Da impotência ou para quê se luta mesmo?

A sensação é de pés e mãos amarrados com grossas correntes de ferro. Uma sensação de impotência do tamanho do mundo. Como convencer uma mulher de que é necessário denunciar a violência doméstica que está sofrendo? Antes disso. Como fazê-la enxergar que aquela situação é de violência? Como fazê-la ver e, as pessoas a seu redor, que não é normal ter que trocar todos os número de telefone pra evitar as ligações do ex-companheiro, que não é normal as ameaças de morte que ele faz?

Em se tratando de uma pessoa com quem você tem uma relação de afeto, como tratar disso? Como manter a calma e não ser possuída por um espírito de onipotência, achando que pode resolver tudo? Como estabelecer um canal de diálogo se a pessoa te evita e diz que não quer “te dar trabalho”? Como acolhê-la e convencê-la de que a lei a protege, de que existem vários mecanismos para obriga-lo a ficar longe e que fugir de cidade em cidade não vai acabar com a situação que ela vivencia?

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Como conversar com ela que, apesar dela ter te visto crescer, você sabe do que está falando? Mas como fazer isso sem cair numa auto promoção gratuita? Sem cair em autoritarismo? Como não perder a calma e a vontade de sacudi-la dizendo: “fia, ele vai te matar”? Qual o equilíbrio entre ser invasiva demais e ser omissa? Como lidar com a frustração se ao cabo de todos esses dias, essas conversas e telefonemas ela optar por não denunciar?

Como acionar a rede de atendimento para mulheres em situação de violência se ela sequer se reconhece como tal? De que adianta tanto conhecimento, tanta militância, tantas estatísticas, casos tenebrosos e também finais felizes se você não consegue convencer alguém que está ali, do seu lado, de que é preciso envolver a polícia? De que não precisa ter vergonha ou medo? E como propor às pessoas que ao invés de falarem que “ela é fraca” por não denunciar, dissessem por aí que “ele é criminoso” por bater?

De que forma posso convencê-la de que, ao contrário do que ela diz, ele pode ter a coragem de matá-la? Como dizer a ela que isso que está acontecendo com ela, atinge milhares de mulheres no país todo?

Update:

Não consegui falar nada daquilo que eu esperava para ela. Ela simplesmente me pediu para não importuná-la mais. Se por um lado me dói a vulnerabilidade dela, por outro me dói a impotência e a sensação de não ter feito nada. Mas ainda cabe a reflexão dos nossos limites e dos limites da lei ante a casos como esses. E o entendimento que o enfrentamento à violência começa bem antes da chegada a delegacia ou qualquer outro equipamento.

Não ao #bebeuperdeu

Este texto estava no rascunho desde outubro de 2014. Mas depois de ver o absurdo de uma campanha do Ministério da Justiça onde há a responsabilização da vítima pelo que ela sofre, eu decidi publicar.

Eu fui estuprada.

No dia 21 de abril de 1997, aos 20 anos. Foi a minha primeira relação sexual, e não foi consentida. Foi em uma cidade universitária, no feriadão, em uma festa.

Mas eu não denunciei. Eu não contei para ninguém. Eu não sabia que era estupro, eu achei que foi culpa minha. Ele era da turma de amigos, era irmão de alguém, amigo de alguém. Eu me senti segura com ele. . Eu estava embriagada, ele me levou para o quarto dele. A gente estava se beijando. E eu quis parar. Eu disse não. Eu gritei, eu chorei, eu dei um soco nele, mas ele não parou. E no dia seguinte, ele foi tão gentil. Eu achei que tinha feito algo errado, que estava louca. Mas estava dolorida, com a calcinha suja do sangue da minha virgindade. E ele disse que como eu era “muito quente”, ele não imaginou que eu fosse virgem. Até a hora “h”. Nos despedimos, eu peguei o ônibus e voltei para casa.

Levei anos até superar o que houve.

Outro dia em um seriado americano, L&O: SVU, o episódio foi sobre um humorista que faz piada de estupro, e que é também um estuprador. Ele usa de todo o arsenal do “politicamente incorreto”, lança mão da liberdade de expressão, e ao final, consegue um acordo com a promotoria, e não cumpre pena.

O ponto não é nem esse. É que a responsável pela Unidade de Vítimas Especiais (Crimes Sexuais), ao levar o caso para o promotor responsável, encontra uma séria resistência.

Porque a vítima não era “confiável”. Porque ela havia bebido, havia beijado o estuprador, bêbada, em público. Porque não avisou ninguém, não pediu socorro, não contou para ninguém.

E o “humorista” faz sua fama e inclusive usa do processo para ficar mais famoso, mais “polêmico”, mais “incompreendido”.

Afinal, toda mulher bêbada que faz sexo casual e no dia seguinte não recebe flores vai acusar o parceiro de estuprador, não é mesmo? E é um dos maiores “temores” masculinos, equivalente ao da vagina dentada: ser acusado de estupro depois de sexo casual.

Ele fala que a piada não é sobre o estupro “estupro”, o “de verdade”, “for real”, mas aquele estupro do “ele disse/ela disse”. Essa categorização já diz que há vitimas que são mais vítimas do que outras. Há a antecipação, a previsão, de como vai agir uma “verdadeira vitima de estupro”. E confunde, de propósito, estupro com sexo.

Eu já fiz sexo casual. Eu sei o que significa casual, sem compromisso. E eu já fiz sexo casual depois de beber, e eu já me arrependi de ter feito sexo, casual ou não. Mas só uma vez disse não, e pedi para parar, e demonstrei meu desconforto. Só uma vez foi estupro. Houve arrependimentos, em outras ocasiões, depois que eu superei e passei a curtir sexo? Sim, quem nunca? Mas não houve outro estupro. E sim, eu recuperei minha vida e tenho uma vida sexual saudável, isso me torna menos vítima na visão de algumas pessoas -para elas, não foi estupro se não há o trauma e a frigidez posterior.

Estupro não é sexo.

Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Quando alguém diz NÃO, é não. Quando alguém diz PARE, é para parar.

Então, isso tem que parar.

Não é NÃO.

Precisamos arcar com nossas escolhas, sim, mas precisamos nos educar, a todas e todos, para entender que não há nada, NADA, que justifique o sexo forçado. NADA.

A Luciana, nesse texto aqui, fala:

“Uma mulher, uma pessoa, tem que se responsabilizar pelo que diz. Se ela diz que não quer ganhar nada na Páscoa, mas intimamente deseja muito um ovo enorme e cheio de penduricalhos…azar. Se disse que não quer nada, é isso que deve ganhar: nada. Todo o conjunto de traduções “ela disse…” mas “quis dizer…” é preocupante porque questiona a autonomia da mulher e se inscreve em uma tradição paternalista de ignorar o que uma pessoa adulta explicitamente enuncia.”

