Quando o transporte público é espaço de violência

Por Daniela Andrade*, Biscate Convidada

Eu sou uma pessoa que tem um verdadeiro HORROR de transporte público.

E calma, antes que digam que sofro de complexo classista, pra esboçar o patrimônio financeiro que nunca tive, o horror é por que eu cansei de ter sido abusada toda a vida em coletivos.

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Eu precisava pegar um ônibus durante o ensino médio, que chegava lotadíssimo no ponto da escola, atravessava toda a cidade pra chegar no bairro que eu morava.

Alguns homens nojentos, imundos, vendo aquele monte de adolescentes encostavam e se aproveitavam. Aqueles transportes que você não tinha como tirar o pé do chão ou respirar. E àquela época aquilo me dava um nó, meu coração disparava, como se a qualquer momento eu fosse ter uma taquicardia. Rezava para Deus fazer tudo aquilo acabar, quando chegava em casa ficava tensa, não podia falar pra ninguém, já que em casa jamais aceitaram como eu sou. Aliás, ouviria, como ouvi algumas vezes, que a culpa era minha por ser “daquele jeito”.

Quando minhas amigas mulheres cis falavam sobre esse assunto, admirava a coragem de algumas em dizer que revidavam, que gritavam. Na verdade, eu tinha inveja que elas poderiam fazer aquilo e serem socorridas ou contarem com o apoio dos demais – como já vi. Mas eu tinha total certeza que nada daquilo eu poderia fazer, como detentora de uma identidade de gênero divergente e socialmente tida como abjeta, ser lida como um “viadinho muito feminino”, “um viado que quer ser mulher”, “um traveco” só poderiam fazer, como sempre fizeram, era rir da minha cara. Afinal de contas, para a sociedade pessoas que fogem às regras de gênero, que rompem com os grilhões que definiram que somos homens, só tem uma função no mundo: transar, a todo momento, com qualquer um, das formas mais exóticas e improváveis também. Donas de um apetite sexual irrefreável e nada seletivo.

Como detentora de uma identidade marginal, lida por todos como promíscua por excelência, que tinha no DNA o gene da prostituição, eu não poderia abrir a boca. Quando uma vez treinei falar sobre o assunto, riram de mim e disseram: “Ah, diga se você não gostou?”.

Todas essas situações de estupro repetiram-se muitas vezes, a ponto de eu tomar uma total fobia, um medo assombroso de coletivos.

Eu tomava vários ônibus para pegar os vazios, e ir até o ponto final para poder ir sentada. Demorando o dobro ou triplo do tempo. Sentada sempre mais perto do cobrador, pois sabia que sentar para trás também era dar mais chance para que abusadores agissem.

Lembro de uma a uma, todas as vezes que me violentaram sexualmente. Lembro de quando o cara pediu para eu calar a boca, pois se eu dissesse algo, ele diria que um traveco estava passando a mão no pau dele e adivinha do lado de quem todos ficariam?!

Eu aprendi, com a vida aprendi que quando se tem uma identidade trans, quando se é uma mulher trans, a corda vai sempre arrebentar pro seu lado.

Por isso que hoje em dia, eu faço das tripas coração para jamais entrar num coletivo. A menos que eu me certifique com muita antecedência que será num horário que não estará cheio. O que é muito difícil na cidade de São Paulo.

daniela andrade*Daniela Andrade é uma mulher transexual, membro da Comissão da Diversidade Sexual da OAB/Osasco, diretora do Fórum da Juventude Paulista LGBT, Diretora da Liga Humanista Secular, que luta ansiosamente por um presente e um futuro mais digno às todas as pessoas que ousaram identificar-se tal e qual o são, independente daquilo que a sociedade sacramentou como certo e errado. Não acredito no certo e o errado, há muito mais cores entre o cinza e o branco do que pode supor toda a limitação hétero-cis-normatizante que a sociedade engendrou.

#16DiasDeAtivismo … Acabou! Acabou?

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Somos biscas de palavra e de luta, e de palavras que sugerem, descrevem e inspiram lutas e de lutas que inspiram outras lutas. E, portanto, apesar da mobilização dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres acabar oficialmente em 10 de dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, preferimos cumprir 16 dias de fato de ativismo com textos que descrevessem, lembrassem e inspirassem essa luta. Os nossos 16 dias de ativismo acabam hoje. Não, pera… Explicando melhor. O ativismo assim, concentrado, acaba hoje. A luta pelo fim da violência contra a mulher só acaba quando a violência acabar.

E o que percebemos, amigues, em todos os posts dessa mobilização, seja nas palavras ou nas imagens, é que essa luta está muito longe de acabar. Então, façamos um passeio rápido por cada post-descrição-inspiração.

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero: “Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero.”

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher. “no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.”

