Das inconstâncias

Comigo é assim: nem sempre é, ou não é mesmo, ou é assim sendo, ou simplesmente é, mas sem ser. Não tem constância, receita, medida ou prumo. Vontade, pode até ser, mas até nela as inconstâncias comparecem.

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Dali – The Ship

Das piores metáforas para a vida, pelo simples fato de nenhuma ser suficientemente boa, a da navegação talvez seja a que mais me agrade. Inconstante por si só, navegar traz em si um explorar-se, um dar-se ao próprio acaso… um ver o que rola.

Navegar-se. Navegar a si mesmo é, talvez a nossa melhor odisseia. Despretensiosa, objetiva, interessada, descompromissada, preguiçosa, astuta, navegar em si é entender as próprias amarras, é descobrir cada nó que nos segura e cada um daqueles que desatam as nossas velas…

Navegar-se, nas inconstâncias da vontade, nas malemolência do desejo é um convite a explora-se… a desatar-se de nós… a desancorar-se de águas calmas. E sim, são estalos… assim como geme um barco que naufraga, gemem (de gozo, dor, êxtase, ou que quer que seja)  os nosso sentidos em cada exploração.

Explorar-se é entregar-se ao mar de vontades, é naufragar-se em medos, é emergir-se deles, é dar-se às próprias inconstâncias, não para transformá-las em constâncias… viver não é calmaria, mas para aprender a navegar-se em quaisquer águas.

E em navegar-se, em explorar-se, em viver-se das próprias inconstâncias, aprender a desatar os nós, a naufragar os próprios navios, a nadar no desconhecido de si… E é isso. O processo de viver, de se viver é também o de compreender os naufragares… É navegar-se, naufragar-se e emergir-se em todos os explorar-se, sem ordens, regras, ou modelos…

Não é só, mas é intimamente solitário. Não é inaudito, mas é inexprimível pelas formas de comunicação. Não é apático, ao contrário, revela os sentimentos das nossas inconstâncias. Navegar-se é isso, viver das próprias inconstâncias, ou tentar…

Das pessoas que passam pela nossa vida

Não acredito que nada seja perene, pra sempre ou eterno… talvez nem enquanto dure (desculpa, Vinícius). E assim também não é com as pessoas. Elas passam… no mínimo, todo mundo vai morrer um dia, inclusive nós mesmos. O mais importante, acho, é contudo o que eles deixam na nossa vida.

Paula Rego Flying Children

Paula Rego – Crianças Voando

Experiências, boas ou más. Experiências, dóceis ou abruptas; contínuas, interrompidas, frequentes. Experiências… sim, elas deixam experiências. Cada pessoa que passa em nossa vida, por mais singular que seja, as vezes quase imperceptível, as vezes como um turbilhão e as vezes como mar calmo em dia de muito vento, são experiências a serem aproveitadas, conhecidas, reconhecidas e elaboradas.

Boas ou más, experiências são oportunidade de autoconhecimento. Nada automático, tampouco cartesiano… não há uma relação binária ou mesmo linear entre uma experiência e um aprendizado, muito menos há uma relação temporal, mas o conhecimento de si vem… se vem!

E é bom… conhecer(se) é bom, a gente gosta e goza! E pra quem é biscate, quanto mais gente, melhor! Porque mais gente é mais oportunidade e gente é outra alegria!

São dessas coisas a vida… deixar as pessoas passarem… permitir, sobretudo, que elas permaneçam, pelo tempo que quiserem, como quiserem, enquanto for bom pra gente também. É sempre um também… vida sem também é uma vida sem experiências, é uma vida em que o conhecer-se não se resolve.

Como como diria o poeta, passar por essa vida é se dar, é chorar, é amar, é sofrer, porque, por incrível que possa parecer, esse é um dos caminhos de satisfação, de ser feliz… se sofrer, na vida, é um compasso de autoconhecimento, sofrer é também um passo de sublimação, de epifania… sofrer é parte do processo de amar, de se amar… Porque passar por pessoas, viver pessoas e se conhecer com essas pessoas é um ato de se amar…

Construir mosaicos

One chance
To keep it together when
Things fall apart
One sign
To make us believe it’s true
What do you see,
Where do we go?
One sign: How do we grow?
By letting your lifelines show
What if we do, what now?
What do you say?
How do I know?
Don’t let your lifeline go

