sem questionamentos. Mas aí, se for pra ser aceito assim, não pode tanta coisa. Não pode camiseta rosa, não pode brincar de boneca, não pode gostar de glitter ou de maquiagem, não pode usar cabelo assim ou assado… não pode. Meninas também não podem, e são suavemente empurradas para o universo fofo e cor-de-rosa, inexoravelmente. Um universo em que importante é ser bonita e fazer pose, biquinho, charme.

Que difícil.

Aí, claro, cada vez fica mais gente de fora: que não consegue se encaixar nem em uma, nem em outra. E que quer ser ouvido. Que quer estar, ser, poder. Como todo mundo. E agora? O que fazer?

Talvez, quem sabe, uma dica, pra começar a conversa.

Post1

Esse texto, que vai ficar assim mesmo, meio aberto e sem certezas, cheio de angústias arranhadas e de dúvidas implícitas, mas com muita vontade que esse panorama mude, tem a ver com o almoço de ontem (obrigada, Claudinha!), mas tem também a ver com a nota tão estranha que circulou em jornal carioca essa semana. Nota que me ficou entalada na garganta. Porque era “engraçadinha”. Porque vinha de coluna “descolada”. E porque encerra, em tão poucas linhas, uma quantidade tão absurda de preconceitos… e penso na minha escola primária, que na década de oitenta aboliu essas diferenças. E lembro que estamos em 2014. E me dá uma tristeza. Um cansaço.
Post2

Não basta ser biscate…

Daí que não basta ser biscate, temos que acordar de ressaca e depois de recolher a calcinha vermelha pendurada no lustre da sala há mais de duas semanas, nos deparar com “instruções” pra sermos uma  das tais “mulheres de verdade” compartilhadas por gente que até gostamos e tal e coisa e coisa e tal… ah, o facebook… essa rede social tão marota, tão fofinha, tão meiga, tão… tão…  que século  é hoje mesmo, caras colegas de auditório?

Então… como “lhedar”? Simples! Aumenta o Chopin do teu radinho e vamos analisar com profundidade e espírito científico, além de muita galhardia mais essa pérola de sabedoria “feminina”, que “bombou” em muita TL antenada e cult poraí.

Comecemos, pois…

Biscate

Já de cara, reconhecemos a tal da “mulher de verdade”, esse ser mitológico que dizem ter a capacidade sobrenatural de gozar enquanto lava a louça, aspira o tapete e lê Proust em busca de conselhos para agradar o homem que chama de seu e que neste momento ronca num imaculado sofá branco futurista e de grife, comprado por ela com o salário recebido no emprego que “desempenha” com um sorriso cândido nos lábios e apenas nos intervalos dos seus oito partos, todos naturais e assistidos por freiras cotós do alto Himalaia e onde ela aproveita pra também fazer as unhas e mais uma lipo.

Notem o vestido vintage, o look new vitoriano chiquérrimo, coisa phyna, clássica e vendido em qualquer loja de departamentos pertinho de você… apreciem com emoção esse ar de desconsolo levemente chocado, mas jamais histérico, depois de saber que a vizinha lê esse site wândalo…

Mas enfim… como diz o muso Amaury Júnior… vem comigo… que o negozi só faz é melhorar com o texto. Ah, o texto…  Adelante!

“Mulher inteligente não usa o corpo, usa a mente (…)”

Óbvio, né? Porque o cérebro não faz parte do corpo e fazemos sexo por transmissão de energias cármicas, sem trocas de fluidos de espécie alguma, coisa que sabemos completamente anti-higiênica e manchadora de nossos lençóis egípcios de 56789088976786 fios… técnica essa que é milenar e aprendemos lendo a revista Nova enquanto rezávamos o terço da Virgem de Guadalupe.

“(…) Não precisa de roupas curtas, falar alto, ficar bêbada e dançar até cair (…)”

Não precisa, Brasil! Ainda bem. Já pensou que horror se divertir? E com “ças coisas” de vadia?

