Menos régua individual e mais política

Nesses dias nosso ativismo feminista cibernético anda revirado de debates pouco profícuos. Uma onda de discussões sobre relacionamentos alheios e até lancheiras de merenda escolares tem sido alvo de ataques e problematizações pela rede afora. O que vejo é uma crítica muito mais às mulheres do que aos discursos. Levantar a bandeira de que o “pessoal é político” parece se arvorar do direito de adentrar às vidas alheias com a régua medidora de comportamentos, em nome, claro, da proteção às mulheres.

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Será que o “pessoal é político” transformou-se num passaporte para invadir a janela das casas e ir lá, com um padrão construído pelas próprias julgadoras, dizer que aquela individualidade, circunscrita a uma casa e contexto específicos, representa algo prejudicial a todo um coletivo de mulheres? Me pergunto: isso é ético?

“O pessoal é político” é uma frase muito inspiradora nas minhas militâncias feministas e lésbicas do dia-a-dia, nas quais questiono o cara que assobia quando eu passo na rua, me assumo lésbica onde eu estiver, fazendo da minha luta política também uma luta cotidiana. Mas será que ela me dá o direito de julgar outra mulher? E pior, expô-la? Classificando seu comportamento e julgando seu relacionamento quando essa pessoa, no seu trânsito cotidiano, está simplesmente vivendo? E está vivendo sem que seu comportamento fira ninguém, quiça ela mesma?

Em primeiro lugar, o pessoal é político sim, sempre será, mas expor uma mulher apenas para fazer inferências sobre sua vida pessoal é desconsiderar qualquer forma de respeito à sua individualidade. Às suas escolhas, inclusive. Mesmo mulheres que sofrem agressão muitas vezes não conseguem se expor, por isso prevemos uma série de proteções a essas mulheres, que devem ser acolhidas e preservadas. O pessoal ser político não significa que você pode decidir a vida da outra como se fosse a sua, muito menos presumir o que ela vive.

Pensar o político significa pensar o estrutural e não o pessoal, caso a caso. A vida sempre escapará às normas. Sempre haverá exceções, sempre haverá casos não previstos, sempre haverá pessoas e situações que nos farão interpretar tudo diferente.

Porém, estruturalmente como podemos ajudar e amparar mulheres que sofrem violência? Podemos repensar a Lei Maria da Penha e sua aplicabilidade. Como se caracteriza uma agressão? Como ampliamos a proteção e o acesso da mulher a justiça? Tem tanto para melhorar. Mas, conformem-se: tem mulher que não será e não quer ser salva pelo feminismo. Assim como há outra mulher que está bem feliz numa relação que você pode considerar abusiva apenas por ser com um homem mais velho.

Porque não adianta bater nos machos todos e querer traçar normas para os relacionamentos: homem mais velho abusa de menina mais nova. Mas né? Homem mais novo abusa de mulher mais velha? Sim. Homem de todas as idades pode abusar de mulher de todas as idades e de todas as formas? Sim, infelizmente. E há também mulheres abusadoras. A agressão sexual a crianças é algo que precisa ser pautado, bem como a dificuldade de se punir homens pela Lei Maria da Penha em casos de violência moral e patrimonial, tão difícil de ser comprovada. Também precisamos pensar em outras soluções para a questão da violência contra a mulher, que foquem em mais educação e menos punitivismo. Essa pauta feminista anda tão apagada.

O pessoal pode ser político, mas discutir o político não é discutir a vida alheia em sua intimidade quando a pessoa alvo da discussão claramente não quer ser pauta de ninguém.

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O peso da palavra “vadia” ainda mata mulheres

Por *Bia Cardoso, Biscate Convidada.

Esse clube se denomina biscate desde sempre com muito orgulho. Vadias, putas, vacas profanas, libertinas, piranhas e qualquer outra palavra com a qual queiram atacar nossas vivências ou liberdades serão mastigadas e cuspidas de volta com nossa boa falta de educação. Fazemos resistência justamente a quem acredita que a mulher tem um “papel” na sociedade. Porém, sabemos que isso não é fácil para todas as mulheres. Especialmente para as mais jovens, que numa idade em busca de aceitação sofrem muito com o machismo da sociedade.

Semana passada, a mídia noticiou o caso das listas “Top 10 Vadias” que estão circulando via redes sociais entre os alunos das escolas de São Paulo e tem provocado abandono dos estudos e até tentativas de suicídio entre as meninas.

Os alunos montam rankings classificando dez meninas como “vadias”. Os nomes circulam pelo WhatsApp, vídeos no Youtube, Facebook e até cartazes colados no interior das escolas. Cada colégio tem sua lista e alguns alunos as divulgam semanalmente. As escolhidas que ficam mais de uma semana no ranking vão subindo de colocação. Desde que a lista começou, há quase um ano, a rotina dessas meninas se transformou em uma espécie de prisão e condenação sem que nada tivessem feito.

Essas listas não são novidade. Já existem há muito tempo, mas antes eram restritas à turma da escola. Hoje, com as redes sociais e aplicativos de celular tudo é amplificado e ganha dimensões muito maiores. A violência não se restringe apenas ao ambiente escolar e o apoio é minimo, há muita cobrança de todos os lados. É o velho discurso da “mulher que não se dá o respeito”. Como se houvesse justificativa para a violência. É absurdo que as pessoas insistam em culpabilizar essas meninas ao invés de tentar compreender como nossa sociedade cria meninos que acham o abuso e o assédio algo corriqueiro.

Grafitaço apaga recados para vítimas do “TOP 10” de muros da periferia de São Paulo. Foto de Daia Oliver/R7.

Grafitaço apaga recados para vítimas do “TOP 10” de muros da periferia de São Paulo. Foto de Daia Oliver/R7.

Essas listas de classificação de meninas não são fatos isolados, assim como o estupro de uma menina de 12 anos por três colegas no banheiro de uma escola em São Paulo também não foi. A cultura violenta que atinge diretamente as mulheres também está presente entre os jovens e as escolas não estão fazendo muito para mudar isso.

Programas de educação sexual e igualdade de gênero são constantemente barrados por deputados e vereadores conservadores, que ainda acreditam que não falar de sexo com crianças e adolescentes vai fazer com que eles não pensem nisso. A falta de diálogo e informação com os jovens só tem contribuído para o aumento dos casos de violência.