Nem a roupa, nem a bebida, nem qualquer amasso anterior, nem ir para o quarto ou para o carro, ou qualquer dessas coisas. Ninguém “pede” por isso.

Se em algum momento de uma relação, uma pessoa pedir para você parar e dizer que está desconfortável com situação, que não quer, você não tem que insistir, que forçar de forma psicológica ou muito menos física. Você tem que PARAR. A pessoa não te “deve” nada.

E se em algum momento de uma relação você se sentir desconfortável, intimidada, ameaçada, você TEM o direito de dizer NÃO. Você não “deve” nada.

Eu escrevi a primeira vez sobre o tema em 2011, com o título “isso não é um convite para me estuprar”, no Blogueiras Feministas Mas não tornei público que eu também fui uma vítima de date rape.

Toda vez que alguém faz piada com estupro, uma de nós sente de novo a dor e a vergonha que passamos. Toda vez que alguém ri e diz que é só uma piada, uma das mulheres que passou por isso se sente pior. E somos muitas, uma em cada quatro.

(sim, foi muito difícil para mim falar isso, publicamente, mas é preciso. Eu preciso. E não, eu provavelmente não vou denunciar quem foi o sujeito. Mas eu tenho o direito de contar o que houve, sim, porque foi real, sim, e porque pode acontecer com qualquer uma. Sim, você, que está ai e olha com ares de “isso não vai acontecer comigo, eu me dou ao respeito”, saiba que pode sim, acontecer com você, e que eu vou estar do seu lado, se você precisar).

Leia também: Bunda de fora, salto alto de “fuck me”

Propriedade, julgamentos e violência contra a mulher

Por Niara de Oliveira

A super lua de ontem me fez saudosa de muitas coisas. De mim, inclusive, da Niara que enxergava o mundo e até escrevia com um pouco mais de encantamento e poesia. Lembrei de um post onde contava um pouco das minhas memórias, da lua e de uma música, feita pra lua e sobre ela.

Ando seca. Talvez seja Xangô me atormentando e dizendo que não se pode descansar ou vacilar com tanta injustiça em volta. Só que é aquilo… Tanta injustiça embrutece a gente. E é só das injustiças e indignadades desse mundo que estou sabendo escrever. De modos que… Segue mais uma.

Acordei num mau humor do cão ontem. Porra, domingo, um dos raros em que não teve festa em nenhuma das ruas aqui perto de casa em OuCí e nem ensaio da banda horrorosa que ensaia na casa do lado… Mas tinha foguetório — sempre tem — e Lalá latindo, ogro gripado e roncando e se atirando na cama, #dinofilhote acordando toda hora. Não consegui dormir duas horas ininterruptas. Quando finalmente “acordei” e fui fazer meu café para sentar em frente ao pc e trabalhar — vida de jornalista freelancer é isso mesmo –, Gilson comenta sobre essa notícia que acabara de ler nas internetes… Fui despertada por ela.

Em julho do ano passado vi uma matéria com esse casal, Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine. Eles tinham feito uma “tattoo de compromisso”. Ele tatuou seu sobrenome na parte frontal do pescoço e ela tatuou um carimbo estilo “made in” dentro de um retângulo tracejado nas costas, próximo ao ombro direito, dizendo “PROPERTY OF WAR MACHINE” (Propriedade de War Machine — seu codinome de lutador).

montagem com as "tattoos de compromisso" feitas por Christy Mack e Jonathan Koppenhaver, o War Machine

montagem com as “tattoos de compromisso” feitas por Christy Mack e War Machine

Pausa. Respira. Respira de novo… Respira mais fundo. Bóra descascar esse abacaxi…

Suas profissões não vêm ao caso. Conhecemos inúmeros casos de homens agressores extremamente violentos exercendo profissões consideradas até dóceis. E a vítima, bem… É só a vítima! Me nego a fazer qualquer observação a esse respeito porque considero que a mulher é livre para fazer o que bem entender, inclusive uma tatuagem dizendo que é propriedade de outrem ou casar e assumir o sobrenome do marido. E sabemos também que a violência contra a mulher é democrática, horizontal, perpassa todas as classes, raças, países, origem, idade, credo e conduta.

O que tem de errado nessa história — além da violência, que infelizmente já foi “normalizada” — é a forma como a notícia foi apresentada. Em primeiro lugar editores do portal Terra, violência contra a mulher não é “confusão”. Confusão é jogar dinheiro pra cima no meio do Saara ou do Mercadão de Madureira ou na 25 de Março ou ainda no Bric da Redenção. Quando um homem espanca uma mulher, independente da natureza de sua relação (pode não haver nenhuma, inclusive) é apenas e tão somente violência contra a mulher. Não há meias palavras, não há relativização a ser feita, não há pílula a ser dourada.

Em segundo lugar editores do portal Terra, não fica claro no título o motivo pelo qual Christy Mack não está podendo falar. Não poder falar é eu fazendo o #dinojantar com as mãos ocupadas entre a cebola, a pimenta e a colher de pau sem poder pegar o telefone para falar com alguém. E o pior de tudo, editores do portal Terra: Por que a profissão de Christy abre a frase do título da notícia? Por que o julgamento moral e o machismo dx editxr (deve ser um homem quem exerce o cargo, como indicam as pesquisas a respeito de cargos de chefia no jornalismo brasileiro, mas como o machismo é estrutural e estruturante, e passível de ser reproduzido por todos, inclusive mulheres, melhor deixar o gênero do cargo indefinido) responsável por essa seção do portal são mais importantes que a notícia? Atriz pornô merece apanhar? Atriz pornô que namora lutador de MMA violento a faz menos vítima? Atriz pornô que tatua ser propriedade de namorado violento a torna merecedora de violência? Se a atriz vítima de violência fosse de comédia a sua profissão estaria no início do título?

A questão é que tanto faz. Não importa sua profissão ou qual a sua especialização como atriz, sua conduta e nem mesmo sua permissividade com relação à violência. Não cabe à chefia da editoria do portal Terra julgar isso. Jornalismo relata fatos, conta como eles aconteceram, o “julgamento” fica a critério de cada leitor/a. E sabemos que nem precisava desse escárnio com Christy para que ela fosse julgada como merecedora do espancamento do qual foi vítima. Se ao ler a notícia, mesmo que nos detalhes finais, estive escrito que ela é atriz pornô todos a julgariam. Então, pra quê? Sabemos pra quê, mas estou questionando diretamente a editoria do portal Terra. Porque nesse caso não é o repórter peão que não pode ser responsabilizado pela manipulação da informação do veículo onde trabalha, nesse caso é a chefia, é quem detém a confiança do proprietário do veículo que deveria ser de informação, e não de julgamento.