“(…)Não se desrespeita, não abre mão de si e nem de seus princípios para prender alguém (…)”

Muito complexo. Lembrete: pedir a Mãe Jussara pra desfazer aquela amarração queu fiz pro bofe magia vir nimim.

Próxima.

“(…) Sabe que sua beleza é apenas reflexo de seu conteúdo e de todo seu eu (…)”

Amo muito tudo isso. Todo meu eu é aquele negócio do fundo do âmago do meu ser enquanto pessoa verdadeiramente verdadeira, né? Enfim…

“(…) Sabe a diferença entre ser sensual e ser vulgar (…)”

Obviamente. Ser sensual é dançar na boquinha da garrafa, já ser vulgar é cantar Núbia Lafayette no karaokê da Lagoa depois de chafurdar na lama com dor de cotovelo. Bem que Mãe Jussara me avisou…

“(…) Sabe o que falar. (…)”

Se eu quiser beber eu bebo… se eu quiser fumar eu fumo…

“(…) Sabe deixar saudades e que a sua presença seja notada, não porque seu corpo está a mostra, mas porque tem presença, é decidida, sabe o que quer e o que merece.”

Neste momento fechei os olhos, respirei através da luz que irradia do âmago no fundo, bem fundo do fundo do meu ser e deixei que ela me inundasse de neon fluorescente pink , dei uma última agachadinha na boquinha da garrafa, lancei um olhar Paulo Ricardo 43, joguei  o cabelo e gritei: beijoooooo, me ligaaaaaaaaaaaaa!!!

Porque né?

Sobre aceitação e generosidade – ou uma biscate gorda

Esta texto está sendo escrito e reescrito na minha cabeça, e na minha vida, há tempos.

E num sábado de sol a Renata Lins e a Luciana Nepomuceno colocaram na pauta esse texto-entrevista-bate-papo sobre corpo e seus padrões que, poxa, falaram tanto comigo.

E eu pensei que podia finalmente escrever sobre a minha experiência com o corpo e os padrões, e o que EU tenho tentado aprender com isso.
Você já olhou para trás e viu como você era linda na adolescência mas se achava feia/gorda/esquisita? Acho que muitas pessoas já fizeram isso.

Como disse a Renata Lins:

minha relação com meu corpo já foi bastante conflituosa: hoje, a tranquilidade que existe foi absolutamente conquistada. E valorizada. Me sinto muito mais livre, de verdade, do que quando tinha 20 ou 30 anos. E gosto da sensação de ter vencido barreiras.

Eu acredito que é um processo, um esforço, uma conquista mesmo.

A gente é bombardeado todo dia com fotos da Gisele e de outras. Na minha época, eram a Cindy Crawford, a Ana Paula Arosio e a Luana Piovani. Eram elas os “padrões”. O narizinho da Ana Paula fazia eu odiar cada dia meu nariz. E a Cindy, bem, ela ao menos eu admirava porque ela mesma era crítica quanto ao que era a persona “Cindy Crawford”, que ela chama(va) de “A Coisa”. Ela dizia que nem ela acordava sendo “A Coisa”. Como Rita e Gilda.Hoje EU acho que é mais fácil, para mim, porque tenho outros modelos, e nenhum deles é uma modelo ou atriz famosa.

Mas tem ainda regramentos sobre como temos que ser “sexy sem ser vulgar” e outras mais. Ou seja, não dá pra dizer que o mundo mudou.
Então, EU tenho tentado aprender que quem muda somos nós, em um processo que não é fácil.

Aos 15 anos, eu pesava 58 quilos, tinha 1,65m e me achava enorme. Meus parâmetros? Duas amigas, uma com 1,50m e outra com 1,55 m, biotipos totalmente diversos do meu, e uma paranóia com os corpos. (Uma delas era aquele tipo de amiga que gosta de fazer as outras se sentirem mal, e infelizmente, gente ruim ou “com problemas” existe e se reproduz, desculpa sororidade.)

Voltando ao tema, eu era gostosa pra caralho (olhando as poucas fotos que tenho da época, já que odiava fotos, quem nunca?) e me achava feia, gorda, bochechuda. Isso não impediu namorados, rolos, etc, mas sempre esteve no meu inconsciente.