Por que os meninos acham legal humilhar as meninas dessa maneira? Por que é divertido rir, expor e fazer escárnio da sexualidade de meninas? Provavelmente, não se importam com o fato de que várias delas estão vivendo um inferno em suas vidas. E isso acontece porque não veem as mulheres como eles, não as veem como pessoas. E quem desumaniza essas meninas e mulheres? A própria sociedade que apoia e incentiva que os meninos sejam predadores e as meninas passivas.

É preciso muita autoestima, apoio de pessoas próximas e orgulho para enfrentar a quantidade de violência a qual se é exposta no momento em que seu nome passa a circular nessas listas, a ser pichado em muros, a ser divulgado por gente que elas nem conhecem na internet. É algo que quebra por dentro, coloca essas meninas numa situação de vulnerabilidade e desespero enormes.

Grupos feministas organizaram um “Grafitaço” para apagar os xingamentos expostos em muros da periferia de São Paulo. Mesmo assim, vemos a apatia da sociedade em relação a essa violência absurda. Estamos preocupados em pensar e propor medidas eficazes para coibir esse tipo de ação? Vamos incluir a juventude no debate? Quais currículos educacionais brasileiros promovem um debate amplo sobre o assunto entre os alunos?

Infelizmente, parece que estamos bem distantes de mudar esse quadro. De mudar essa maneira podre e cruel com a qual as meninas e mulheres são tratadas em nossa sociedade. O peso da palavra “vadia” continua matando meninas e nós não podemos deixar isso acontecer.

Ajuda as vítimas do estupro coletivo no Piauí

A violência contra a mulher continua sendo um problema grave e urgente. Semana passada, três adolescentes foram vítimas de um estupro coletivo na cidade de Castelo do Piauí (PI). Nesse momento, o que as pessoas mais precisam é ajuda e apoio. Amigos e familiares das quatro meninas violentadas encabeçam uma campanha para arrecadar dinheiro para o tratamento das garotas que permanecem internadas nos hospitais. Intitulada “Flores para Elas, a iniciativa já está sendo divulgada nas redes sociais. A intenção é ajudá-las financeiramente e psicologicamente.

+ Sobre o assuntoListadas como vadias, punidas por serem mulheres. Por Jarid Arraes no blog Questão de Gênero.

foto_bia*Bia Cardoso é feminista e lambateira tropical.

Tempos amargos

Quando penso no nosso tempo presente, me recordo dos amargos versos de Cálice: tanta mentira, tanta força bruta. E dói, sabe? Presenciar o avanço desse conservadorismo, já tão reverberado e amplificado nas redes sociais, junto com a crescente onda de intolerância e da violência contra grupos minoritários, é coisa que faz dobrar até o mais otimista dos sonhadorxs.

E aí a gente cansa, quer jogar a toalha, dar um tempo.

Um beijo de duas mulheres idosas “choca” o país e faz com que toda uma trama promissora seja repensada. Uma travesti é brutalizada na cadeia (caso Verônica Bolina) e tratada como um animal em exposição pública. Uma mulher, Amanda Bueno, 29 anos, dançarina de funk, é morta de forma hedionda pelo companheiro e câmeras registraram tudo. Um menino de 10 anos, Eduardo de Jesus, é assassinado com uma bala na cabeça, disparada por um policial no Complexo do Alemão. Na política, os projetos mais conservadores e regressivos, como a lei da terceirização, que visa precarizar ainda mais as relações trabalhistas, corre grande risco de ser aprovado. A pavorosa redução da maioridade penal. A bancada política que atende aos interesses da bala, do agronegócio, do fundamentalismo religioso e da negação dos direitos humanos está mais do que articulada e infiltrando seus tentáculos em tempos de crise e caos.

E uma das coisas que mais me doem, do macro ao micro, é ver essa perversidade expressada no campo do cotidiano. Gente que nunca soube na vida o que é viver sem seus privilégios de classe, cor, sexo, gênero e etnia, e, na atualidade vêm placidamente a público defender os seus interesses. Sim, as marchas dos dias 15 de março e 12 de abril foram protestos burgueses marcados pelo discurso de ódio e pela manutenção (e aumento) dos privilégios de quem já os têm e parece nunca se dar conta disso. Não é de embrulhar o estômago?

E o conteúdo político dessas marchas, afff… Desperta em mim a síndrome de Regina Duarte: elas me dão medo. Porque são movidas por racismo, por beligerância, pela aniquilação do outro, pela anulação da diferença. Na minha humilde cosmovisão, elas demarcam mais do que uma oposição política; elas são sintoma de puro mau-caratismo de uma elite rançosa, decadente e tacanha.

E, pra piorar o estado de coisas, a sociedade brasileira não se assume como violenta. Mas ela é, até o tálamo. Um prato cheio pra gente aplicar a tese da banalidade do mal, da Hannah Arendt. E uma cultura como a nossa, que permite a naturalização da violência, o mal, esse que desconsidera o outro e implode com a prática da alteridade e da justiça, tem se instalado com tamanha força que o que sobra pra gente é o peso do pessimismo e a falta de esperanças em dias melhores.
Mas amanhã, vai ser outro dia…
Tomara, viu?

Da inconveniência de se fazer ouvir

Por Niara de Oliveira

Costumo dizer que nasci comunista, me tornei feminista e me formei jornalista. E o meu jornalismo está a serviço da minha sobrevivência — é preciso — e está a serviço principalmente da comunicação contra-hegemônica e da luta por um mundo melhor. Não tenho nenhuma ilusão de que esse mundo possa ser reformado, será necessário botar esse abaixo e refazê-lo estruturado em outras bases e parâmetros. Tenho em mim indignação suficiente para isso, principalmente para essa primeira tarefa. A construção de um mundo outro, novo, eu sonho seja coletiva, todos aprendendo juntos, com amor e respeito. Ah, as utopias…que me acompanham há muito tempo.

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eu, em 1995

Era primavera de 1995, se não me falha a memória. Eu ainda estava no PT, e tínhamos formado em Pelotas o Coletivo Socialista — que só não era um racha da Democracia Socialista porque essa tinha se desarticulado na cidade, mas todos (com uma ou duas exceções) já tínhamos ‘sido’ DS em algum momento. Esse coletivo, tendência municipal, era radical, excelente e daquele tempo guardo lembranças lindas da militância. Nossas reuniões eram como deveria ser toda reunião de um organismo de esquerda: aprovada a pauta, análise de conjuntura e os demais temas na segunda parte da reunião. Muitas dessas reuniões terminavam em jantares divertidíssimos — sim, troskos se divertem juntos. Mas, nem tudo estava bem. No coletivo, tinha apenas três mulheres que iam em todas as reuniões, pelo menos no início. Eu, Andrea e Sônia. Intervínhamos pouco, e feminismo e questões de gênero nunca eram pauta. E isso começou a me incomodar.