Lifelines – A-Ha

Sempre fui do tipo que vivia remoendo o passado, as mágoas, as culpas. Não sou muito acostumada a me perdoar ou a esquecer. Quando erro, fico remoendo a culpa por dias, meses e anos, as vezes, a pessoa com quem errei já cansou de me perdoar e eu continuo me martirizando. E “se elx perdeu a confiança em mim?”, “será que eu mereço sua/seu amizade/amor depois do que fiz?!”. Essa é a Sara, aquela que perdoa qualquer pessoa, mas não se perdoa!Mosaico-de-Azulejos-Passo-a-Passo-3

Essa Sara está tentando mudar, parar de me responsabilizar por tudo que acontece, não entender fins de relacionamentos e de amizades, me sentir destruída e culpada por qualquer erro que cometo. Passei muito tempo catando cacos quebrados e tentando reconstruir exatamente o que existia antes, sem compreender que nada se mantém intacto. As coisas são mutáveis, os cacos de um relacionamento pode virar lixo ou pode virar um mosaico. Posso, sozinha ou acompanhada da pessoa do relacionamento, catar meus (ou nossos) cacos e tentar construir algo novo, tão bonito quanto, ou mais bonito ainda.

Sou apaixonada por mosaicos, acho lindo como restos de azulejos poderiam virar algo tão belo, eram restos, rebarbas, quebras que viravam pedaços de cor, uma nova forma colorida e desenhada. Quero levar isso para a minha vida, transformar a dor e os finais em novos risos, começos, choros de emoção e, porque não, continuações.untitled

Quero ser menos rígida comigo mesma, quero me perdoar do mesmo jeito que perdoo amigxs, familiares e companheirxs. Não quero viver carregando peso demais em minhas costas, faz mal a coluna. Quero poder ficar em paz, compreender que, mesmo quando algo não dá certo ou quando eu faço algo que magoa alguém, eu posso ver que eu fiz o possível e me perdoar. Não porque estou certa, mas porque errar faz parte e meus erros também constroem a mulher que sou e que, pra ser feliz, não preciso ser infalível, só preciso viver.

Viver é sofrer, chorar, quebrar amizades e reconstruí-las novamente, jogar amores no chão e montar mosaicos com seus cacos, é rir, é me permitir e permitir axs outrxs o erro e compreender que o erro, muitas vezes é o melhor dos acertos!

Talvez se nunca mais tentar

Viver o cara da TV

Que vence a briga sem suar

E ganha aplausos sem querer

Faz parte desse jogo

Dizer ao mundo todo

Que só conhece o seu quinhão ruim

É simples desse jeito

Quando se encolhe o peito

E finge não haver competição

É a solução de quem não quer

Perder aquilo que já tem

E fecha a mão pro que há de vir

Em tempo

Antes do post propriamente dito, quero propor uma rapidinha (ui!!!):

Pergunte a si mesmx quando foi a última vez em que dedicou um momento, um dia ou um pouco de tempo só para você?

Se as lembranças foram imediatas e boas, parabéns! Você é uma pessoa de sorte e que aproveita as oportunidades que esse universo cão nos oferece de vez em quando. E que a gente quase sempre deixa passar, seja lá por qual motivo.

(Tempo só para mim.)

Tá aí. Tem mudança que atinge a gente em cheio, né? Ainda mais quando a iniciativa da mudança não é nossa, propriamente dita… Aí o mundo acaba, tudo vira b*sta e você amaldiçoa o dia em que se deixou levar por x questão. Mas continua aí, com uma vida inteirinha passando diante dos seus olhos.images

Levanta-te e anda! (perdoem-me o trocadilho religioso, não pude evitar)

Porque é sério, a vida rola lá fora. Bem rápido. E você não precisa ter alguém que “te complete” para curtir esse processo que pode ser muito gostoso. Isso depende muito mais das suas escolhas e da sua vontade de experimentar o novo. Ou de voltar a apreciar aquilo que em algum momento da sua existência, você amava fazer.

Caminhe na praia, no parque ou pela cidade. Reveja seus amigos. Cante no chuveiro. Pare alguns minutos para observar a paisagem pela janela. Coloque em dia aquela lista de livros ou de filmes. Viaje pra longe ou sem sair do lugar. Experimente aquele prato tailandês esquisito. Adote um bichinho abandonado, que merece e precisa do seu amor. resumoFique perto daqueles queridos da sua família. Mude o visual. Aprenda a tocar um instrumento, a pintar ou um novo idioma. Olhe para dentro de você e se perceba.