Como ficaria um título isento para essa matéria? “Atriz é espancada e mal consegue falar. Namorado está desaparecido”

Se Christy não tivesse se tatuado como propriedade do namorado, ela estaria a salvo da violência? Não. Nenhuma mulher está. War Machine se sentiria menos proprietário de Christy sem a tatuagem? Não. Homens tendem a se sentirem proprietários da mulher, independente de terem ou não uma relação com ela. Há uma enxurrada de casos de assassinatos de mulheres onde o feminicida é o ex. Nesses casos todos é comum a imprensa vimitizar de novo a mulher ao julgá-la, como fez (e ainda faz) no caso da Eliza Samudio, só para citar um exemplo.

Não importa o que façamos, o que somos ou o que pensamos. Quem está na berlinda é sempre a mulher. E me admira muito que numa matéria com esse título não tenham dado uma rápida guglada e citado a tattoo como mais um atenuante para o agressor…

Não sei vocês, mas eu estou pelas tampas com moralismo barato usado para justificar machismo, misoginia e, por consequência, violência contra a mulher.

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atualização 11/08 às 13h30: Até consigo entender que num portal todas as notícias relacionadas a “famosos” estejam num mesmo local, mas é inadmissível que um caso de violência contra a mulher esteja na seção “Diversão”.

atualização 12/08 às 14h15: Christy Mack divulgou em suas redes sociais na segunda à noite um comunicado agradecendo o apoio e carinho que vem recebendo e relatando o que houve. Esse comunicado foi traduzido e divulgado pela seção “Combate” do Sport TV da Globo.com, num tom bem mais aproximado da realidade dos fatos. Mesmo assim, num trecho diz [o que talvez para alguns justifique as agressões de War Machine]: “Ela relatou que foi espancada pelo atleta, com quem teria rompido relações há três meses, após >>>ser flagrada<<< junto a um amigo em sua casa em Las Vegas.

FLAGRADA??? O termo flagrante aqui dá a ideia de que ela estaria fazendo alguma coisa errada. A própria Christy justifica em seu comunicado que ela e o amigo estavam vestidos quando da chegada de War Machine em sua casa.

Diz a Renata Corrêa, e eu subscrevo: “As mulheres são flagradas de biquini no site de fofocas, flagradas conversando com amigos pelo namorado ciumento mas o único flagra mesmo é do machismo na sociedade. A menina ainda tem que dizer que estavam vestidos. E se estivessem pelados? Podiam apanhar?

Por fim, um trecho do relato de Christy com parte do “saldo” de seu espancamento e as fotos dela no hospital ontem (11/8): “Minhas lesões incluem 18 ossos quebrados ao redor dos meus olhos, meu nariz foi quebrado em dois lugares, perdi dentes e vários outros (dentes) estão quebrados. Estou incapaz de mastigar e de ver pelo meu olho esquerdo. Minha fala está confusa por causa do inchaço e da falta de dentes. Tenho uma costela fraturada e o fígado severamente rompido por causa de um chute na minha lateral. Minha perna está tão lesionada que não consigo andar sozinha.

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Christy Mack no hospital, após ser espancada pelo ex, War Machine

Discurso

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada 

Puta. Biscate. Vadia. Periguete. Vagabunda. As palavras variam um pouco, o sentido e direcionamento, nunca. Uma mulher não costuma ser julgada pelo seu posicionamento político, pela sua inteligência, pela sua habilidade empresarial. Ela é julgada pela sua vida sexual. Mesmo que nem a tenha. Mesmo que você nem saiba se ela tem alguma.

E quando queremos ofender um homem?

Viado. Bichinha. Ou filho da Puta. São os mais comuns.

Veja bem, o energúmeno fez um desfalque na empresa e o máximo que você consegue é tentar compará-lo a uma mulher ou a um homossexual, ou seja, um homem que, de alguma forma e em algum grau, se comporta como uma mulher.

A Renata Lins já postou sobre a importância de mudar os xingamentos. Eu falei recentemente em um seminário de oratória e a direção era a mesma do texto dela: discursos não são neutros, palavras não são neutras. Elas estruturam e são estruturadas pelo sistema de poder dominante. E não é preciso ser um gênio para entender que vivemos sob um sistema patriarcal, homofóbico, machista, racista, classista e capitalista, que hierarquiza pessoas por classe, gênero, orientação sexual, raça, idade e etnia.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar” (Michel Foucault)

Foi na internet que encontrei os exemplos para minha palestra, afinal, quem não conhece “o monstro dos comentários”? Ou as “piadas” das subcelebridades da rede?

Uma dessas figuras, um dia, soltou que estuprador de mulher feia merecia um abraço. Um amigo dele disse em outra ocasião que o cara que espera uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela é um gênio. Um outro meliante escreveu um texto tão absurdo, que só colando um pedacinho pra acreditar:

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Nem vou entrar no mérito do que é ou não uma mulher bonita e gostosa, da comparação da mulher com um objeto como um carro ou um relógio. Me aterei aos fatos:

— Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Elas representam 50,7% do total. Os adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e os adultos (18 anos ou mais), 29,9%.

— Segundo a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e 46% não possuíam o ensino fundamental completo (considerando as vítimas de escolaridade conhecida, o índice sobe para 67%).

— estimativas da Policia apontam que apenas duas entre cada 10 vítimas denuncia o abuso. Um dos motivos é a proximidade do agressor.

— A maioria esmagadora dos agressores é do sexo masculino, independentemente da faixa etária da vítima.

— No geral, 70 % dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Então alguém explica para os subs da internet que estupro nada tem a ver com sexo e sim com PODER sobre o outro? Que a roupa que uma mulher/menina veste, seu comportamento sexual e/ou social não é motivo e não pode NUNCA ser utilizado como desculpa para uma agressão?

Essa culpabilização da vítima é um velho golpe político, daqueles mais manjados, mas que parece nunca cair em desuso. Pobres são acusados de serem pobres por que querem, porque não se esforçaram o bastante. Negrxs são acusados de preguiça, de má índole, desde a escravidão. Enquanto isso, o poder dominante se sente seguro para perpetuar o racismo, o machismo, a homofobia e os trágicos números que o Mapa da Violência traz sobre homicídios dessas minorias historicamente perseguidas.

Voltemos a palavra puta. A Luciana Nepomuceno já escreveu sobre o quanto é preocupante alguém achar que chamar uma mulher de puta seja algo ruim, pejorativo, ofensivo.

“Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?”

A querida Gabriela Leite declarou, em 2007, que a violência contra as prostitutas vem crescendo no país, partindo principalmente de jovens de classe média e reforçada pelos órgãos de segurança, que tendem a ver a prostituição como crime. “A sociedade sempre dividiu as mulheres em duas categorias: a santa mãe de seus filhos e as prostitutas.”

E se uma prostituta se torna mãe? E se uma mulher da classe média resolve se autointitular prostituta, no auge da sua gravidez? Como a sociedade reage a isso?