Um dia, conversei com a Andrea e nos articulamos para dizer isso pro CS, para expor que estávamos nos sentindo oprimidas pelo espaço, pela lógica da reunião e por nossa opressão específica nunca estar pautada. Porque espaços com mais homens que mulheres na esquerda inibem/reprimem “naturalmente” as mulheres de falarem, de se exporem. Quem já militou na esquerda sabe como é isso. Escrevemos um texto, fizemos cópia e distribuímos quando pedimos a palavra. Falei. Constrangida. Tremia. Eu, que já tinha feito comício, comandado assembleias de estudantes aos 16 anos, estava insegura de falar diante de pessoas que conhecia e com quem convivia há anos… Como é difícil falar da própria opressão diante do opressor, do ser que ali detém os privilégios e o protagonismo da cena! Foi difícil, mas disse. Dissemos. Abriu a rodada de intervenções sobre o tema e a primeira fala foi de um companheiro (hoje ex, felizmente) com quem militava desde os tempos de movimento secundarista, e que já tinha sido candidato a vereador e falado linda e encantadoramente das demandas das mulheres jovens. Ele pega o nosso texto impresso com um notável desprezo e diz em resumo que estávamos “carregando nas tintas” — nunca vou esquecer — e deu a entender que estávamos perdendo tempo com bobagens enquanto tinha uma luta maior e mais séria a ser enfrentada. Me senti violentada. E, mulher, descompensada e louca, desabei em lágrimas. E eu, que me sentia fraca, frágil quando chorava em público, passei a partir desse dia a respeitar mais minhas lágrimas.

Há uma naturalidade em desconsiderar a opinião e a fala de uma mulher. E os artifícios do discurso da esquerda para desestabilizar, desconstruir, desacreditar, desqualificar uma fala, principalmente quando é uma crítica, são sórdidos, mas eficazes. A gente mesma passa a duvidar do que está dizendo ou da importância de dizer aquilo naquele momento. “Será que era mesmo tão importante?”

Na madrugada de sábado revendo A Troca, um filme excelente do Clint Eastwood (qual não é?), me deparei e choquei de novo com a cena da personagem da Angelina Jolie com outra paciente no hospício em que falavam sobre a credibilidade da mulher ante um policial. Assistam:

Carol Dexter (Amy Ryan), 2:41:
“Todo mundo sabe que as mulheres são frágeis. Quero dizer, elas são instáveis emocionalmente, não são lógicas, (…). Sendo loucas, ninguém terá que nos ouvir. Quero dizer, em quem vão acreditar, numa mulher louca tentando destruir a integridade da corporação, ou num policial?” (tradução livre, minha)

Nesse final de semana, entre algumas conversas e essa cena do filme, me veio a dor daquela reunião do Coletivo Socialista lá de 1995, direto do túnel do tempo para o amargo na minha boca, só para me lembrar que nenhuma das bandeiras do feminismo foram superadas. Rosa Luxemburgo e Alexandra Kollontai teriam ainda mais trabalho com essa esquerda muÓderna de agora.

PRESTENÇÃO, PESSOAS! Quando uma mulher (ou outra minoria) falar de si num espaço político ela não está apenas falando, ela está rasgando o papel que lhe foi designado, está rompendo com suas amarras e com o status quo. Mais respeito, porque esse é um movimento político da maior importância: é um oprimido enfrentando sua opressão.

E da minha libertação me encarrego eu.

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Discurso

Por Adriana Torres*, Biscate Convidada 

Puta. Biscate. Vadia. Periguete. Vagabunda. As palavras variam um pouco, o sentido e direcionamento, nunca. Uma mulher não costuma ser julgada pelo seu posicionamento político, pela sua inteligência, pela sua habilidade empresarial. Ela é julgada pela sua vida sexual. Mesmo que nem a tenha. Mesmo que você nem saiba se ela tem alguma.

E quando queremos ofender um homem?

Viado. Bichinha. Ou filho da Puta. São os mais comuns.

Veja bem, o energúmeno fez um desfalque na empresa e o máximo que você consegue é tentar compará-lo a uma mulher ou a um homossexual, ou seja, um homem que, de alguma forma e em algum grau, se comporta como uma mulher.

A Renata Lins já postou sobre a importância de mudar os xingamentos. Eu falei recentemente em um seminário de oratória e a direção era a mesma do texto dela: discursos não são neutros, palavras não são neutras. Elas estruturam e são estruturadas pelo sistema de poder dominante. E não é preciso ser um gênio para entender que vivemos sob um sistema patriarcal, homofóbico, machista, racista, classista e capitalista, que hierarquiza pessoas por classe, gênero, orientação sexual, raça, idade e etnia.

“O discurso não é simplesmente o que traduz as lutas ou os sistemas de dominação, mas aquilo por que, aquilo pelo que se luta, o poder de que se procura se apoderar” (Michel Foucault)

Foi na internet que encontrei os exemplos para minha palestra, afinal, quem não conhece “o monstro dos comentários”? Ou as “piadas” das subcelebridades da rede?

Uma dessas figuras, um dia, soltou que estuprador de mulher feia merecia um abraço. Um amigo dele disse em outra ocasião que o cara que espera uma gostosa ficar bêbada pra transar com ela é um gênio. Um outro meliante escreveu um texto tão absurdo, que só colando um pedacinho pra acreditar:

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Nem vou entrar no mérito do que é ou não uma mulher bonita e gostosa, da comparação da mulher com um objeto como um carro ou um relógio. Me aterei aos fatos:

— Mais da metade das vítimas de estupro no Brasil são menores de 13 anos, de acordo com estudo divulgado pelo Instituto de Pesquisas Econômicas Aplicadas (Ipea). Elas representam 50,7% do total. Os adolescentes (14 a 17 anos), representam 19,4% das vítimas e os adultos (18 anos ou mais), 29,9%.