Faça tudo. Só não pare no tempo, porque ele não vai parar para te esperar.

“Finding ways to stay solo…”

Coração selvagem

o meu coração selvagem tem essa pressa de viver

“Meu bem,

Guarde uma frase pra mim dentro da sua canção

Esconda um beijo pra mim sob as dobras do blusão

Eu quero um gole de cerveja no seu copo no seu colo e nesse bar

Meu bem, o meu lugar é onde você quer que ele seja

Não quero o que a cabeça pensa eu quero o que a alma deseja

Arco-íris, anjo rebelde, eu quero o corpo tenho pressa de viver ”

Essa semana passamos cá eu e o Belchior, e a Márcia Castro cantando seus versos na minha cabeça. Frases que se aninharam no meu peito e no meu coração selvagem, com toda pressa de viver que exala pelos poros de quem, como eu, não tem mãos fortes o suficiente para conter os desejos e as vontades de amor.

É sempre muito. E o muito é vermelho e tem pressa, pressa de vida e morte, pressa de respirar e exalar ar puro, de viver tudo que se tem para viver dos encontros que pulsam, e das pessoas que cruzam nosso caminho mexendo por dentro e nos contando que a existência pode ser partilhada em curiosidades e vivências diversas. Em sentimentos bons de trocar e agregar. Em sensações quentes e aberturas de novos mundos. Em mundos divididos pelo que vem do fluxo de ser.   

A gente tem pressa, Belchior me confirma que essa gente existe. Essa gente nossa que quer crescer a cada encontro, que quer somar, extravasar e ir além dos corpos, além do prazer, que quer desbravar os universos que se encontram por puro mistério do destino. A gente quer riso e gozo, quer se jogar na correnteza mais forte de estar viva, quer navegar junto quando os rios se cruzam e os segredos despontam em carne e ossos.

 “Meu bem, o mundo inteiro está naquela estrada ali em frente

Tome um refrigerante, coma um cachorro-quente

Sim, já é outra viagem e o meu coração selvagem

Tem essa pressa de viver”

E a gente tá aqui fitando o horizonte e abrindo os braços para o que vem. Acolhendo o que não sabemos, e o que sentimos arder por dentro. Vontades ainda sem nome. Coração selvagem, anseios sem endereço. Possibilidades que se multiplicam com o amor que aquece e invade as aberturas rasgadas com a coragem de quem vai.

Estrada imensa, curvas e descidas, subidas de montanhas e penhascos, praias nas margens, mar à vista, verde e concreto. A gente vai e leva o que consegue na bagagem de mão que nos acompanha. Poucas malas, o peito nu, fotografias nas retinas. Pouco peso, e muito chão. Para mais.  

Mas… nem sempre. Não, nem sempre os tempos batem, e os amores nos acompanham nessa jornada de quem tem pressa de vida. É preciso mais, além de um encontro forte e uma possibilidade de amor. Não, não é fácil embarcar assim, junto. Com disposição e sem medo. Com os mesmos tempos de viver. Com encontro de intensidades, com a vida aberta sem complicação para pular no vagão do trem e apenas ir, junto, porque junto tem brasa e vulcão que explode. Tem engrenagem que funciona, tem coração que bate e faz sentido. Não, não é sempre.

Tem muita coisa que precisa afinar para acontecer o tempo de ser junto. É tão simples quando é, mas tem tanto. Pode ter tanto desencontro dentro de um encontro bom. Pode ter tanto não. E quase nunca um coração selvagem está preparado para o não.

É, não é tarefa fácil acolher o não do encontro possível. Para quem tem pressa e está lá, descendo a ladeira sem freio, sem pouco, sem miséria, sem dublê, sem maquiagem, sem reserva… o breque é violento. Como, como acolher o não? Quem não pula, não pode, não dá? Quem não tem como, não tem esteio, não tem tempo, tem distância geográfica, tem história difícil, tem outra história, tem medo, tem falta?

“Meu bem, talvez você possa compreender a minha solidão,

O meu som, e a minha fúria e essa pressa de viver

E esse jeito de deixar sempre de lado a certeza

E arriscar tudo de novo com paixão

Andar caminho errado pela simples alegria de ser

Meu bem, vem viver comigo, vem correr perigo.

 Vem morrer comigo, meu bem, meu bem, meu bem”.