Mês passado, soube que a foto de uma amiga querida durante a Marcha das Vadias 2013 estava sendo compartilhada por uma página antifeminista no facebook com um texto bem manipulador a respeito. Ela, que estava grávida de nove meses, tinha escrito na barriga “filha da puta”, desafiando assim esse paradigma que teima em se manter vivo em pleno século XXI.

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Faz parte. Poderia ter sido a minha foto grávida de 2012 na Marcha, poderia ter sido a minha foto com o filhote no ano passado ou neste ano, já que fui uma das organizadoras do protesto nos últimos três anos. Mas foi a dela e claro, quando ela marchou, assim como nós, já sabia que enfrentaria a boçalidade de muitos.

Mas realmente é chocante o nível dos comentários nas diversas páginas e fakes que começaram a compartilhar a mesma. E eu me pego pensando se realmente conseguiremos revolucionar esse sistema como gostaríamos, já que A MAIORIA dos piores comentários são de mulheres.

Discurso – prática – prática – discurso. A violência contra as mulheres está aí, sendo discutida pelas principais Instituições de Direitos Humanos do mundo, pois não é algo exclusivo do Brasil. E muito menos dos homens. É do sistema. E quem sou eu para julgar quem o reproduz ou mesmo quem acredita que está defendendo a fofa da filhota dela ao soltar comentários como esses?

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Falta de informação, excesso de ingenuidade, medo da mudança… os motivos podem ser vários, mas o principal é que a maioria não consegue enxergar o quanto estão envolvidos por essa ideologia assassina que é premissa do nosso sistema social.

E, após os comentários non sense (teve até gente perguntando como ela engravidou se odeia homem, num sinal claro que a criatura não faz ideia do que é o feminismo) vieram os comentários preocupantes, violentos, agressivos:

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Você pode achar que são só comentários. Assim como a turminha que tacha o “politicamente correto” de chatice e defende “as piadas” incorretas. Mas não é assim que acontece e a realidade está aí, pra dar tapa na cara de quem insiste em olhar para o outro lado.

Por mais que me horrorize os julgamentos femininos, bem mais do que os masculinos, já que estes mais não fazem que lutar para manter seus privilégios, eu fico é penalizada, pois sei que o vento sempre vira, como disse a Renata Lins em um post meu recente no facebook. Ver mulheres tripudiando de outras, julgando, por essas lutarem contra a violência que TODAS NÓS estamos sujeitas é algo bem perverso. Porque amanhã a vítima poderá ser qualquer uma delas. E nem assim elas acordarão para a realidade…

Vadias somos todas. Eu fui chamada de vadia quando fui estuprada. Quando recebi uma promoção no trabalho. Quando ganhei a láurea acadêmica. Quando namorei um homem 10 anos mais velho, quando namorei um homem 10 anos mais novo. Puta. Vadia. Piriguete. Biscate.
Mas a verdade é que não somos todas putas. Porque não sofremos o que esse grupo sofre diariamente com o preconceito que parece crescer assustadoramente em nossa sociedade conservadora, julgadora e hipócrita. E dói muito pensar que este pensamento é o mesmo de 2000 anos atrás, quando um baderneiro de cabelos compridos afirmou que só poderiam atirar pedras quem não tivesse pecado, pedras essas destinadas a uma mulher pela sua conduta sexual.

Vou encerrando esse texto lembrando das palavras do fofo do Bernardo Toro ao falar da ética do cuidado. Toro é uma daquelas pessoas que a gente conhece, senta pra tomar um café e tem vontade de nunca mais sair de perto. Integrante do Bogotá Como Vamos e da Red Latino-americana por cidades justas, democráticas e sustentáveis do qual eu tenho muito orgulho de fazer parte, ele traz nesse texto a seguinte afirmação:

“A linguagem é a chave para saber quem somos como indivíduos. Nós somos nossas conversas: quando mudamos nossa forma de ser, mudamos nossas conversas e quando mudamos a forma de conversar, mudamos a forma de ser. A linguagem nos constrói.”

E é por isso, por essa reconstrução da linguagem, da nossa forma de ser, que mais uma vez me chamarei de vadia, de puta, de periguete. Não importa realmente se minha conduta sexual condiz ou não com essas palavras. Eu quero ter o poder e a alegria de ressignificá-las. Para que, um dia, nenhuma mulher mais seja julgada, humilhada, assassinada por ser quem é: uma mulher.

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH - 2012

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH – 2012

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

Novela machista e antimoralista ao mesmo tempo?

Por Niara de Oliveira

É da vida a contradição. Para quem não sabe, eu assisto novela. Quanto mais ruim a novela mais me apego. Sei lá se Freud consegue explicar. Percebo que é ruim e onde, mas assisto. É excelente para esvaziar a mente, para relaxar. A Globo possui há alguns anos um canal na tevê fechada, por cabo, que é uma espécie de memória sua, o Viva. Ele reprisa programas da emissora e principalmente novelas. Normalmente são três novelas reprisadas ao mesmo tempo, sempre à tarde com reapresentação diária dos capítulos a partir da meia noite. É aí que, depois de concluído o combo fazer janta, dar banho no filho e colocá-lo na cama, eu me jogo no meu sofá, ponho as pernas para o alto e relaxo diante da tevê. A-DO-GO!

Para o meu deleite, as novelas têm piorado muito de qualidade nos últimos anos. Salve Jorge e Amor à Vida foram péssimas e Em Família bate recordes de reclamações nas redes sociais (procurem pelas hashtags #SemFamilia e #EmHelenas) e já são muitos os textos apontando absurdos, preconceitos, reforço de opressão, falhas, etc. A pior novela que reprisa agora no Viva, História de Amor (também do Manoel Carlos) é infinitamente melhor que Em Família. Manoel Carlos nunca foi tudo isso mesmo em diálogos (quedê Gilberto Bragaaaaaaaaaaa?), embora seja bom na construção de personagens. Ele constrói tão minuciosamente cada personagem que permite a alguns atores, no caso de serem bons, meio que carregarem a trama nas costas. Em Família nem isso está dando conta, porque os diálogos são tão ruins, tão estereotipados e reforçadores de opressões e preconceitos que enterram o esforço e o talento dos atores.

Mas isso é só uma introdução, meio que justificativa, para dizer que uma das antagonistas de Em Família conseguiu a empatia do público — ao menos do público da novela com quem converso –, talvez justamente porque não tinha esse compromisso e o talento da atriz ajuda muito. Shirley, interpretada por Viviane Pasmanter, é uma mulher dona de sua sexualidade. Permite que os filhos transem em casa, incentiva os filhos a terem prazer com o sexo, incluindo a filha, pega na cobra, se enrola na cobra, faz foto nua… Enfim, é a biscate da novela. Sim, tinha o bullying que ela praticava com a filha por ser “””gorda”””, que agora meio que saiu de cena, tem a inveja, o recalque com a “mocinha”, tem a obsessão pela paixão da adolescência, tem o uso do dinheiro para humilhar as pessoas, tem o prazer em humilhar o outro, a diversão com a desgraça alheia… Enfim, é uma antagonista.