— Segundo a pesquisa, 88,5% das vítimas eram do sexo feminino, 51% de cor preta ou parda e 46% não possuíam o ensino fundamental completo (considerando as vítimas de escolaridade conhecida, o índice sobe para 67%).

— estimativas da Policia apontam que apenas duas entre cada 10 vítimas denuncia o abuso. Um dos motivos é a proximidade do agressor.

— A maioria esmagadora dos agressores é do sexo masculino, independentemente da faixa etária da vítima.

— No geral, 70 % dos estupros são cometidos por parentes, namorados ou amigos/conhecidos da vítima.

Então alguém explica para os subs da internet que estupro nada tem a ver com sexo e sim com PODER sobre o outro? Que a roupa que uma mulher/menina veste, seu comportamento sexual e/ou social não é motivo e não pode NUNCA ser utilizado como desculpa para uma agressão?

Essa culpabilização da vítima é um velho golpe político, daqueles mais manjados, mas que parece nunca cair em desuso. Pobres são acusados de serem pobres por que querem, porque não se esforçaram o bastante. Negrxs são acusados de preguiça, de má índole, desde a escravidão. Enquanto isso, o poder dominante se sente seguro para perpetuar o racismo, o machismo, a homofobia e os trágicos números que o Mapa da Violência traz sobre homicídios dessas minorias historicamente perseguidas.

Voltemos a palavra puta. A Luciana Nepomuceno já escreveu sobre o quanto é preocupante alguém achar que chamar uma mulher de puta seja algo ruim, pejorativo, ofensivo.

“Prostituta é uma mulher que ganha dinheiro oferecendo serviços sexuais. O que tem de pejorativo ou ofensivo nisso? As opções: a) Uma mulher fazer sexo? b) uma mulher ganhar dinheiro? c) uma mulher decidir sobre o corpo dela? d) ser mulher?”

A querida Gabriela Leite declarou, em 2007, que a violência contra as prostitutas vem crescendo no país, partindo principalmente de jovens de classe média e reforçada pelos órgãos de segurança, que tendem a ver a prostituição como crime. “A sociedade sempre dividiu as mulheres em duas categorias: a santa mãe de seus filhos e as prostitutas.”

E se uma prostituta se torna mãe? E se uma mulher da classe média resolve se autointitular prostituta, no auge da sua gravidez? Como a sociedade reage a isso?

Mês passado, soube que a foto de uma amiga querida durante a Marcha das Vadias 2013 estava sendo compartilhada por uma página antifeminista no facebook com um texto bem manipulador a respeito. Ela, que estava grávida de nove meses, tinha escrito na barriga “filha da puta”, desafiando assim esse paradigma que teima em se manter vivo em pleno século XXI.

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Faz parte. Poderia ter sido a minha foto grávida de 2012 na Marcha, poderia ter sido a minha foto com o filhote no ano passado ou neste ano, já que fui uma das organizadoras do protesto nos últimos três anos. Mas foi a dela e claro, quando ela marchou, assim como nós, já sabia que enfrentaria a boçalidade de muitos.

Mas realmente é chocante o nível dos comentários nas diversas páginas e fakes que começaram a compartilhar a mesma. E eu me pego pensando se realmente conseguiremos revolucionar esse sistema como gostaríamos, já que A MAIORIA dos piores comentários são de mulheres.

Discurso – prática – prática – discurso. A violência contra as mulheres está aí, sendo discutida pelas principais Instituições de Direitos Humanos do mundo, pois não é algo exclusivo do Brasil. E muito menos dos homens. É do sistema. E quem sou eu para julgar quem o reproduz ou mesmo quem acredita que está defendendo a fofa da filhota dela ao soltar comentários como esses?

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Falta de informação, excesso de ingenuidade, medo da mudança… os motivos podem ser vários, mas o principal é que a maioria não consegue enxergar o quanto estão envolvidos por essa ideologia assassina que é premissa do nosso sistema social.

E, após os comentários non sense (teve até gente perguntando como ela engravidou se odeia homem, num sinal claro que a criatura não faz ideia do que é o feminismo) vieram os comentários preocupantes, violentos, agressivos:

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Você pode achar que são só comentários. Assim como a turminha que tacha o “politicamente correto” de chatice e defende “as piadas” incorretas. Mas não é assim que acontece e a realidade está aí, pra dar tapa na cara de quem insiste em olhar para o outro lado.

Por mais que me horrorize os julgamentos femininos, bem mais do que os masculinos, já que estes mais não fazem que lutar para manter seus privilégios, eu fico é penalizada, pois sei que o vento sempre vira, como disse a Renata Lins em um post meu recente no facebook. Ver mulheres tripudiando de outras, julgando, por essas lutarem contra a violência que TODAS NÓS estamos sujeitas é algo bem perverso. Porque amanhã a vítima poderá ser qualquer uma delas. E nem assim elas acordarão para a realidade…

Vadias somos todas. Eu fui chamada de vadia quando fui estuprada. Quando recebi uma promoção no trabalho. Quando ganhei a láurea acadêmica. Quando namorei um homem 10 anos mais velho, quando namorei um homem 10 anos mais novo. Puta. Vadia. Piriguete. Biscate.
Mas a verdade é que não somos todas putas. Porque não sofremos o que esse grupo sofre diariamente com o preconceito que parece crescer assustadoramente em nossa sociedade conservadora, julgadora e hipócrita. E dói muito pensar que este pensamento é o mesmo de 2000 anos atrás, quando um baderneiro de cabelos compridos afirmou que só poderiam atirar pedras quem não tivesse pecado, pedras essas destinadas a uma mulher pela sua conduta sexual.

Vou encerrando esse texto lembrando das palavras do fofo do Bernardo Toro ao falar da ética do cuidado. Toro é uma daquelas pessoas que a gente conhece, senta pra tomar um café e tem vontade de nunca mais sair de perto. Integrante do Bogotá Como Vamos e da Red Latino-americana por cidades justas, democráticas e sustentáveis do qual eu tenho muito orgulho de fazer parte, ele traz nesse texto a seguinte afirmação:

“A linguagem é a chave para saber quem somos como indivíduos. Nós somos nossas conversas: quando mudamos nossa forma de ser, mudamos nossas conversas e quando mudamos a forma de conversar, mudamos a forma de ser. A linguagem nos constrói.”