 A gente canta com o Belchior, e chora e grita e se lastima e pula e faz barulho e morre um pouco por dentro. E morre de novo para renascer e ir em frente com essa mesma pressa de viver. Porque uma hora, em alguma curva do caminho, a gente acerta. E aí, sim, experimenta o que é viver e dividir todo esse algo mais que não se conta na canção, e em lugar algum.

A gente experimenta o indizível.

 

Uma nova biscate

Por Líli France*, Biscate Convidada

Minha paixão por este blog é tão grande, que meu desejo é falar tudo da minha vida, falar tudo que eu penso e que eu não posso conversar com muita gente. Criar textos e mais textos para o blog, em amor a ele, com as idéias que tenho diariamente e que não ponho no papel. Leio todos os posts, cheia de sede e de encantamento. E os que não posso ler no momento, ficam guardadinhos pra primeira sombra de espaço livre que eu tenho pra ler. É tanta vontade de fazer parte disso tudo aqui, que me transbordo de ansiedade. Mas vou me acalmar, não se preocupem. =D. Agradeço de coração por uma oportunidade que me cativa imensamente.

Vou falar um pouco de mim, da minha história, para que vocês me conheçam um pouquinho, já que eu conheço um tantinho das biscates escreventes e convidadas daqui.

“Curtindo a vida adoidado” — 1986

Nós já vimos por aqui alguns relatos de biscates casadas (e bem casadas), e eu sempre me identifico bastante. Mas nem sempre tudo dá tão certo, porque ser uma biscate casada, num relacionamento onde seu(sua) parceir@ compreende sua biscatagi é muito difícil.

Apesar de ter 22 anos, já fui casada. Estive nesse relacionamento por quase 6 anos. No início éramos o casal perfeito. Mesmo ele sendo caseiro e eu não, nós saíamos paa lugares que sempre eram do agrado dos dois, e programinhas caseiros também eram super bem-vindos.

Antes de completar 21 anos, comecei a ter uma daquelas crises de idade que tod@s têm. Foi a primeira (e única até agora, ainda bem), e me deixou num estado de reflexão, medo e “claustrofobia” contínuos. Eu comecei minha relação com ele quando eu tinha 15 anos, e ele 23. Sempre fui mais madura do que o convencional para minha idade, e não planejava o que é chamado de “auge da adolescência”. Na minha cabeça, tudo que eu precisava viver, o meu auge, poderia ser acompanhada, tudo que eu precisava viver, viveria com ele. E não posso dizer que minha adolescência deixou de ser especial, estaria sendo no mínimo cruel e mal agradecida. Mas a cabeça de uma garota de 15 anos não é a mesma de uma de 21. Então não foi o bastante.

Acho que todos precisam de porraloquices. Até os que acham que não. E foi assim que começou meu ano de 2011: numa sede absurda por liberdade. A dar partida pelo reveillon em que, tanto eu quanto ele, tivemos uma “noite não monogâmica” pela primeira vez. Que resultou, inclusive, em uma paixão por uma garota, sem deixar de amar meu marido. Poliamorismo que ele não aceitaria.

Sempre tive alguns gostos e amigos que não batiam com o perfil dele. Queria frequentar boates LGBTT e sair ao amanhecer, rir descontroladamente num bar, falar de sexo sem pudor. Coisas que eu não poderia fazer sem que ele cerrasse suas sobrancelhas arqueadas naquele olhar de quem teve seus conceitos desafiados. Eu queria passar a noite dançando, esquecendo de tudo. Ele queria passar a noite assistindo um bom filme, e não costumava dançar muito. Não que eu não gostasse de sentir o prazer intelectual que ele sempre prezava, eu adorava igualmente. Porém, eu queria também o prazer dos sentidos, eu queria viver o que nós líamos e assistíamos. O que mais se passava em minha mente era “que história eu vou contar quando tiver a idade da minha mãe? Reclamar que não tive juventude, como essas coroas que vejo por aí?” Não… eu não podia. Eu precisava voar.