O que é que vão pensar? “A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos.”

Lutar contra a violência dói. “Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.”

A Aids e as mulheres. “Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.”

A violência contra a mulher e os homens de bem“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher. “Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.”

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém* “O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.”

Sobre violência de gênero, medo e barbárie “Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.”

Somos, Todas, Maria! “Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.”

Miosótis. “De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge? Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”

Eufemismos, medo e morte. “Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas. Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.”

Até no trabalho. “Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.”

De quantas histórias é feita a nossa história? “De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?”

Amanhã mesmo o assunto aqui poderá ser de novo violência. Porque de novo, de novo e de novo ela se repete no nosso cotidiano e nos atinge em cheio, sufoca a poesia, embaça o horizonte enquanto não falamos, berramos e tentamos dar nome e identidade às vítimas para que não se tornem apenas números nas estatísticas. Tentamos também identificar o cerne da questão, o que está por trás de cada violência, de cada agressão, e porque é tudo tão igual, o jeito do agressor, as agressões, os “motivos”, a reação da vítima e aquilo que chamamos de ciclo de violência, que independente de classe social, escolaridade, cultura, raça ou credo. Infelizmente. E só a luta poderá fazer cessar, até que todas sejamos livres.

Sigamos!

Eufemismos, medo e morte

No dia 22 de novembro de 2013, uma jovem de 17 anos foi morta pelo (ex)namorado, no interior do Paraná. As câmeras do circuito interno de vigilância do supermercado onde a jovem Letícia trabalhava captaram parte da cena.

Assisti tal notícia num jornal sensacionalista, do tipo Cidade Alerta. Sábado modorrento, de passar a tarde em casa depois de almoçar fora. Namorado zapeando canais da televisão. E de repente, no meio do meu sábado, dentro da minha sala, aquela cena.

Uma jovem sendo arrastada por um agressor. Se agarra a um homem, na porta do supermercado, implorando por socorro. O homem que a arrasta mostra uma arma, e o pequeno grupo de pessoas se afasta, impotente, com medo. Ou talvez pensando: “em briga de marido e mulher…”.  Eles saem. Todos na porta, olhando.   Segundos depois, ela volta, correndo. Escorrega. Cai. E é atingida por mais um disparo.

Isso foi transmitido na tevê.

Ao final da matéria, eu chorava. De dor. Desespero. Agonia. Raiva.

Durante a matéria, entrevistas com colegas de trabalho e com a mãe da jovem.

O (ex) namorado, de 21 anos, não aceitava que a jovem trabalhasse. Ou estudasse. Exigia que ela largasse o emprego. Não foi a primeira violência, aquela sequência transmitida em rede nacional.

E os repórteres noticiam: “mais um crime passional”.

Duas semanas depois, o Ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, ao analisar a autorização ou não para a investigação da agressão relatada pela esposa de um parlamentar, que o acusou de agressão e narrou que ficou apanhando por 40 minutos, votou contra, usando seu conhecimento em MMA para desqualificar o depoimento da vítima.

Segundo o Ministro, “Não só por experiência pessoal, mas porque tenho um gosto específico por esporte, o ministro Marco Aurélio também sabe que nem num torneiro de Mixed Martial Arts (MMA) se permite que uma pessoa apanhe por 40 minutos. Porque uma surra de 40 minutos é conducente à morte”, explicou Fux, que pratica jiu-jítsu. “Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, completou adiante, observando que o exame do Instituto Médico-Legal (IML) encontrou apenas lesões na mulher, como hematomas nos braços e nas pernas.”

Estamos participando, aqui no Biscate, da campanha #16DiasDeAtivismo pelo #FimDaViolênciaContraMulher e enquanto eu pesquisava sobre esses dois casos, para poder explicar qual a ligação entre um e outro, encontrei uma “matéria” com uma declaração do tio da Letícia Monique, dizendo: “Nós esperamos que isso sirva de exemplo para outras jovens que estão em um relacionamento complicado como este. Infelizmente, é um exemplo ruim”, lamenta o tio.

“Exemplo para outrAs jovens”, diz o tio.

“Não conheço murro de mão fechada que não deixa marca”, diz o ministro Fux.

“Em briga de marido e mulher, ninguém mete a colher”, dizem tantos.

Lei “Maria da Vingança”, já ouvi homens dizendo.

Relacionamento “complicado”.

“Na hora, assim, da fúria, né? A pessoa não pensa… ai eu efetuei os disparos”, disse o assassino.

Uma jovem é morta, no interior do Paraná, por um homem de 21 anos. Crime passional – porque foi filmado, gravado, testemunhado, ele foi preso em flagrante e confessou.