E é por isso, por essa reconstrução da linguagem, da nossa forma de ser, que mais uma vez me chamarei de vadia, de puta, de periguete. Não importa realmente se minha conduta sexual condiz ou não com essas palavras. Eu quero ter o poder e a alegria de ressignificá-las. Para que, um dia, nenhuma mulher mais seja julgada, humilhada, assassinada por ser quem é: uma mulher.

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH - 2012

Foto: Tulio Vianna/Marcha das Vadias BH – 2012

10563415_830410183636522_314014677_nAdriana Torres é uma mineira generosa que trabalha com marketing no terceiro setor e curte trabalho voluntário, é mãe do Leon, gosta de cachorros e gatos, casa cheia de amigos mas também de sossego e de redes sociais. Você pode lê-la em seu blog ou acompanhá-la pelo Twitter @Adriana_Torres.

O Estado contra Beth

Por Niara de Oliveira

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Beth, numa das tantas caminhadas de protesto pelo desaparecimento de Amarildo em frente à UPP da Rocinha, onde o marido fora torturado e assassinado

 

Na última segunda-feira 14 de julho fez um ano do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza. Faz um ano que PMs da Unidade de Polícia Pacificadora da Rocinha o detiveram e o levaram até as dependências da UPP, o torturaram, mataram e desapareceram com seu corpo. Não fosse a denúncia da família e o dedo deles apontado para o Estado como o responsável por seu sumiço, jamais saberíamos o que aconteceu com Amarildo e ele teria virado estatística.

Vinte e cinco PMs respondem criminalmente pela tortura seguida de morte de Amarildo. Desses, treze estão presos, entre eles o ex-comandante da UPP da Rocinha, major Edson Santos. E como diz o jornalista Mário Magalhães, que acompanha o caso de Amarildo:

“Nenhuma iniciativa do Estado favorável aos parentes de Amarildo, por decisão própria ou determinação da Justiça, anula a obrigação legal e moral de entrega do cadáver de quem foi morto por agentes públicos.
É direito de sua família enterrá-lo.
E é dever do Estado, cujos funcionários mataram e sumiram com Amarildo, assegurar esse direito.”

Amarildo é um desaparecido da democracia. E assim como os desaparecidos da ditadura, a família sabe o que ocorreu, que ele foi torturado e assassinado por PMs, mas sem o rito fúnebre, sem a despedida, é quase impossível encerrar o luto. E a dor se estende ao infinito e vai além.

Escreveu Marcelo Rubens Paiva, no dia em que o desaparecimento de seu pai completou 40 anos:

“É mais um na lista dos desaparecidos políticos.
Dia 20 de janeiro é o dia em que a família decretou a data de sua morte.
Não temos um jazigo, mas temos uma data artificial.
A morte requer rituais.
E a força da família se mobilizou para a Anistia, o fim da ditadura e muitas outras lutas.
Há 40 anos, este caso não se encerra.
Pois se o Estado não quer, assim será.
Sob as incongruências da Lei da Anistia, o Brasil nos pede para virar a página e esquecer.
Não, não dá para esquecer.”

Nessa lógica absurda na qual os crimes cometidos pelos agentes do Estado contra pobres e negrxs na democracia e contra oponentes na ditadura são menores, são “acidentes de percurso” e obviamente ficam impunes, quem luta contra essa ordem natural das coisas — deixar os crimes do Estado esquecidos, intocados e impunes — está em risco e se coloca na mira do Estado. É nesse lugar em que se encontra Beth. Sabermos o que aconteceu com Amarildo teria um preço. E não somos nós que o pagamos/pagaremos. Se muitos dos PMs que respondem judicialmente pelo crime estão presos é porque a justiça entendeu que eles oferecem risco à sociedade, à família de Amarildo e podem coagir e/ou intimidar testemunhas.

Nesse um ano a imprensa já noticiou duas prisões de um dos filhos de Amarildo, Emerson. Sua “sorte” é que em uma delas a discussão dele com PMs foi filmada e enviada para o WhatsApp do Jornal Extra. Nas duas ocorrências (se é que podemos chamar assim) o “novo crime” de desobediência e a tentativa de envolvê-lo com tráfico de drogas. Essa tem sido a “estratégia” da polícia desde o início do caso Amarildo, envolver a vítima e sua família com o tráfico, inclusive essa era a alegação da farsa montada pelo delegado “adjunto” do caso — e que foi desmentido e desautorizado pelo delegado titular — para tentar isentar os PMs e o Estado do crime.

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Elizabeth Gomes da Silva

Na semana passada foi denunciado o desaparecimento de Elizabeth Gomes da Silva, a viúva de Amarildo, incansável nas denúncias contra a PM e UPP até vir a tona o que aconteceu com seu marido. Beth, segundo familiares, andaria muito deprimida, lembrando muito de Amarildo e teria voltado a beber e a usar drogas.

Fiquei assombrada com a notícia. Fui tomada por um misto de agonia a pavor diante do horror da situação. Felizmente Beth estava bem e a salvo, em Cabo Frio. Tinha saído de casa há dez dias sem informar o destino e assim permaneceu. Mas… Algo não desceu nessa história. E foram os relatos da imprensa sobre o caso. Foi/é a forma como a imprensa se refere a ela (já tinha denunciado o mesmo no caso da Cláudia da Silva Ferreira, a “mulher arrastada”). Elizabeth para as manchetes da imprensa não tem nome, é “a mulher de Amarildo” (nem quando a matéria é “favorável” a tratam pelo nome no título) e todos fizeram questão de destacar o “deprimida”, “voltou a beber”, “voltou a usar drogas”. Um jornal (apenas um), mas um dos primeiros a noticiar o paradeiro de Beth, chegou a dizer que ela estava com um namorado em Cabo Frio — informação não confirmada, e que NÃO INTERESSA A NINGUÉM. Parece que ter ficado viúva e ter filhos menores para criar a impedem de ter algum prazer na vida. Ela só pode sofrer, afinal foi esse o papel dado a ela pelo Estado através de agentes públicos criminosos. E se foi esse o papel designado a ela, ‘ela que se resigne’, não é?!

A fonte de todos os veículos (G1, Jornal do Brasil, Folha de São Paulo, etc.) foi a mesma, a sobrinha de Beth que procurou as entidades de defesa dos Direitos Humanos que apoiaram a família durante os últimos doze meses, Michele, e o advogado da família, João Tancredo. Não é preciso ser gênix para perceber que o foco é assassinar a reputação de Beth, é desacreditá-la como testemunha para o julgamento. E eu duvido, DU-VI-DO, que a defesa dos PMs não use essas notícias para neutralizar a voz de Beth em favor dos réus.