Do outro lado da trama, Helena certamente sabe que a filha Luiza tem vida sexual ativa, mas não lembro das personagens conversando a respeito. Shirley teve várias conversas com a filha sobre sexo, sobre aproveitar a vida, experimentar, não se prender a apenas um namorado…se jogar. Numa delas chegou a dizer textualmente que a filha precisava se livrar da virgindade para viver os prazeres da vida. Achei supimpa!

Não curti tratar a primeira transa de Bárbara (Polliana Aleixo) como um presente, uma prenda dela pro amado e nem dele se sentindo presenteado por ser o primeiro e a associação “indissolúvel” de sexo com amor na trama do casal. Mas, né…numa novela onde o primeiro beijo lesbo só aconteceu depois de colocar aliança no dedo… Voltando ao caso da Bárbara, o bacana é que ela fez o que quis, do jeito que quis, em casa e com o apoio incondicional da mãe, além de parecer não ter se apegado a valores muito moralistas — o que seria até compreensível sendo ela uma vítima de bullying da mãe, poderia ter feito o caminho oposto apenas para ser diferente. Ela só queria transar com ele porque gosta dele, e isso é da vida. O mais bacana: a reação de Shirley na conversa com Bárbara sobre sua primeira transa é emocionante.

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

no capítulo de sábado, Shirley se emociona ao saber da primeira transa de Bárbara

Se por um lado a novela dá vontade de quebrar a televisão com os diálogos de culpabilização da vítima por agressão (vide o diálogo de Alice e Vitor no sábado), com destaque aos diálogos que envolveram o caso de Juliana e Jairo, a abordagem de estupro, assédio, aborto, tortura psicológica — que valem muitos posts para denunciar mesmo sabendo que a caca está feita pelo alcance que tem a novela no imaginário e subconsciente popular –, nesse núcleo é quase uma ode antimoralista. Numa vibe meio Pollyanna, a novela é tão ruim tão ruim tão ruim que decidi falar de uma das poucas coisas (talvez a única) boas da trama. Não é que seja ruim, ‘o povo é que não tem cultura para entendê-la‘. Ou a #ACulpaÉDoDebussy.

Em Família está acabando, UFA! Vem aí mais uma novela do Agnaldo Silva com mais uma trama requentada. Na última novela desse autor tivemos um gay estereotipado, um assassinato homofóbico e um estupro em que a vítima gamava no estuprador. Espero que seja bem ruim para eu me apegar (mentira, me apego a qualquer uma, sou facinha) e para poder reclamar bastante no twitter. Bóra reforçar o estoque de Dramin e Plasil.

p.s.: tô aqui fazendo “as vêis” da Bete Davis que não escreveu sobre novela na quinta-feira passada. 😛

Quem ama não bate

Sílvio Santos é um mito da tevê. Sílvio Santos despreza as regras da tevê quase sempre, faz e desfaz das grades de programação a seu bel-prazer e acerta e erra de forma mítica. Dá entrevistas onde se mostra um empresário cheio de ética, sua ética particular, e já foi candidato a presidente mas a gente deve sempre se lembrar que esse cara querido e simpaticão, no auge da ditadura, tinha o minuto do presidente na sua emissora para elogiar o militar presidente da vez e que, agora, em 2014, não foi capaz de dizer a Rachel Sheherazade que não promover censura é diferente de salvo-conduto para emitir opiniões ofensivas aos direitos humanos e dizer bobagens.

O SBT é seu reflexo, acerto e erros igualmente catastróficos, nada é embalado em busca da ética, embora possa parecer ser, somente na busca da audiência e nisso muitas vezes a responsabilidade social ou mesmo a jurídica se vão pela janela. O acerto nesses campos SBT sempre me parece aleatório ou a busca  obstinada de uma ou outra pessoa, não exatamente do ‘Seo Sílvio’.

E aí tivemos mais um “Casos de Família” com a Cristina Rocha e esse teve como tema “mulher que não gosta de apanhar, tem que se comportar”, e espancadores de mulheres tiveram seu palco para defender seu machismo sob aplausos talvez de boa parte da “família brasileira”, embora  a chamada do programa invoque a Lei Maria da Penha em defesa das mulheres.

Captura de tela de 2014-06-19 03:40:53

Isso me lembra o Jairo de “Em Família” que sempre solta pérolas machistas, é grosso  e mal-educado com a Juliana e ela suporta tudo por amor (personagens do Maneco sempre suportam tudo por amor). No entanto acho que Jairo é um personagem com um forte recorte de classe por parte do autor da novela com fortes traços de preconceito social demonstrado nessa oposição vida na comunidade X vida no Leblon (sendo o segundo sempre melhor e o outro mostrado de forma estereotipada e pior).

O traço em comum entre o personagem os personagens da novela e os participantes do programa como a vida real no SBT é que fica clara a cultura onde a  mulher deve sempre buscar ser feliz num relacionamento e que isso é tarefa dela, mesmo apanhando, a culpa é dela e ela deve ou obedecer ou evitar o conflito. E é isso que a que gente deve começar a desmitificar. Ser feliz não significa estar num relacionamento a qualquer custo e não é unicamente da mulher o ônus de um relacionamento feliz. E mais que tudo, violência física e verbal não é demonstração de afeto, é inaceitável e ponto.

ps: você quer ver o programa do SBT? clique aqui (o programa foi forte em transfobia também).

ps2: cenas do Jairo e Juliana em Em Família aqui.

#16DiasDeAtivismo … Acabou! Acabou?

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Somos biscas de palavra e de luta, e de palavras que sugerem, descrevem e inspiram lutas e de lutas que inspiram outras lutas. E, portanto, apesar da mobilização dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres acabar oficialmente em 10 de dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, preferimos cumprir 16 dias de fato de ativismo com textos que descrevessem, lembrassem e inspirassem essa luta. Os nossos 16 dias de ativismo acabam hoje. Não, pera… Explicando melhor. O ativismo assim, concentrado, acaba hoje. A luta pelo fim da violência contra a mulher só acaba quando a violência acabar.

E o que percebemos, amigues, em todos os posts dessa mobilização, seja nas palavras ou nas imagens, é que essa luta está muito longe de acabar. Então, façamos um passeio rápido por cada post-descrição-inspiração.

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero: “Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero.”

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher. “no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.”

O que é que vão pensar? “A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos.”

Lutar contra a violência dói. “Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.”

A Aids e as mulheres. “Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.”

A violência contra a mulher e os homens de bem“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher. “Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.”

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém* “O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.”

Sobre violência de gênero, medo e barbárie “Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.”

Somos, Todas, Maria! “Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.”

Miosótis. “De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge? Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”

Eufemismos, medo e morte. “Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas. Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.”

Até no trabalho. “Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.”

De quantas histórias é feita a nossa história? “De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?”