Aos 18 anos, ganhei muito peso, e rápido, e fui parar no Vigilantes do Peso. Tenho as fichas até hoje, em uma pasta com todas as avaliações físicas que já fiz em academias nessa trajetória, as vezes eu acho que para provar que “já fui magra” ou que cumpro o papel da gorda que não se aceita e tenta a todo custo ficar no “peso ideal”. Perdi peso, ganhei peso, entrei na faculdade.

Os anos de faculdade foram de novamente me sentir enorme, mesmo não sendo tanto – as fotos estão em casa, para me mostrar. E na formatura, de novo, ganhei muito peso, muito rápido. Bochechuda.
Formatura, e a luta pelo concurso público, pela estabilidade, pela conquista da independência, e aí, tudo ia mudar, eu ia fazer plástica no nariz, aumentar o peito, etc e tal e achar alguma pessoa legal e ter o pacote Sex and The City em Ovorizonte (isso é assunto para outro post…)

Nos primeiros dois anos de formada, continuei engordando, até que um dia decidi mudar, perder peso, ficar magra. Consegui. Nesse meio tempo, concursos para cargos que exigiam provas físicas, aprendi a malhar, correr, comer bem, parei de fumar… por alguns meses, ao menos.

Fiquei magra. Pesava 57, menos que na adolescência. Passei no concurso. E não foi a felicidade instantânea. Ai a gente continua buscando, buscando, buscando.

Em oito anos, emagreci, engordei, tomei remédio para emagrecer, voltei a fumar, engordei tudo de novo.

Vivo de dieta, como mal, me prometo que na segunda-feira eu volto a correr e comer direito. Compro alface e semente de linhaça. O alface murcha, a linhaça mofa.

E quando me revelo “de regime” já me perguntaram se eu não li “O Mito da Beleza”. Cara, eu li. E me identifiquei total: já fui das convertidas que querem emagrecer todos ao seu redor.

A questão, pra mim, ao menos, não é saber que a ditadura da beleza/magreza é algo criado para gerar lucro e controlar as pessoas, especialmente as mulheres.

O buraco é mais embaixo: é que, mesmo sabendo disso, eu vivo nesse mundo. Eu compro roupas nesse mundo, eu vou ao salão de beleza, eu ouço as pessoas falando, os jornais, as revistas, minha mãe… as pessoas bem intencionadas, como eu já fui, e aquelas que gostam de alfinetar, as maldosas que gostam de simular que se importam mas querem é cutucar pra ver como você reage.

A sorte, nesses dias, é que hoje eu tenho uma rede de proteção. Eu tenho amigas incríveis, e tenho aprendido a exercitar o olhar generoso de que a Isa Cassaloti fala e a Luciana Nepomuceno cita. Eu tenho me permitido me olhar com generosidade, olhar as pessoas e o mundo com generosidade.

“O que eu quero dizer é que eu procuro exercitar um olhar generoso. Um jeito generoso de ver os outros, procurar suas belezas. Que compreende um olhar generoso e de aceitação de mim mesma. “

EU tenho preocupações: com a saúde, com a possibilidade de engravidar, com o peso que estou hoje, se seria ruim para mim e para o hipotético embrião-feto-bebê.

Este post depoimento, que não vai ter minhas fotos de antes-depois-agora porque não estou em casa enquanto traço essas linhas, é só para compartilhar que todas e todos temos nossos dias. Que todas somos lindas, inteligentes, gostosas, fantásticas, mas mesmo assim as vezes duvidamos. Como não duvidar? Tanta gente falando de dieta e envelhecimento, bate o medo, a ansiedade, a raiva mesmo as vezes.

Quando bater o medo, a raiva, a ansiedade, é bom respirar (aproveitar e olhar foto de gatinhos e filhotes em geral também ajuda) Se olhar no espelho e ver a beleza que há em casa um de nós, e escolher ser feliz do jeito que você é. Mesmo que te digam que você não pode, não deve, não entendam como. A gente pode, sim.como nos vemos laerte

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