Uma mulher é agredida por um deputado federal, durante um longo tempo. Podem ter sido 40 minutos. Para o ministro não houve crime, não houve sequer agressão. Segundo ele é impossível, inverossímil, a versão inicial da vítima — “a suposta vítima e a testemunha, empregada doméstica da família, teriam voltado atrás em seus depoimentos”, diz o jornal. Felizmente o STF entendeu, por 6 votos a 3, que existem indícios suficientes para a instauração de uma ação penal e atenderam ao pedido do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, para que a denúncia contra o deputado fosse recebida e o processo fosse aberto. Ele agora é réu.

Entre o tio da Letícia Monique e o nobre magistrado, doutor, ilustre e fã de MMA, nada em comum. E tudo em comum.

O pensamento é semelhante, o objetivo é semelhante: legitimar a ação do homem e agressor, e desqualificar as palavras da vítima.

Leticia já havia sido agredida antes. Na frente de amigos e familiares. Já havia sido arrastada pelos cabelos, na frente de casa, pelo Jean Albino. Na frente da mãe. O tio chama o relacionamento de “complicado”.

Letícia faz o que é chamada a fazer, para demonstrar que “não gosta de apanhar”: se separa do agressor. Termina o namoro.

Não sabe (ou talvez saiba) que aumentou em mais de 85% o risco de ser morta.

E morre.

Quando vamos ver a relação entre as declarações dos nossos jornalistas e dos nossos juízes (e nossas jornalistas e nossas juízas!) e as mortes de ao menos 10 Letícias por dia?

Quando vamos entender que Jean Albino não matou em um momento de fúria, sem pensar? Que ele pensou, e muito. Ele pensou, e muito, que Leticia era sua coisa, sua propriedade, sua posse. Que Leticia não tinha direitos sobre a própria vida, que não podia trabalhar, estudar, ter outros interesses na vida, salvo ele.

violencia contra mulher

Para a imprensa, um “namoro que terminou tragicamente”.

Para o tio, “um exemplo para outras jovens”.

E para os agressores, a declaração do Ministro: nunca vi murro de mão fechada não deixar marcas. E a suposta vítima tem apenas lesões.

Apenas. Lesões.

A mensagem que fica é: bata, mas não deixe marcas.

E se matar, foi apenas um momento de fúria. De um jovem desequilibrado. E não de um sistema, de uma situação, familiar e cotidiana, que afasta qualquer debate ou discussão ou conversa, e que coloca os autores de agressão física, verbal, psicológica, sexual, como monstros. Desequilibrados.

O jovem Jean Albino não demostrou arrependimento. Logo dizem: monstro. Ou então: apaixonado.

Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas.

Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.

Miosótis

Entrevista-depoimento com/da MIOSÓTIS*

Contra a violência as mulheres. São Paulo, 23/11/2013. foto: Antonio Miotto

Foto: Antonio Miotto

#fimdaviolenciacontramulher :

” Nome fictício:  (é uma flor.)

Situação: 19 anos, sem emprego, sem filhos, e sem relação com o agressor.

Relato da violência: Estava voltando para casa (4 km de caminhada a 4 anos) quando ao terminar de atravessar uma das ruas, um carro bateu em mim. O meu antebraço ficou encaixado no carro (meu corpo ficando em cima do capô) até ele parar, mais ou menos uns 100 metros do local da pancada. Depois, vários motoboys me ajudaram ligando pra minha família e depois ligaram para a SAMU. Estava muito mole e tentando recobrar a memória, mas ainda não estava sentindo dor alguma. Por alguma razão, que ainda tento entender, não quis processá-lo. Ele pedia muitas desculpas, mas continuava com um discurso de que eu também estava errada por estar a pé, por estar sozinha e estar andando à noite. Total imbecilidade. No hospital, apesar de terem tirado Raios-X do meu corpo, disseram que eu não havia quebrado nada. Uma semana depois voltei por sentir dor no antebraço, aí descobri que estava quebrado. Depois disso tudo fui a um hospital particular e engessei o braço e fiquei uns três meses achando que o osso iria calcificar, mas não havia jeito. Depois de quase cinco meses depois do acidente (até marcar e fazer todos os exames demora…), tive que fazer uma cirurgia de enxerto de células ósseas, do meu próprio quadril. Depois fiz um mês de fisioterapia e o braço parece bem melhor.

Situação do processo: Não o processei, mas ainda estou juntando as coisas para receber o dinheiro do seguro obrigatório do carro, que cobre acidentes, o DPVAT.

Opinião da vítima sobre o atendimento recebido: o posto de saúde falhou muito ao me mandar para casa com o antebraço quebrado sem eu saber. Isso agravou o estado do meu antebraço, pois se soubesse na hora, daria para colocar o antebraço no lugar e não perderia todo esse tempo com dor.

De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge?
Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”
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*Texto originalmente publicado em novembro de 2010
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