Amanhã mesmo o assunto aqui poderá ser de novo violência. Porque de novo, de novo e de novo ela se repete no nosso cotidiano e nos atinge em cheio, sufoca a poesia, embaça o horizonte enquanto não falamos, berramos e tentamos dar nome e identidade às vítimas para que não se tornem apenas números nas estatísticas. Tentamos também identificar o cerne da questão, o que está por trás de cada violência, de cada agressão, e porque é tudo tão igual, o jeito do agressor, as agressões, os “motivos”, a reação da vítima e aquilo que chamamos de ciclo de violência, que independente de classe social, escolaridade, cultura, raça ou credo. Infelizmente. E só a luta poderá fazer cessar, até que todas sejamos livres.

Sigamos!

Eufemismos, medo e morte

No dia 22 de novembro de 2013, uma jovem de 17 anos foi morta pelo (ex)namorado, no interior do Paraná. As câmeras do circuito interno de vigilância do supermercado onde a jovem Letícia trabalhava captaram parte da cena.

Assisti tal notícia num jornal sensacionalista, do tipo Cidade Alerta. Sábado modorrento, de passar a tarde em casa depois de almoçar fora. Namorado zapeando canais da televisão. E de repente, no meio do meu sábado, dentro da minha sala, aquela cena.

Uma jovem sendo arrastada por um agressor. Se agarra a um homem, na porta do supermercado, implorando por socorro. O homem que a arrasta mostra uma arma, e o pequeno grupo de pessoas se afasta, impotente, com medo. Ou talvez pensando: “em briga de marido e mulher…”.  Eles saem. Todos na porta, olhando.   Segundos depois, ela volta, correndo. Escorrega. Cai. E é atingida por mais um disparo.

Isso foi transmitido na tevê.

Ao final da matéria, eu chorava. De dor. Desespero. Agonia. Raiva.

Durante a matéria, entrevistas com colegas de trabalho e com a mãe da jovem.

O (ex) namorado, de 21 anos, não aceitava que a jovem trabalhasse. Ou estudasse. Exigia que ela largasse o emprego. Não foi a primeira violência, aquela sequência transmitida em rede nacional.

E os repórteres noticiam: “mais um crime passional”.

Duas semanas depois, o Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a autorização ou não para a investigação da agressão relatada pela esposa de um parlamentar, que o acusou de agressão e narrou que ficou apanhando por 40 minutos, votou contra, usando seu conhecimento em MMA para desqualificar o depoimento da vítima.

Segundo o Ministro, “Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, o ministro Marco Aurélio também sabe que nem num torneiro de Mixed Martial Arts (MMA) se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”, explicou Fux, que pratica jiu-jítsu. “Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, completou adiante, observando que o exame do Instituto Médico-Legal (IML) encontrou apenas lesões na mulher, como hematomas nos braços e nas pernas.”

Estamos participando, aqui no Biscate, da campanha #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher e enquanto eu pesquisava sobre esses dois casos, para poder explicar qual a ligação entre um e outro, encontrei uma “matéria” com uma declaração do tio da Letícia Monique, dizendo: “Nós esperamos que isso sirva de exemplo para outras jovens que estão em um relacionamento complicado como este. Infelizmente, é um exemplo ruim”, lamenta o tio.

“Exemplo para outrAs jovens”, diz o tio.

“Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, diz o ministro Fux.

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, dizem tantos.

Lei “Maria da Vingança”, já ouvi homens dizendo.

Relacionamento “complicado”.

“Na hora, assim, da fúria, né? A pessoa não pensa… ai eu efetuei os disparos”, disse o assassino.

Uma jovem é morta, no interior do Paraná, por um homem de 21 anos. Crime passional – porque foi filmado, gravado, testemunhado, ele foi preso em flagrante e confessou.

Uma mulher é agredida por um deputado federal, durante um longo tempo. Podem ter sido 40 minutos. Para o ministro não houve crime, não houve sequer agressão. Segundo ele é impossível, inverossímil, a versão inicial da vítima — “a suposta vítima e a testemunha, empregada doméstica da família, teriam voltado atrás em seus depoimentos”, diz o jornal. Felizmente o STF entendeu, por 6 votos a 3, que existem indícios suficientes para a instauração de uma ação penal e atenderam ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que a denúncia contra o deputado fosse recebida e o processo fosse aberto. Ele agora é réu.

Entre o tio da Letícia Monique e o nobre magistrado, doutor, ilustre e fã de MMA, nada em comum. E tudo em comum.

O pensamento é semelhante, o objetivo é semelhante: legitimar a ação do homem e agressor, e desqualificar as palavras da vítima.

Leticia já havia sido agredida antes. Na frente de amigos e familiares. Já havia sido arrastada pelos cabelos, na frente de casa, pelo Jean Albino. Na frente da mãe. O tio chama o relacionamento de “complicado”.

Letícia faz o que é chamada a fazer, para demonstrar que “não gosta de apanhar”: se separa do agressor. Termina o namoro.

Não sabe (ou talvez saiba) que aumentou em mais de 85% o risco de ser morta.

E morre.

Quando vamos ver a relação entre as declarações dos nossos jornalistas e dos nossos juízes (e nossas jornalistas e nossas juízas!) e as mortes de ao menos 10 Letícias por dia?

Quando vamos entender que Jean Albino não matou em um momento de fúria, sem pensar? Que ele pensou, e muito. Ele pensou, e muito, que Leticia era sua coisa, sua propriedade, sua posse. Que Leticia não tinha direitos sobre a própria vida, que não podia trabalhar, estudar, ter outros interesses na vida, salvo ele.

violencia contra mulher

Para a imprensa, um “namoro que terminou tragicamente”.

Para o tio, “um exemplo para outras jovens”.

E para os agressores, a declaração do Ministro: nunca vi murro de mão fechada não deixar marcas. E a suposta vítima tem apenas lesões.

Apenas. Lesões.

A mensagem que fica é: bata, mas não deixe marcas.

E se matar, foi apenas um momento de fúria. De um jovem desequilibrado. E não de um sistema, de uma situação, familiar e cotidiana, que afasta qualquer debate ou discussão ou conversa, e que coloca os autores de agressão física, verbal, psicológica, sexual, como monstros. Desequilibrados.

O jovem Jean Albino não demostrou arrependimento. Logo dizem: monstro. Ou então: apaixonado.

Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas.

Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.

Miosótis

Entrevista-depoimento com/da MIOSÓTIS*

Contra a violência as mulheres. São Paulo, 23/11/2013. foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

#fimdaviolenciacontramulher :

” Nome fictício:  (é uma flor.)

Situação: 19 anos, sem emprego, sem filhos, e sem relação com o agressor.