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como "a mulher de Amarildo"

montagem com várias manchetes sobre Beth, todos a tratam como “a mulher/viúva de Amarildo”

Está achando pouco? TEM MAIS. Anteontem (15/7), o delegado Gabriel Ferrando, titular da 11ª DP (Rocinha) anunciou que vai indiciar Beth pelo crime de abandono material dos filhos.

“– Ela era a única provedora do lar, e foi embora levando inclusive os cartões do Bolsa Família e da pensão que a família ganha do governo do estado. Quero saber como esses jovens se mantiveram. Ainda vamos ouvir algumas pessoas, mas tudo indica que ela será indiciada – afirmou Ferrando.”

Sordidez define.

Por mais que a imprensa consiga manipular a opinião pública e seja mestra na arte de assassinar reputação e com isso descredibilizar uma pessoa, não é difícil perceber a discrepância desse embate. De um lado a Beth, uma mulher negra, diarista, que sofre há um ano com o luto inacabado do marido (e que deverá se estender por toda a vida, tal e qual aconteceu com os familiares dos mortos e desaparecidos da ditadura) lutando por justiça; do outro o Estado, o ente que deveria proteger e zelar pela vida de todos os cidadãos sendo usado por bandidos a serviço e em nome da lei para proteger outros bandidos.

Não sei como nomear um Estado que ataca seus cidadãos mais desfavorecidos dessa forma vil e covarde. Só sei que democracia não é.

Quem ama não bate

Sílvio Santos é um mito da tevê. Sílvio Santos despreza as regras da tevê quase sempre, faz e desfaz das grades de programação a seu bel-prazer e acerta e erra de forma mítica. Dá entrevistas onde se mostra um empresário cheio de ética, sua ética particular, e já foi candidato a presidente mas a gente deve sempre se lembrar que esse cara querido e simpaticão, no auge da ditadura, tinha o minuto do presidente na sua emissora para elogiar o militar presidente da vez e que, agora, em 2014, não foi capaz de dizer a Rachel Sheherazade que não promover censura é diferente de salvo-conduto para emitir opiniões ofensivas aos direitos humanos e dizer bobagens.

O SBT é seu reflexo, acerto e erros igualmente catastróficos, nada é embalado em busca da ética, embora possa parecer ser, somente na busca da audiência e nisso muitas vezes a responsabilidade social ou mesmo a jurídica se vão pela janela. O acerto nesses campos SBT sempre me parece aleatório ou a busca  obstinada de uma ou outra pessoa, não exatamente do ‘Seo Sílvio’.

E aí tivemos mais um “Casos de Família” com a Cristina Rocha e esse teve como tema “mulher que não gosta de apanhar, tem que se comportar”, e espancadores de mulheres tiveram seu palco para defender seu machismo sob aplausos talvez de boa parte da “família brasileira”, embora  a chamada do programa invoque a Lei Maria da Penha em defesa das mulheres.

Captura de tela de 2014-06-19 03:40:53

Isso me lembra o Jairo de “Em Família” que sempre solta pérolas machistas, é grosso  e mal-educado com a Juliana e ela suporta tudo por amor (personagens do Maneco sempre suportam tudo por amor). No entanto acho que Jairo é um personagem com um forte recorte de classe por parte do autor da novela com fortes traços de preconceito social demonstrado nessa oposição vida na comunidade X vida no Leblon (sendo o segundo sempre melhor e o outro mostrado de forma estereotipada e pior).

O traço em comum entre o personagem os personagens da novela e os participantes do programa como a vida real no SBT é que fica clara a cultura onde a  mulher deve sempre buscar ser feliz num relacionamento e que isso é tarefa dela, mesmo apanhando, a culpa é dela e ela deve ou obedecer ou evitar o conflito. E é isso que a que gente deve começar a desmitificar. Ser feliz não significa estar num relacionamento a qualquer custo e não é unicamente da mulher o ônus de um relacionamento feliz. E mais que tudo, violência física e verbal não é demonstração de afeto, é inaceitável e ponto.

ps: você quer ver o programa do SBT? clique aqui (o programa foi forte em transfobia também).

ps2: cenas do Jairo e Juliana em Em Família aqui.

Violências

Nessas ultimas semanas, alguns acontecimentos me fizeram testar minha militância. Ser feminista não é apenas defender amigas que desejam ser defendidas da violência machista. Assim é muito fácil,  ser feminista é defender até quem comete bullying, nos magoa no dia a dia. Tive que auxiliar uma colega de trabalho que sofreu violência machista esse mês,  o curioso foi notar que, apesar de todas as grosserias e de como ela e suas amigas sempre me trataram, eu fui madura para deixar tudo isso pra lá e ajudá-la.

Também foi nesses dias que assisti uma pessoa especial receber grosserias por defender uma familiar de sofrer violência e se envolver com um homem machista e mau caráter. Como lidar com essa situação?  Mulheres que defendem seus agressores,  como mostrar o erro e a dependência dessa relação?  É justo deixar uma mulher sofrer violência por escolha própria?  Isso é livre arbítrio ou é ser conivente com o machismo?

Conseguir defender uma pessoa por quem não tenho carinho nenhum reafirmou minha luta por direitos. Mas, assistir alguem próximo a mim tentar levar um ente querido a cair na real sobre o que sofre e não conseguir, me fez me sentir tão confusa. Forçar, proibir, são essas as atitudes que é preciso tomar. Ou deixo “quebrar a cara sozinha”? Não sou conivente e ruim se fizer? Até que ponto posso intervir? Quantas mulheres, conhecidas e familiares, vejo sofrendo violência caladas. Eu assisto tudo isso e sou tão machista quanto quem fala “em briga de marido e mulher…”? Elas se calam porque elas acham que merecem, ou porque o amam demais, mas eu não deveria me calar. Algumas entram em defesa de seus carrascos, o que só faz reafirmar o poder que eles têm sobre elas, aumentando a violência,  em muitos casos.

