Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero

O #FimDaViolenciaContraMulher é o bem que se quer!

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O Biscate Social Club está entrando nos 16 Dias de Ativismo Contra a Violência de Gênero, e de hoje Dia Latino-Americano e Caribenho de Luta Contra a Violência à Mulher e Dia Internacional da Eliminação da Violência contra a Mulher — até o dia 10 de dezembro — Dia Internacional dos Direitos Humanos — todos os posts do clubinho terão a eliminação da violência de gênero como tema, cada bisca escrevente com o seu olhar, sensibilidade, suas histórias e as histórias de violência que não podem ser esquecidas.

Adoraríamos viver num mundo, continente e país onde essa luta não se fizesse necessária. Mas, sua necessidade se torna cada dia mais premente. A violência contra a mulher de tão comum ficou banal. Há uma onda de suicídios de adolescentes por conta do machismo explicitado na divulgação de fotos da intimidade dessas meninas. Não começou agora, mas talvez o caso mais conhecido seja o da Fran. E a imprensa nunca diz o motivo principal desses crimes e nem se aventa a possibilidade de responsabilização criminal dos ex dessas meninas por suas mortes.

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O recente feminicídio de Letícia Monique, de 17 anos, pelo ex-namorado no Paraná, virou frisson da imprensa e na internet. Não pelo feminicídio ou pela vida de Letícia, mais uma ceifada pelo machismo, mas pela espetaculização do crime. Foi quase tudo gravado pela câmera de segurança do supermercado onde ela trabalhava. Mas, o mais impressionante das cenas, embora nenhum veículo tenha atentado para isso, é a inércia, a imobilidade das pessoas assistindo Letícia ser arrastada para fora do supermercado por seu assassino. Ela nitidamente pedia socorro.

Dizer que ‘em briga de marido e mulher não se mete a colher‘ não cola mais como justificativa para se omitir, a Lei Maria da Penha já permite que terceiros façam a denúncia à polícia, e o casos de violência contra mulher saíram do espaço privado tem muito tempo. Letícia não foi vítima apenas do machismo de seu ex-namorado, ela foi vítima do machismo de todas as pessoas que assistiram e seguem assistindo ao seu assassinato.

E aí, vai ficar só olhando? Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero. 😉

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O que mais saiu na rede:

25 de novembro: contra a violência física e simbólica às mulheres – Blogueiras Feministas

Violência contra as mulheres: Já basta! – Marcha Mundial das Mulheres Brasil 

Vídeo da Marcha Mundial das Mulheres Brasil 

Conheça o Projeto Entre Nós

Liberdade para não morrer

Por Niara de Oliveira

Já estamos em clima da Marcha das Vadias no Brasil (clique nas siglas para ver a página de cada Marcha: RJBSBBH — SP — indiquem as que não achei, que vou acrescentando). Em Quito já rolou a Marcha das Putas e eu achei tão mais bacana esse nome… 😛

E por que a Marcha das Vadias é necessária? Por que além dos desafios do feminismo não estarem superados ou vencidos (como disse no meu último post — sim, esse é uma continuidade daquele), o machismo é estrutural e estruturante dessa sociedade em que vivemos e sustentamos (e sustentamos inclusive o machismo, não se iludam) e sua face mais perversa é a violência sexista, que inibe, obstrui, marca, mata e nos impede de viver livremente.

Avançamos muito, é verdade. Mas, nenhum avanço foi de graça ou veio desacompanhado de dor e da perda de muitas mulheres. Ou seja, o caminho da luta pela libertação das mulheres é ladrilhado pela vida de muitas de nós. Então, muito-muito-muito respeito e cuidado ao se referir, lidar ou andar nesse caminho. E esse recado vale para  a presidenta Dilma Rousseff e para a secretaria de Políticas para as Mulheres Eleonora Menicucci. Não basta ser mulher e estar num cargo de poder, tem que usar esse cargo e todos os recursos possíveis e oferecê-los às mulheres para que possam usá-los na luta contra sua opressão. Ou de nada adianta essas mulheres ocuparem esses cargos.

E por que citei Dilma e Eleonora? Porque o governo Dilma usou menos de 30% das verbas previstas no orçamento para o combate à violência contra a mulher nos anos de 2011 e 2012. Dá vontade de chorar, sabe? Porque essa decisão, burocrática, administrativa, de não comprometer o orçamento previsto condena milhares de mulheres à morte e à tortura. Todas nós que já brigamos por políticas públicas e sempre esbarramos nas desculpas “não tem orçamento para isso” sabemos que ter esse orçamento destinado a combater violência consumiu anos de luta feminista e essa conquista está sendo jogada no lixo.