Relato da violência: Estava voltando para casa (4 km de caminhada a 4 anos) quando ao terminar de atravessar uma das ruas, um carro bateu em mim. O meu antebraço ficou encaixado no carro (meu corpo ficando em cima do capô) até ele parar, mais ou menos uns 100 metros do local da pancada. Depois, vários motoboys me ajudaram ligando pra minha família e depois ligaram para a SAMU. Estava muito mole e tentando recobrar a memória, mas ainda não estava sentindo dor alguma. Por alguma razão, que ainda tento entender, não quis processá-lo. Ele pedia muitas desculpas, mas continuava com um discurso de que eu também estava errada por estar a pé, por estar sozinha e estar andando à noite. Total imbecilidade. No hospital, apesar de terem tirado Raios-X do meu corpo, disseram que eu não havia quebrado nada. Uma semana depois voltei por sentir dor no antebraço, aí descobri que estava quebrado. Depois disso tudo fui a um hospital particular e engessei o braço e fiquei uns três meses achando que o osso iria calcificar, mas não havia jeito. Depois de quase cinco meses depois do acidente (até marcar e fazer todos os exames demora…), tive que fazer uma cirurgia de enxerto de células ósseas, do meu próprio quadril. Depois fiz um mês de fisioterapia e o braço parece bem melhor.

Situação do processo: Não o processei, mas ainda estou juntando as coisas para receber o dinheiro do seguro obrigatório do carro, que cobre acidentes, o DPVAT.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido: o posto de saúde falhou muito ao me mandar para casa com o antebraço quebrado sem eu saber. Isso agravou o estado do meu antebraço, pois se soubesse na hora, daria para colocar o antebraço no lugar e não perderia todo esse tempo com dor.

De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge?
Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”
……………………..
*Texto originalmente publicado em novembro de 2010

A Aids e as mulheres

Ela é promíscua. Não sei bem o que é isso, mas, segundo a ONU, pessoa promíscua é aquela pessoa que tem mais de dois parceiros sexuais em um ano. Creio que 90% da população brasileira se encaixa aí. Ela a quem eu me refiro é a personagem Inaiá, interpretada por Raquel Villar, na novela das 21h da Globo, Amor à Vida.

Quando fiquei sabendo que essa personagem descobriria que tem Aids (sim, eu sou noveleira e me interesso pelo que ainda vai acontecer nas tramas que acompanho, ou não), alguns questionamentos me vieram à mente: por que uma mulher? Por que uma mulher negra? Por que uma mulher negra e que teve mais de um parceiro ao longo da trama?

Bom, aí que muita gente, e o próprio autor Walcyr Carrasco, poderia me responder: foi coincidência, uai. Mas não, isso está muito longe de ser coincidência. Inaiá é a ÚNICA mulher negra da novela (outro ator negro da trama é Kayke Gonzaga, que interpreta o menino Jayme) e me pergunto: por quê ela? Ora, ela reúne – de acordo com o pensamento machista, racista e reacionário vigente – todas as prerrogativas para ter Aids. Ela é negra. E as mulheres negras estão no mundo para serem consumidas sexualmente por todos. Ela é “da cor do pecado”, foi feita pra isso. Ela exerce sua sexualidade livremente. Antes do atual parceiro, ela já transou com outro médico da trama – pra ONU e pra muita gente, ela já é promíscua.

Raquel Villar, que interpreta a personagem Inaiá

Raquel Villar, que interpreta a personagem Inaiá

Ora, reunindo essas duas características, Inaiá seria a personagem ideal para Walcyr Carrasco arrotar por aí que está focando num problema social: a feminização da Aids. Só que não está. Ele está apenas reforçando estereótipos machistas e racistas. E afirmando que apenas mulheres “promíscuas” terão Aids, e em nada acrescentando ao debate de uma educação sexual necessária.

Que a feminização da Aids é uma realidade, creio que muita gente sabe. Desde a década de 1990, o índice de infecção do vírus aumentou entre as mulheres, e, hoje 50% das pessoas infectadas no mundo são mulheres.

Para que chegássemos a esse patamar, muita coisa atuou em conjunto. Falta de informação, ação das igrejas para a não utilização de preservativos, confiança na tal da “relação estável”, e o machismo. Sim, sempre ele a nos espreitar. Porque os três motivos que eu apresentei – e aí acredito que existam outros – têm sua gênese no machismo.

As mulheres não são educadas para se posicionarem, para exigirem do parceiro que ele use camisinha, para acreditar que ter um parceiro fixo é sinônimo de prevenção. Não foram educadas para adquirir camisinha. A família acha que uma mulher com camisinha na bolsa é “puta”. O posto de saúde também. O atendente da farmácia, idem. As escolas acham que “falar sobre sexo” estimula adolescentes a fazê-lo. Os parceiros ainda se saem com aquela velha e máxima “você não confia em mim. Por isso que quer usar camisinha”.

Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.

Lutar contra a violência dói

Por Niara de Oliveira

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Já escrevi muito sobre violência contra a mulher, aqui inclusive. Causas, consequências, políticas públicas de prevenção da violência e cuidado com as vítimas, leis mais duras para punir agressores, mecanismos e estruturas que facilitem a denúncia e nos deem a real dimensão da violência sofrida (todos os números se baseiam na violência denunciada e estimativas), mecanismos que facilitem também a punição como delegacias, centros de referência, defensoria-promotoria-vara especializada, lei específica… Nada até agora parece ter sido suficiente.

🙁

Não, não é derrotismo puro e simples. É mais cansaço mesmo. É muito tempo lutando nessa mesma trincheira e cada vez que vou ao campo de batalha o cenário é o mesmo. Os relatos de como ocorreu, como foi a via crucis nessa estrutura legal que foi criada a partir da luta feminista nas últimas décadas, as marcas, a dor, a auto estima que não existe mais… O horror.

:'(

Não, não é derrotismo puro e simples. É cansaço. É constatação dos fatos. E é dor. O movimento feminista teve muitas vitórias ao longo das últimas décadas no Brasil, conseguiu quase tudo que queria em termos de estrutura para dar conta da recepção/tratamento da vítima e punição do agressor. Mas nada foi suficiente para coibir ou prevenir a violência. Os números aumentaram. Não só porque o número de denúncias aumentou, mas principalmente porque a população brasileira dobrou em 40 anos.

O machismo continua inabalável, intacto. E se antes éramos apontadas em mexericos nas conversas de esquina, bar, pátio do colégio e bastava não ligar para os comentários que atingiam a “reputação” ou incorporá-los, dependendo da personalidade de cada menina, agora ele se espalha pelas redes sociais, e esses comentários ganham provas materiais, e já não depende mais da personalidade de cada menina superar as difamações e mexericos. E elas se matam.

:'(

É tão perverso que esses homens (alguns tão meninos quanto suas vítimas) sequer precisem desferir um golpe para matar, basta enviar uma foto pelo celular ou publicá-la numa rede social. Solução? Vamos pensar em mais enquadramento legal, mais penas, mais estruturas e mecanismos para dar conta das vítimas que sobreviverem?