De início foi um tanto na paz. Eu tinha meu espaço. Já estive numa banda de eletropop totalmente biscate, e eu tinha que me caracterizar e exteriorizar tal perfil. Poderia encontrar meus amigos, sair com eles sem meu marido, mas ainda assim não era o bastante. Eu ainda não poderia chegar depois das 23h, a não ser se fosse para dormir na casa de alguém da confiança dele; tinha que falar de baixaria e bebedeira sem comentar com ele; não podia sair sem destino, sem tudo programado; ficar numa boate até o dia amanhecer? Nem pensar. Mas tudo isso acabou acontecendo. As consequências foram brigas e brigas. Não o julgo, cada um sabe seu limite. Mas o meu também estava sendo atingido. E mais brigas. Silêncios que incomodam, expressões frias e decepcionadas. Assistíamos nossas séries sem comentar e discutir, como fazíamos antes. Pois nossos pensamentos ainda estavam na discussão ofensiva que tivemos outrora. Eu me afastei de algo que havia ali, e não sabia o caminho de volta. A frieza tomou conta. As coisas que eu não deveria comentar com ele ficaram mais abrangentes, pois estava tudo mais frágil. E qualquer comentário do tipo “aprendi a beber cerveja com o pessoal do meu trabalho”, feito entre os amigos dele, se tornava motivo para desentendimentos (true story). O que as pessoas poderiam pensar? O que elas vão dizer se eu tivesse aprendido a beber cerveja com um monte de homens? Se eu voltasse da balada só e pela manhã? A fragilidade do relacionamento foi aumentando tanto, que eu estava me sentindo privada de ser quem eu sou, simplesmente por ter que pisar em ovos. E a vontade de sair com ele acabou diminuindo por causa disso. Imagina falar besteira com meus amigos na frente dele e acabar tendo dr depois. O clima na minha casa ficou tão tenso que as vezes eu chorava quando tinha que ir pra lá no fim do dia. Todo dia poderia ser o último com ele. Todo dia eu pensava em terminar. Nós tentamos consertar muitas vezes. Tivemos muitas conversas metódicas tentando encontrar uma solução, como curtir mais estando juntos. Mas nada adiantou.

A Dido me entende.

Um dia eu fui forçada a ter coragem por causa das circunstâncias criei coragem e terminei, com muita insegurança. Terminei com aquele que parecia ser meu par perfeito pra vida inteira, mas que na verdade ele era o par perfeito pr’aquela outra garota de uns anos atrás. Ele disse que já tínhamos terminado, só que ainda estávamos morando na mesma casa. Fato.

Minha vida desmoronou. Não digo sentimentalmente, porque nessa parte o alívio era maior que outra coisa, porque como ele disse, o que havia entre nós já tinha acabado antes de terminar o relacionamento. Mas em questão de planejamento, estava tudo destruído. Tudo que eu já tinha planejado pra minha vida, tudo que minha família esperava de mim, tudo que eu planejava ser, foi perdido. Uma vida foi perdida, um caminho inteiro, uma Aline morreu. Um universo paralelo (fã de Fringe detected) foi destruído. Eu não sabia sequer como minha família olharia pra mim, como ela reagiria. Mas eu tinha força o bastante pra continuar. Era como a disposição em deixar uma cidade falida de Sim City de lado e começar uma do zero, com tudo novo, tudo desconhecido. Ou jogar as roupas do seu guarda roupa bagunçado em cima da cama, e dobrar tudo de novo. Naquele mês eu passei meu primeiro(em minha vida toda) fim de semana sem rumo, saindo de um lugar, indo pra outro porque deu na telha e sem saber onde iria dormir. Tudo esperava pra ser descoberto.

E é nessa vibe de andar por estradas que nunca planejei, que me encontro há 8 meses. Desbravando um mundo desconhecido. Biscateando de bar em bar (sem medo de ficar bêbada demais e ser julgada), de boate em boate (sem saber a hora de volta), de boca em boca (que nunca seriam descobertas), de risada em risada. Estando disponível para meus grandes amores, que são meus amigos, sempre que eles precisarem, só precisando ligar. Assim, sem planejamento de rotina nas noites e fds por aí. Tenho meus momentos de solidão, afinal dormir sozinha depois de tanto tempo tendo meu lençol já quente é bem difícil. Ainda mais pra mim, que tenho medo de ficar só, desde pequena. Morar com minha mãe, tendo saído de casa assim que completei dezoito anos, igualmente difícil. Mas nada foi desperdício. Eu o amei com tudo que eu tinha. O amei como se não houvesse possibilidade de fim. Amei como se fosse início de namoro sempre. E todo o amadurecimento e conhecimento que ganhei estando ao seu lado, não se mede.

Já desisti de planejar o que não dá pra saber. Deixa essa parte metódica pra vida material/profissional e olhe lá. Não sei o que vem pela frente, não sei se vou terminar sozinha. Mas no final das contas a gente nunca sabe de nada.