Não estamos falando de possibilidades. Mulheres morrem por falta de políticas públicas efetivas de combate à violência. Então, além da Marcha das Vadias fazerem sua tradicional reivindicação pela liberdade e o direito de ir e vir vestidas como bem quiserem sem sofrer violência, faço um apelo para que incluam essa pauta.

Para que liberdade? Para não morrer.

Liberdade para não morrer. Coisa de mulher, nesse mundo, no Brasil do séc. 21.

Violências sutis

Naná,

Primeiro, que bom receber um email seu. Depois, que bom saber que sou “a amiga mais feminista” que você tem, embora eu gostaria que você também se reivindicasse feminista. Mas ok, isso é conversa pra outra hora. Bom, fiquei muito triste e com muita raiva do que você me contou. É muito grave o que aconteceu. Você e o Rafa são casados, dividem a mesma casa e a mesma cama, mas nada dá a ele o direito de encostar em você, se você não quiser, sem o seu consentimento. Não existe “deveres de esposa”, Naná. Você só trepa com ele se tiver com vontade e quando tiver vontade. O que ele fez foi muito nojento sim, e acho que você tem que falar isso pra ele. Não sou boa de conselho, mas isso, pra mim, seria o fim do relacionamento. Mas eu sei também, Naná, o quanto é difícil ver essas violências dentro das relações íntimas, porque tá tudo muito naturalizado e é uma mistura doida de sentimentos. Parece, muitas vezes, que a violência é só a física. Mas não é não. É psicológica também. Eu sei que você gosta dele e que não é fácil terminar essa relação, mas para o que vier, estou aqui.

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Bom, quanto ao que aconteceu com a Ju eu me solidarizo com ela. Já passei pela mesma coisa. A história dela se repete tanto e tanto. A mulher que bebeu demais, adormeceu em algum canto (às vezes na própria cama) e um cara, geralmente um amigo, ou o boy que ficou no pé a noite toda e levou um não, resolve se aproveitar da situação e violentá-la. Bom, como diria minha avó: “dos males o menor”, porque a amiga dela apareceu e tirou o cara de cima dela né? Fala pra Ju que ela  – infelizmente – não está sozinha. Muitas e muitas mulheres passam por isso. O nome disso é violência de gênero. Ela não tem que ter vergonha, ou achar que deu mole, ou que está dramatizando “uma coisa besta”. O “amigo” dela que fez isso com ela é que deveria sentir vergonha, ser execrado e não pagar de gostosão. O foda, Naná, é que muita gente acha que estupro e violação só acontece em beco escuro por algum desconhecido e não sabe que ele, muitas vezes, está do lado. O cara que fez isso com a Ju nem deve achar que fez alguma coisa, deve achar que é inocente, porque pra ele e pra um monte de gente, foi só uma brincadeira.

Naná, querida, espero ter te ajudado a pensar um pouco sobre isso tudo. Acho que de tanta coisa ruim que você me contou naquele email, teve uma positiva: você percebeu que você e a Ju passaram por violências muito parecidas e muito sutis. Que nossa cultura machista vai dizer que “é normal”, ou que “vocês procuraram”. Mas, você sabe que ser violentada não é normal e que mesmo que a gente não consiga dizer exatamente o que está sentindo em relação a isso, é preciso não calar e falar, falar até ser ouvida. E mudar isso que está aí!

Beijos biscates pra vc e pra Ju!

Receita Contra a Violência

Por Niara de Oliveira

Para uma vida sem violência, se você for HOMEM:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não manipule. Não estupre. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “presas” suas. Você não é um caçador ou um predador. Você é só humano, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas através do privilégio que tens agora pode se voltar contra você a qualquer momento. Se há alguém reclamando de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito.

Para uma vida sem violência, se você for MULHER:

Use a inteligência antes da força física. Seja gentil com todos, e não apenas com quem você deseja comer ou que te coma. Tenha a noção que quem é menor que você provavelmente está em desvantagem física e NÃO TIRE PROVEITO DISSO. Tenha a noção de que quem é maior que você e está em situação de privilégio poderá tirar proveito disso. Então, não recorra a subterfúgios para tentar manipular, porque se você é capaz de jogar as pessoas envolvidas no jogo são capazes de entendê-lo. Tenha a noção que o mundo é dos ricos, brancos e adultos e se te enquadras em um, dois ou três desses privilégios, não exerça o poder que esses privilégios te conferem. Não bata. Não sevicie. Não abuse. Não mate. Não diferencie as pessoas pelo seu gênero, orientação sexual, cor ou raça, religião, jeito que se vestem, horário que andam na rua e nem as identifique como “concorrentes” suas. Você não é caça nem presa. Você é só humana, e a situação de opressão e violência que reforças e sustentas podem se voltar contra você a qualquer momento. Se há quem reclame de suas atitudes e privilégios, ouça e reflita a respeito. Use a inteligência também para detectar as situações de violência não apenas quando você ou “os seus” poderão se tornar vítimas. Não se proteja das pessoas, mas da violência com que elas possam te atingir e atingir os demais. Se organize com as outras mulheres e com os demais grupos tidos como desprivilegiados na escala do poder e opressão. 