:-/

Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.

Continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada?

Hoje é mais desabafo mesmo. Dsclp!

:-(

:-(

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

As mulheres abortam. A todo tempo. Todo mundo conhece alguém. Todo mundo conhece um caminho. Todo mundo já fez, já passou, conhece alguém que passa, ou passará. Óbvio, assim, bem óbvio. E no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.

É, o aborto mata mulheres. E, quando não mata, deixa dolorosas marcas físicas e psíquicas nas mulheres que precisam se submeter a uma clandestinidade violenta para terem acesso, e direito, sobre seu próprio corpo. Sim, falar sobre aborto é falar sobre direito da mulher. Direito à dignidade, à integridade física, e à saúde.

O Artigo 196 da Constituição Federal, por exemplo, estabelece que o direito à saúde é um direito integral e universal de todos os cidadãos deste país. Um direito que passa pelo direito à prevenção, recuperação e proteção da saúde. Bom, não seria digno, justo, e – até – legal, garantir que as mulheres que desejam fazer um aborto o façam de forma segura, sem riscos à sua saúde? Direito Constitucional, baby. Que só não é garantido porque vivemos, lamentavelmente, em uma sociedade hipócrita, permeada por velhos moralismos religiosos.

Imaginemos uma cena corriqueira, que está aqui entre nós, nos cotidianos de todos os cantos: uma mulher engravida e não quer, não pode, ou não consegue, levar essa gestação adiante. Susto, medo, dúvida, assombro. Coragem, força, luta. Como essa mulher faz para dispor do seu corpo como bem entender?

Bom, se essa mulher é rica, ou tem grana, fica mais fácil: paga-se o conforto e a segurança para o procedimento abortivo. Sim, aborto também é uma questão social e econômica. Quem pode pagar, se dá melhor. Claro, capitalismo é capitalismo na legalidade ou na clandestinidade. E é dessa desigualdade que ele se alimenta. Então, se tem dinheiro na jogada, a violência é menor. Ampara-se a mulher, minimamente. Faz-se o aborto com maior segurança. Claro que isso não impede que a mulher sofra a violência moral que permeia essa discussão toda: o julgamento, o dedo em riste, a vergonha, o dano psíquico. Marcas que doem sempre, como uma cicatriz que não se fecha. Mas se tem grana, dói um tanto menos. Porque o desamparo da saúde gera violências ainda maiores.

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

E se a mulher não tem dinheiro? Bom, aí é onde a realidade é ainda mais cruel. E é aqui que mora a maioria da população brasileira. Aqui a clandestinidade é marcada pela falta de assistência e pela violência física. Ela aborta sem qualquer segurança, e sofre no corpo a posição de um pseudo Estado laico, que não garante seu direito de escolha. A mulher vai atrás de um remédio no mercado negro, um remédio bem fácil de conseguir em qualquer rede ou feira livre desse país. Ela vai atrás de uma clínica de fundo de quintal. Ela se submete a receitas caseiras perigosas. Ela aborta. E aí meu amigo, ela sofre uma violência imensa, sem que nossos olhos viciados consigam ver de perto o tamanho do problema.

E ele é grande. Os relatos dos serviços de saúde que, infelizmente, não constam em dados científicos, se repetem. As mulheres chegam doentes aos hospitais. Muitas, esvaindo-se em sangue, em desmaios, em dor dilacerante. Muitas, perdendo seus órgãos reprodutivos e, quiçá, outros mais. Muitas em infecção profunda. E muitas outras, mas muitas outras mesmo, em quase morte. E elas morrem. E nesse percurso sofrem preconceitos e discriminações por parte dos profissionais de saúde, assistentes, secretários, e tantos outros que se recusam, até, a atenderem essa mulher “criminosa”.

Dados da OMS estimam que, no Brasil, a média de abortos anual é de um milhão. É, acreditem. Um milhão. Temos também as estimativas do Ministério da Saúde, que entre 729 mil e 1,25 milhão de mulheres se submetem ao procedimento anualmente no Brasil. E a cada dois dias, uma mulher (sem recursos) morre em decorrência do aborto. E a gente continua fingindo que este não é um sério problema de saúde pública.

Como diz o obstetra da Universidade Federal de São Paulo Osmar Ribeiro Colas: “Quando cai um avião ficamos chocados, mas há dois Boiengs de mulheres caindo por dia e ninguém fala nada”. Lamentável, certamente. E eu lamento todos os dias, juntando forças para seguir na luta pelo aborto seguro e legal no Brasil.

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

Vamos seguir mais um pouco?

A Pesquisa Nacional sobre Aborto no Brasil – PNA, empreendida por Débora Diniz, professora da Universidade de Brasília e membro da ANIS – Instituto de Bioética, Direitos Humanos e Gênero, e por Marcelo Medeiros, desta mesma entidade, revela que:

…o aborto é tão comum no Brasil que, ao completar quarenta anos, mais de uma em cada cinco mulheres já fez aborto. Tipicamente, o aborto é feito nas idades que compõem o centro do período reprodutivo feminino, isto é, entre 18 e 29 anos, e é mais comum entre mulheres de menor escolaridade, fato que pode estar relacionado a outras características sociais das mulheres de baixo nível educacional. A religião não é um fator importante para a diferenciação das mulheres no que diz respeito à realização do aborto. Refletindo a composição religiosa do país, a maioria dos abortos foi feita por católicas, seguidas de protestantes e evangélicas e, finalmente, por mulheres de outras religiões ou sem religião” (Diniz e Medeiros, 2010. P. 964. In: Aborto no Brasil: uma pesquisa domiciliar com técnica de urna. Ciência & Saúde Coletiva, 15(Supl. 1):959-966).

E continuam os autores:

“O uso de medicamentos para a indução do último aborto ocorreu em metade dos casos. Considerando que a maior parte das mulheres é de baixa escolaridade, é provável que para a outra metade das mulheres, que não fez uso de medicamentos, o aborto seja realizado em condições precárias de saúde. Não surpreende que os níveis de internação pós-aborto contabilizados pela PNA sejam elevados, ocorrendo em quase a metade dos casos. Um fenômeno tão comum e com consequências de saúde tão importantes coloca o aborto em posição de prioridade na agenda de saúde pública nacional” (p. 964).

Deixemos o moralismo de lado, pelo menos um pouco. Todas as mulheres abortam, até as católicas e evangélicas, segundo a PNA. Não é mais possível evocarmos direitos de um possível feto em detrimento do direito da mulher, massacrando-a naquela velha e pesada cruz. Não é mais possível fecharmos os olhos para a violência que sofre a mulher que aborta, física, psíquica, voraz, tirana e imperativa. Não é mais possível viver num Estado dominado por uma hipocrisia religiosa sem limites.

Eu aborto, tu abortas, ela aborta. Nós abortamos. E somos todas mulheres clandestinas e violentadas.

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher

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