A violência de todo dia

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O que aconteceu na noite de quarta-feira (06/05) no Plenário da Câmara Federal é de uma violência atroz. A deputada Jandira Feghali (PCdoB/RJ) foi agredida fisicamente pelo deputado Roberto Freire (PPS/SP). Isso por si só já é uma demonstração bastante realista da violência cotidiana a que nós, mulheres, estamos sujeitas. O ato de Roberto Freire é equivalente ao do homem que agride a companheira numa discussão. O pensamento embutido nesse ato de violência é: “ora, se essa mulher não se cala, não se coloca no seu lugar, com um murro, um empurrão, uma facada, ela para”.

Pois bem, não bastasse esse tipo de violência dentro da mais importante casa legislativa desse país, o deputado Alberto Fraga (DEM/DF) ainda incitou e concordou com esse tipo de postura ao falar que “quem bate como homem deve apanhar como homem”.

Jandira Feghali, reconhecida pela sua luta em favor dos direitos das mulheres – com projetos pela legalização do aborto, como relatora da Lei Maria da Penha – foi vítima de uma violência extrema dentro do Congresso Nacional. Violência que de mais velada atinge todas as mulheres políticas desse país. A sub-representação feminina na política é só uma das faces do machismo institucionalizado, mas podemos pensar ainda nas piadas misóginas nos meios de comunicação, no descrédito das ações e projetos de lei protagonizadas por elas ou que incidem sobre a vida das mulheres, como a regulamentação da PEC das Trabalhadoras Domésticas.

Que a violência contra as mulheres está em todos os lugares, nós já sabemos. Que o machismo velado está presente nas instituições brasileiras, nós também já sabemos. Agora, uma violência física, seguida de uma incitação a mais violência, dentro do plenário da Câmara Federal é inadmissível. O discurso de Jandira Feghali, após a violência sofrida e aplaudida por muitos colegas, é muito contundente nesse sentido. A deputada relembra, inclusive, o que aconteceu com a também deputada Maria do Rosário, no ano passado, e que também não teve grande repercussão.

Essa legislatura, que é considerada a mais retrógrada desde 1964, tem feito por onde honrar esse título. O discurso de Jandira foi também um discurso pedagógico nesse sentido. Suas palavras soam como uma tentativa de “ensinar” a esses senhores o que é um Congresso Nacional, o que significa ser eleito e estar numa casa em que a vida das pessoas é decidida.

No entanto, é muito simbólico que a relatora da Lei Maria da Penha seja agredida dessa forma. Isso nos leva a crer que, bom, não estaremos nunca a salvo em uma sociedade estruturalmente misógina, racista, homo-transfóbica e elitista.

 

Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

A culpa é sua sim!

A culpa é sua sim! Quem mandou nascer, crescer, ser alfabetizado em uma sociedade patriarcal e que reproduz na educação doméstica e formal esse patriarcado, começar a trabalhar, ser independente, casar, ter filhos e, depois disso tudo, sair por aí, do jeito que quer, cacarejando acriticamente o que aprendeu a vida toda? Sim, a culpa é sua!

Na semana em que o Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas – IPEA – divulga uma pesquisa que retrata a opinião favorável de 65,1% dos entrevistados de que a mulher vítima de abuso sexual contribui, de alguma forma, para a agressão, não é a sensação de “pare o mundo que eu quero descer” a mais apropriada. Tampouco, a sensação de “isso é um absurdo” é válida! Sabemos com certeza matemática, pelo menos isso o dizem pesquisas como essa e dados produzidos por agentes públicos, que a violência contra a mulher, principalmente de cunho sexual, no Brasil é monstruosa.

Retratos de um Brasil Agressor

Retratos de um Brasil Agressor

E o porquê de “a culpa é sua”? Simples! Porque você é capaz de achar isso normal, de concordar com o resultado da pesquisa e de dizer: “Mas é claro! Mas se ela não fizesse/tivesse/vestisse/dissesse ‘isso’, não seria abusada”. Se você tem domínio desse discurso, parabéns, este post é para você. Esse post é para te conceder um pouco de compaixão. Compaixão por entender que você não foi capaz, por algum motivo que não vem ao caso, de pensar criticamente o contexto social em que cresceu.