Não consigo me sentir bem quando estou de pés e mãos atadas. Se não há como provar a violência machista como eu reajo ao que assisto e que me contam? Queria falar “estou te forçando a largar esse homem que apenas te faz mal”. Ou “seu marido não tem direito de te prender aqui, mas eu tenho o direito de te tirar daqui a força! ”

E é mais um dia de preocupação com essa mulher que recusou ajuda e ainda maltratou quem estendeu a mão. É também mais um dia em que afirmo a certeza de amigas e familiares que vivem um romance com um “príncipe” que apenas tem medo de perdê-la. É também mais um dia em que vejo uma mulher que enfrentou a violência que sofreu e seguiu adiante, me agradeceu pela ajuda. Sonho com o dia em que todas as mulheres se revoltem contra homens que tentam ter relações abusivas e machistas com elas. Qualquer relação,  desde pai e filha, mãe e filho até namorada e namorado,  ou qualquer outra relação que for.

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sempre fui assim, meio soltinha, sempre gostei de ser amiga de homens, sempre gostei de andar de roupas confortáveis e sempre gostei de sexo. Mas, uma coisa que posso dizer, nunca fui capaz de fazer mal a ninguém, fazer qualquer tipo de violência com ninguém, sempre me chamaram de trouxa pois não sabia tratar ninguém mal, mesmo que me tratassem mal.

Mas o que você quer dizer com isso? Bem, o que desejo dizer é que usar roupas curtas, ser livre não é desvio de caráter, não me faz uma pessoa ruim, então porque eu ou qualquer mulher que usa uma roupa curta mereceria ser estuprada? Na verdade, minha pergunta é mais séria ainda: O que faz com que qualquer ( boa ou ruim, independente do caráter! ) mulher mereça sofrer uma violência dessas? Queria entender O porquê de uma mulher que decide ficar confortável, não morrer de calor ou, até mesmo, se sentir sexy e bonita (ela tem o direito sim de usar qualquer roupa por qualquer motivo!) faz com que ela mereça passar por qualquer violência,?  Além disso, que tipo de castigo é esse? Desde quando violência é uma forma de punir alguém? Para mim é machismo sim essa visão.

Não sei ver diferença entre uma mulher e outra por sua vestimenta ou atitudes, não vejo diferença entre nenhuma pessoa por nenhum motivo assim. Sei que rotular pessoas é um costume muito comum no nosso dia a dia, mesmo sem querer, precisamos nos policiar todos os dias para não o fazer e não acho justo apontarmos pessoas ou colocarmos em caixinhas, mulheres que merecem violência e mulheres que não merecem. É muito parecido com a tão irritante história da “mulher de malandro”, não existe quem goste de sofrer violência doméstica, existem pessoas que dependem financeira ou psicologicamente de alguém ou que estão num relacionamento por medo de como serão vistas se pedirem divórcio. É muito difícil rotular uma pessoa por suas atitudes.

Me sinto todos os dias, acuada ao sair na rua, a noite ou não, de roupas curtas, quando bebo ou quando respondo um homem que me canta. Mas, se eu não tomar uma postura, quem sou eu? Preciso lutar contra o preconceito. Viver em cárcere, sendo que sou eu a vítima, é afirmar que a sociedade deve continuar como está! É colocando a boca no mundo que faço minha parte: é saindo para beber, é rindo alto e escancarado e é também brigando de forma justa pelos meus direitos e de outras mulheres.

Não Mereço Ser Estuprada

Não Mereço Ser Estuprada

Eu sou as minhas lutas, eu sou quem mostro no dia a dia, eu sou mulher e indivíduo com vontades e voz. Não posso me calar, já existem muitas outras mulheres caladas por aí, sofrendo escondidas. Tomamos a iniciativa para puxar outras a fazer o mesmo. A reação é em cadeia, sempre!

Sociedade de Exceção: Violência e Minorias

A idéia de excepcionalidade. A Exceção. Não no Estado, que é uma categoria jurídico-política específica, mas na sociedade. Ser uma excepcionalidade na sociedade, ser tratado como diferente, querer ser diferente, lutar pelo direito à diferença. Questões que se colocam e que perturbam justo quando ser essa diferença resulta em violência, marginalização, morte!

The Barn - Paula Rego, 1994. A normalidade e a Agressão

The Barn – Paula Rego, 1994.
A normalidade e a Agressão

Não é à toa que assistimos atônitos na última semana, o caso do jovem Kaíque (leia aqui), negro, homossexual, pobre, encontrado morto, com sinais de morte brutal e completa desfiguração. Ser diferente, em nossa sociedade resulta em ser exceção. Não apenas no sentido de ser excepcional, mas e principalmente no sentido de ser excluído e, por fim, eliminado.

A idéia de uma sociedade de exceção é justo essa que impede, mesmo que para isso seja necessário o extermínio, o diferente. Arraigada em preconceitos patriarcais, conservadores defensores de uma “normalidade” ou, no caso, uma heteronormalidade e heteronormatividade, essa sociedade nos apresenta quase que uma pulsão de morte, ou seja, para se integrar a ela, temos que excluir toda a individualidade e subjetividade do nosso ser, nos excluindo como pessoa. Participar de uma sociedade de exceção é minar a própria existência em prol de algo que sequer sabemos se valerá a pena!

É essa sociedade de exceção, também, que é capaz de classificar uma morte brutal como a do joven Kaique, que teve TODOS os dentes perdidos, traumatismo craniano e cerebral e fraturas expostas nas pernas como SUICÍDIO. E que não se alegue incompetência! A principal característica desse tipo de sociedade é a ocultação dos crimes de ódio, para que não se exponha a violência que sustenta sua normalidade.

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by Laerte
“A Exceção: Anormais e Normalidade”

Essa sociedade, de uma forma perversa e deliberada, atua no combate ao diferente atuando, para além do seu extermínio, na sua ocultação. Essa decisão, para além de uma ação criminosa, é uma decisão política, certa e convalidada pelos membros dessa sociedade, que preferem, em seu estado de alienação ruminante, concordar com o dado produzido institucionalmente pela polícia de estado (ver sentido amplo de polícia como instâncias de controle da vida) a questionar quaisquer informações produzidas sobre o assunto.

E não sejamos ingênuos, uma sociedade de exceção não é formada por indivíduos pobres e analfabetos. A violência desta sociedade se encontra no fato de que seus membros têm a completa capacidade de entender a situação, porém, por alguma conveniência nefasta, escolhem acolher esse extermínio nem sempre velado em roca de seus privilégios. O Kaique, a juventude pobre e negra, homossexual ou não, os transexuais, as mulheres “não patriarcais”, os mentalmente incapacitados, os “diferentes” são todos vítimas dessa violência e essa violência é fruto dessa aparente normalidade instaurada e não combatida. Por enquanto.