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Líli France* Aline na certidão, mas Líli desde que se assumiu biscate. Aos 22 anos já foi casada, hoje o carinho que ela tem no fim do dia é de sua gata Ísis. Web designer, maquiadora, rpgista, cinéfila, gamer e a caminho para ser cantora. A amizade é o que há de mais importante pra ela, seja por pessoas com laço sanguíneo ou não, e tá sempre fazendo barraco em proteção das questões LGBTT e biscáticas. Ri fácil, ri alto, é avoada e esquece de qualquer tristeza quando está com os amigos nos botecos e boates por aí.

Por uma família plural

Desculpem-me os sociólogos, filósofos, e acadêmicos que porventura passarem os olhos neste texto, mas me apropriei um pouquinho do termo “plural”. Peguei emprestado assim, sem querer, sem conceitos ou lastros, apenas para traçar algumas linhas sobre o que venho pensando sobre a minha família, e sobre as famílias tantas.

“Plural” foi o que saltou na tela branca, foi a ideia de muitos, a ideia de reinventar uma unidade familiar composta de gente de muitos cantos. Foi o termo que me tomou de assalto ao pensar na minha própria família.

A minha família nova, inventada, que venho desenhando em vivências inusitadas e outras nem tanto, escolhidas como uma possibilidade de comunhão para além dos guetos de sangue e dos guetos conjugais. Uma família assim, feita de muitos pares, de amigos surgidos nas esquinas que Brasília não têm, de amigos que estão acoplados em minhas pernas desde que me conheço por gente, de amores fraternos que brotam nos jardins ensolarados que planto nos meus quintais ao longo dos anos.

Mãe, pai, filhos, avô, avó, tios, primos, irmãos, e toda aquela constelação que aparece nos mapas genealógicos. Todos esses que são parte da nossa história arraigada na carne. Sim, são família, e estão lá, sempre, nos galhos da nossa vida. E que bom que eles estão lá. Mas não só, não apenas. Conviver e escolher família em cada passo, em cada parte do caminho, vem sendo uma boa realidade que toco com os olhos bem atentos. E toco junto com aqueles que tive a sorte de esbarrar nesse percurso de beira de rio. Vou somando família, juntando um pouco a cada dia para formar um tesouro, para dividir com quem também escolhe fazer parte dessa coisa toda.

Estar junto, precisar e ser precisada, dividir o cotidiano, as durezas tantas, as poesias tantas, os filhos que crescem – de repente- nos parques em que armamos barracas e inventamos piqueniques. Um cotidiano de enlace, e de divisões de vida. O meu filho e os outros filhos, cuidados com amor de mãe e amor de não-mãe. Com pai que está junto ou com pai que está mais longe, ali presente no meio de tudo. Amor de amigo que ajuda a dar banho, a pegar na escola, a dar comida, lavar a louça, colocar para dormir, varrer a casa depois da festa. O abraço bom que está lá junto com a segunda-feira brava de brigas profissionais, uma palavra na madrugada de dor, aquela ajuda preciosa para terminar um trabalho, ou para levar no aeroporto antes da viagem. E, claro, para brigar de vez em quando, porque não existe família quando não existe briga.

Só e despida do tanto que já soube um dia, eu reinventei. E colhi, como recompensa, uma possibilidade de amenizar o cotidiano e romper as barreiras daquela casa que se fecha ali, naquele lugar do sobrenome comum em que não cabe mais ninguém.

Fecho os olhos e desejo cada dia mais aquela família africana das tribos da Guiné, 40 pessoas vivendo juntas, cozinhando juntas, comendo no mesmo prato com muitas mãos, criando os filhos uns dos outros sem posse e sem dizer “esse é meu”. Sim, ele é meu mas também é nosso, ele é um pouco de cada um que lhe dê amor e cuidado. Que lhe ensine a andar por aí e ser uma pessoa melhor. Desejo essa família africana com gente vinda de muitos lugares e  realidades, trocando as riquezas escondidas dentro da bagagem.

Penso que a nossa possessividade familiar nos leva a uma sociedade ainda mais individualista. Estamos sempre no nosso espaço delimitado, exaltando os nossos laços e as nossas coisas, os nossos filhos de nome e sobrenome que demarca o território. E assim segue-se o tempo sem disponibilidade para os outros filhos e para os outros espaços partilhados – para além de levar as crianças juntas ao parque no sábado de manhã.

Família de biscate é família grande, coração aberto que sempre cabe mais um.

Cuidemo-nos!

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