Além disso, é um post para te permitir um pouco mais de amplitude a respeito das causas do estupro, como mostra o gráfico abaixo:

Causas do Estupro

Causas do Estupro

Ou ainda, é um post pra te conscientizar a partir de exemplos correlatos e que levam para uma realidade paralela a essa sua forma de pensar, como na imagem abaixo:

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Como os agressores pensam

Parece absurdo, não é? Pois é! E não entender isso só quer dizer uma coisa: você falhou em entender seu processo de socialização. Você pode ser uma “pessoa de bem”, pagar seu impostos, trabalhar dignamente, contribuir para o futuro do seu país. Tudo isso é ótimo. Contudo, se você não conseguiu entender que o corpo de cada pessoa pertence apenas a ela e que nada, leia novamente NADA, justifica qualquer tipo de agressão contra ela. Foi nisso que você conseguiu falhar. Você falhou em reconhecer o outro como um ser humano livre e capaz, dotado de direitos e deveres tal qual você é! E pior, ao dizer “mas se ela não”, você acabou de justificar e legitimar o agressor. Você acabou de ser conivente com a agressão. Você acabou de ser cúmplice. A culpa é sua sim!

Ps. Não é a primeira vez que falamos sobre o tema, alguns posts podem ser encontrados clicando aqui.

O sangue da maçã

Violações

Ele era bonito, era jovem. Era alto. Era astrólogo.

A gente se encontrou num congresso de ioga. Eu tinha quinze anos e muito frio de gente. Estávamos num camping, os deserdados do congresso. Felizes. Participamos, com um povo grande, da produção de um tabule – comida coletiva com ar de propaganda de Marlboro, daquelas em que o pessoal se reunia na beira de uma fogueira, com um violão, à noitinha.
Voltamos do congresso no mesmo ônibus, ele com a namorada, eu calada, olhando e achando-o bonito.

Nos encontramos depois num aniversário. Pouco cheguei a conversar com ele. Estava no meio de uma frase qualquer – possivelmente sobre Isadora Duncan – quando ele engoliu as palavras e minha boca, assustadoramente. Como era de hábito, aceitei sem entender. Ele me beijou a noite toda e no fim da festa me raptou para um quarto. Sem roupa, na penumbra, tentei buscar motivos aceitáveis para não trepar com ele. Nós dois nus e eu gelada de medo. Eu era virgem e não ia dizê-lo. Não ficava bem. Calculei freneticamente uma data de menstruação que impedia grandes avanços, naquele tempo pré-camisinha.

Não me lembro como adormeci.

Foi longa e sofrida a noite.

Ele era bonito. Era jovem. Era astrólogo.

A outra foi em casa. Mas foi bem menos sombria. O cenário era um assalto: em dado momento, o sujeito me puxou prum quarto e me mandou – com ajuda do revólver, bem entendido – baixar a calça. Inventei uma desculpa venérea. Não sei se colou, mas ele topou levar só uma chupada. Ajoelhei, cumpri a tarefa conscienciosamente e engoli, no final. Não ficava bem.

E no entanto, ali, tudo estava em ordem. O revólver deixava tudo claro. Eu mantinha minha integridade. Foi quase um favor que prestei, afinal a vida do cara era aquilo ali. Estava na ordem das coisas. Era um assalto. Eu tinha que obedecer.

E ele tinha uma juventude usada.

Não era bonito. Não era alto. Não era astrólogo.

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* O texto relata histórias reais e por isso a autoria será mantida em sigilo.

Minha cidade se chama…

Dia 9 de junho teve a Marcha das Vadias na cidade que escolhi chamar de minha casa. Ela se chama João Pessoa e o seu nome sempre me pareceu redundante. Mas nenhum nome vem sem causa, não é?

De acordo com a Wikipédia a história é a seguinte:

“Em 1928, Anayde iniciou um relacionamento amoroso com João Dantas, político local ligado ao Partido Republicano Paulista, que fazia oposição ao então presidente do Estado (governador) da Paraíba, João Pessoa. Depois do violento confronto político que deu origem ao Território de Princesa, João Dantas acabou se refugiando no Recife, mantendo o relacionamento com Anayde à distância, através de cartas.