LEMBRE-SE: machismo, racismo e homofobia são estruturais. Não existem pessoas machistas, racistas e homofóbicas. Existem ATITUDES machistas, racistas e homofóbicas e TODOS NÓS podemos cometê-las a qualquer momento, até mesmo quando temos a melhor das intenções. Não há ideologia, organização, cor, orientação sexual, religião ou boa intenção que te imunize desses preconceitos estruturais. Saibamos que ao tentar seguir essa receita iremos errar e o que vai nos diferenciar será a forma como trabalharemos esse erro. Como diria um negão da pesada do samba, o Noite Ilustrada, “reconhece a queda e não desanima… levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima”. Ouça aqui!

LEMBRE-SE: qualquer sistema baseado no cerceamento de liberdade e direitos e que segregue as pessoas produz obrigatoriamente violência e NINGUÉM está a salvo nele.

O 25 de Novembro é o Dia Internacional pela Eliminação da Violência Contra a Mulher, em homenagem a LAS MARIPOSAS. Patria, Minerva e María Tereza Mirabal foram atraídas para um emboscada e assassinadas pelo ditador Trujillo na República Dominicana em 1960. A data foi escolhida pela Assembleia das Nações Unidas em 1999 para o dia de combate à violência sexista.

Um(ns) Final(is) Infeliz(es)

Quando ela o conheceu, tudo era diferente. Ela era ela e ponto. Usava aquelas roupas viçosas e coloridas, como sempre gostara. Seu perfume era marcante e sua maquiagem brilhava tanto quanto seu sorriso. Havia sim quem achava tudo aquilo uma cafonice sem precedentes, mas ela não ligava. Como disse, ela era ELA. E ponto. E se orgulhava muito disso.

Pensando ela que havia encontrado a “sua metade”, começou a namorá-lo. No princípio, tudo era mágico. Declarações apaixonadas, flores, presentes. Juras infinitas de amor. Aos olhos de todo mundo que conheceu aquele casal, parecia que aquele era um relacionamento perfeito. Parecia que ele a amava mais que a própria vida. Parecia tanta coisa bonita que acabou ficando bem difícil entender o que na verdade se passava.

Tudo começou com algumas pequenas censuras. Sabe aquele ciúme bem de leve que em algum momento todos enxergavam como se fosse “bobagem de casal”? Pois é. E de tanto todos acharem aquilo normal – ela inclusa – acabaram por não perceber o que aquilo realmente representava.

– Com essa saia, você não sai de casa comigo!

– Mas, quando você me conheceu, eu usava justamente essa saia! Por que isso agora?

– Porque agora você é minha mulher. Minha! E mulher minha não se veste feito puta. E mais: não quero que converse ou ande junto com aquela fulaninha lá. Não a vejo como uma boa influência para você.

Silêncio. Obediência e troca de roupa. Tristeza, que foi rapidamente relevada. Afinal, ela o amava e achava que no fundo, tinha razão. Agora, ela era comprometida e tinha que se policiar mais em relação às suas atitudes. Mesmo que boa parte de seus dias tenha se transformado num verdadeiro inferno.

E ela, sempre com a culpa rondando seus pensamentos, foi deixando de ser quem era. Perdeu seu brilho, seu sorriso. Não fazia mais o que gostava, afastou-se dos amigos e da família. Cobria seu corpo, como se sentisse vergonha e medo dele ao mesmo tempo. E ainda assim, achava que estava tudo bem. Que era assim que tinha de ser e que o orgulho que um dia tanto teve de ser como era se transformou em dor.

A partir daí, foi um passo para que toda essa violência passasse da moral para a física. Ela começou a apanhar por qualquer motivo, bastava contrariá-lo. Com medo de denunciar e de perder a vida ou de colocar a vida de sua família em risco, calou-se. E só parou de sofrer quando foi morta. Morta por aquele que mais amou. Por aquele que deveria (ele prometeu isso!) proporcionar a ela felicidade.

Finais tristes como este infelizmente não são exceções. Ainda hoje, mulheres têm sua existência ceifada todos os dias. A violência contra a mulher não é um mero problema de casal e deve ser coibida efetivamente. Afinal, “ELA” poderia ser eu, você, uma amiga, sua mãe, ou alguém que você goste muito. Esta poderia ser a história de qualquer uma de nós, biscates ou não. Basta ter nascido mulher.

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