João Pessoa reagiu, mandando a polícia revistar as casas dos revoltosos e suspeitos, em busca de armas que pudessem ser utilizadas em uma revolta armada. Um desses locais foi o escritório de João Dantas na Cidade da Paraíba (atual João Pessoa), invadido em 10 de julho de 1930. Embora não tenham sido encontradas armas, os policiais depredaram as instalações e arrombam o cofre, onde foi encontrada a correspondência de Dantas, inclusive cartas e poemas de amor recebidos de Anayde.”

Ui!!! Tem sexo, violência e glamour, não é?

Mas continua…

“Nos dias seguintes, o jornal governista “A União”, e outros órgãos de imprensa estadual ligados à situação, publicaram o conteúdo das mesmas, visando atingir a honra de Dantas.

Em 26 desse mesmo mês, João Dantas, acompanhado de um cunhado, Augusto Caldas, entra na Confeitaria Glória, no Recife, e dispara contra o peito de João Pessoa, matando-o. Lavava, com esse gesto, a sua honra ofendida, com sangue.

Criticada publicamente por razões morais e políticas, Anayde sentiu-se acuada após o assassinato de João Pessoa, que causou comoção popular. Desse modo, abandonou a sua residência na Paraíba e foi morar em um abrigo no Recife, onde passou a visitar João Dantas, detido em flagrante e recolhido à Casa de Detenção naquela cidade.

(…)

Anayde veio a falecer, dias depois, aos 25 anos de idade, supostamente por envenenamento provocado por ela, quando sob os cuidados de freiras. O seu corpo foi sepultado como indigente no Cemitério de Santo Amaro.”

Assim se consumou o nome da cidade onde moro.

Antes de (também) criticar apenas um ou outro, lembremos que o Nego de nossa atual bandeira (vermelha e preta, flamenguista!) vem de uma frase de João Pessoa que tentava livrar o Estado de uma política oligárquica, e na época representada pelos Estados de São Paulo e Minas Gerais com aquele negócio que a gente estuda em história e chamam de política do “Café com leite”.

Pois é. Confusão.

E é nessa cidade que pela primeira vez aconteceu uma Marcha das Vadias há nove dias atrás. Não pude comparecer, mesmo tendo me programado com antecedência e por causa de um trabalho. Eu estava em outra cidade, no sertão Paraibano, há seis horas de João Pessoa e que se chama Sousa.

Triste, eu sei… eu sei…

Mas enfim…

Os comentários machistas e preconceituosos que surgiram desde que começou-se a falar da Marcha das Vadias aqui, e que pareceram se intensificar quando passei a ajudar a na organização da mesma, e que em muitos momentos me tiraram do sério, hoje não me parecem tão importantes, perto de outros comentários, da conversa de bar que acabei de ter, e das fotos que compartilhei de mulheres e homens, que pela primeira questionaram falsas, limitantes e sufocantes noções de “moral”, que aprisionam seus corpos e suas mentes em prol de uma suposta ordem social, que nada mais é, a grosso modo, apenas o que possibilita manter o status quo dominante que é branco, masculino, heterossexual e classe média.

E o que Anayde (o sobrenome é Beiriz, se lhe interessar) tem a a ver com isso?

Anayde se tornou a “prostituta do assassino do Presidente” por aqui na época em que viveu. Hoje ela é homenageada em casas populares e nomes de escolas. É mote de mestrado e motivo de orgulho, de uma Paraíba feminina, mas “mulher macho, sim senhor” retratada inclusive por Tizuka Yamazaki em filme.

Mas sabe o que ainda assim me entristece?

Não achei nenhum texto, nenhum, nenhunzinho, dentre muitos que ela tenha possivelmente escrito enquanto pensadora da sua época, porque sim, ela não era apenas uma mulher dividida entre uma coisa e outra, entre um ideal e outro, entre alguém que lavava sua honra e outro que a dizimava…

Ela era poeta, professora, pensadora, escrevia em jornais, vivia entre intelectuais, ditava opiniões…

A única poesia disponível na web coloca-a como um personagem dúbio, entre puta e santa, entre mártir a algoz. Isso é bom ou ruim? Inclusive enfia historicamente, um outro homem a quem ela escrevia. Isso é bom ou ruim?

Ah, tudo bem, tudo bem… a vida é assim mesmo…

É?

Quem é essa mulher alem desses homens? Além da história?

E você, quem é além desse ou daquele? Disso ou daquilo?

Então escrevo esse texto como quem pede: questionem seus pensamentos e padrões!!! Suas histórias!!!

Sejam livres! A liberdade é uma escolha, mas precisamos lutar por ela, acreditem!!!

Que ninguém, além de você mesm@, possa escolher quando calar e quando falar. E em que tom. Não são nossos peitos que algumas pessoas que nos criticaram não queriam ver, porque “isso” toda a sociedade assiste hipnotizada em desfiles de carnaval e em qualquer programa de televisão.

Não se deixe iludir!!!

O que penso sobre os críticos da Marcha das Vadias aqui, na minha cidade, é que essas pessoas não queriam, quando reclamavam das pessoas, homens e mulheres, que defendiam uma causa, era ter que escutar os gritos de dor, medo e revolta escondidos durante muito tempo. Palavras que clamam justiça, igualdade e liberdade.

Porque eles incomodam quem prefere manter-se dormindo em sua zona de conforto e não quer pensar sobre si mesm@ e no quanto suas escolhas, mesmo que seja a de manter-se em silêncio, arrombar casas ou “defender a honra”, também destroem, machucam, mutilam e matam.

De quem você é filh@? Qual seu sobrenome? De que partido?  Com que roupa?

Sim, mulheres também são machistas, como muitos nos apontam os dedos para não ter que novamente (ai, que cansaço!) pensar sobre si.

Sim, talvez eu seja preconceituosa e carregue machismo como todo mundo, vejam só! Mas eu não sou só mulher, artista, pagã, romântica, divorciada, filha, amiga, feminista, louca, poeta, machista ou preconceituosa. Novas versões de mim podem surgir simplesmente quando penso, questiono ou apenas aceito que certas atitudes que tomo e pensamentos que tenho, farão diferença no meu caminho, só ou acompanhada, mesmo nesse mundão tão grande, todos os dias, todas as horas, em todos os momentos. Que posso inclusive MUDAR meus pensamentos, se eles forem machistas ou impliquem em qualquer dor ou mágoa, se eu for preconceituosa ou sexista com meu semelhante.

A Marcha não mudará nada? Faremos alguma diferença?

Minha cidade poderia se chamar Anayde, se ela não tivesse sido tão esquecida, mesmo quando lembrada. E a sua?

P.S: Nenhuma luta é isenta. Nenhuma bandeira é carregada sozinha. Esse texto é para Ieda, Tony, Wagner e Lauro. Porque sim.

P.P.S: As imagens que ilustram esse texto acima foram “roubartilhadas” do grupo Marcha das Vadias João Pessoa no facebook. Exceto a que me conta (ou não) aí embaixo.

.

* Raquel Stanick, de acordo com ela mesma, não é, mas está, artista visual, entre mil outras e tantas coisas (inclusive quase sempre apaixonada) lá pras bandas da Paraíba. Delicada, arruaceira, mocinha do bem, mulher da noite, poeta do amor fácil e da vida difícil (e outras tantas vezes o inverso), é, não apenas biscate na vida mas biscate-fixa-escrevente no nosso clube. Quer mais Raquel? Ela é colunista da Revista Mostra Plural, se desalinha em Todas Essas Coisas Sem Nome e ainda tem este blog onde você esbarra em um pouquinho do lindo trabalho dela: Ceci, n’est pas un blog .

Estupro não é sexo

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.

Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: Não é porque ela estava bêbada que pode estuprar. Não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar. Não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar. Não é porque ela é prostituta que pode estuprar. Não é porque ela dá pra todo mundo que tem que dar prá você também. Não é porque ela é gostosa que pode estuprar. Não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar. Não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar. Não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar. Não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear. NÃO PODE ESTUPRAR!

Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.

Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.

Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.

Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.

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Uma analogia: De quem você acha que é a culpa?

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