O caso da menina Ana Clara: crônica de uma morte anunciada ou Deus e o diabo em São Luís do Maranhão

Texto escrito por Danielle Castro, professora de Língua Portuguesa da rede pública estadual do Maranhão: 

Anunciada sim porque todos os dias vemos o desamparo da nossa população gerado pelo caos de um (des)governo – na verdade, de um modo de governar, porque não se restringe a uma família apenas, se bem pensarmos. E não vejo luz no fim do túnel. Há bandeiras que se dizem distintas, mas já se aliam ao mesmo tipo de canalha político, basta observar. O que é mais triste é pensar em quantas Anas ainda serão. Não é um problema de votação, apenas. É um problema de um modo de pensar (ou não pensar?) que o maranhense em geral perpetua. Saiba você, que se indigna com a maldade dos presidiários de Pedrinhas, mas que não se indigna com as benesses da corrupção deslavada dos que estão no poder (ou almejam) que você deveria também chorar sua culpa.

“Rosengana” Sarney pode agora querer desviar o foco para a Justiça, dizendo que é por conta dela que as coisas estão como estão. Mas cabe lembrar: quem indicou desembargadores? Sarney é um sobrenome conhecido na seara do tribunal local, são tantos Sarneys e adjuntos, são tantas lástimas travestidas com bandeiras diferentes que a única coisa que posso fazer é ter a fé de que nosso povo comece a se sensibilizar e tirar a cegueira dos olhos. De outro modo, tudo será um “mais do mesmo”. Tanto faz se o partido é vermelho, azul, verde, amarelo ou furta-cor.

Ampla divulgação nacional. Uma menina foi morta carbonizada. Fiquei me perguntando: quem é Ana? Ana Clara saiu na companhia da mãe Juliane, de 22 anos, e da sua irmã, ainda de colo, para passear. O ônibus foi invadido e incendiado por homens armados na Vila Sarney Filho. A Vila Sarney Filho fica na periferia de São Luís do MA, na zona rural, onde também fica o Complexo Penitenciário de Pedrinhas. É um bairro dos arredores. No Terminal de Integração do Distrito Industrial (que fica na zona rural), podem-se pegar alguns ônibus que vão para o Complexo de Pedrinhas, passando pela BR, em frente à Vila Sarney.

Já visitei a penitenciária. Foi no cumprimento de uma atividade curricular de uma disciplina chamada Criminologia, no curso de Direito. Peguei um ônibus nesse terminal. O que mais me chamou atenção, de pronto: a fila de mulheres de presos, irmãs, filhas, a irem visitar seus homens queridos. Na frente do presídio, avisos sobre quem pode ter acesso às visitas íntimas. Dentro do presídio, o vexatório momento da revista, necessário para a liberação da entrada no local. São as mesmas mulheres “dadas” em barganha de estupro quando da explosão da revolta no presídio, uma facção contra a outra.

É até possível que, um dia desses, Ana Clara e Juliane, indo para casa, tenham pegado o mesmo ônibus que uma Maria, irmã de preso. Porque por mais que não se queira enxergar, os presos têm família. Eles mesmos são seres humanos. Há muitas Anas filhas de presos no bairro de Pedrinhas. Feitas do coito institucionalizado, num espaço do presídio pintado de cal sugerindo que ali há amor. É como ainda me lembro, da minha visita. E lembro também de ter pensado em várias situações como: e se a mulher que tem relação com o preso não tiver em união estável ou casada (condições para a visita)? E se for transexual, teria o mesmo direito? Não, não teria. Porque ali são bichos é que sobre Ana se ateou fogo, como se ela própria não fosse uma menina linda, sorridente, como se fosse ela, também, bicho. E na frente do governo, uma mulher também.

Há bairros criados na zona rural constituídos, na maioria, pelas famílias dos presos. Vendem os seus poucos, mas preciosos, bens no interior onde nasceram e se criaram para acompanhar seus homens. Para viver numa cidade como forasteiras, parentes de pessoas consideradas bichos, de homens para os quais, no julgamento da sociedade em geral, serem decapitados ainda é muito pouco. Mas nasceram da sua barriga. Com eles têm filhas e filhos, Anas, Marias, Pedros. Eles todos brincam no mesmo quintal, comem da comida vendida na mesma quitanda de bairro. E é ainda incrível, surreal, que as pessoas não enxerguem que a dor da mãe de Ana é a dor da mãe de Elson, borracheiro de 43 anos, preso por receptar 4 pneus furtados, decapitado para servir de exemplo na rebelião. Em tempo: somente no ano passado, 60 presos foram mortos das formas mais brutais possíveis. Este ano que ainda está nos seus primeiros dias, já se contabiliza um saldo de dois mortos. Nesse ritmo, eliminaremos em breve toda a população carcerária via o assassinato sistemático.

É o retrato de um Maranhão cronicamente inviável. Tragédia social dolorosa, sobretudo, para a população desassistida e abandonada à própria sorte. Que reage vomitando violência através da periferia que se canibaliza a si mesma, como resposta às décadas de miséria orquestrada pela política corrupta do grupo Sarney e seus correligionários. Estamos vivendo em um caos autofágico, numa guerra de trincheiras e desrazão, que começa e termina vitimando o lado mais vulnerável desse jogo trágico e bandido: a população (pobre) do Estado a agonizar feridas, decapitações, estupros e corpos carbonizados de homens, mulheres e crianças inocentes.

#16DiasDeAtivismo … Acabou! Acabou?

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Somos biscas de palavra e de luta, e de palavras que sugerem, descrevem e inspiram lutas e de lutas que inspiram outras lutas. E, portanto, apesar da mobilização dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres acabar oficialmente em 10 de dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, preferimos cumprir 16 dias de fato de ativismo com textos que descrevessem, lembrassem e inspirassem essa luta. Os nossos 16 dias de ativismo acabam hoje. Não, pera… Explicando melhor. O ativismo assim, concentrado, acaba hoje. A luta pelo fim da violência contra a mulher só acaba quando a violência acabar.

E o que percebemos, amigues, em todos os posts dessa mobilização, seja nas palavras ou nas imagens, é que essa luta está muito longe de acabar. Então, façamos um passeio rápido por cada post-descrição-inspiração.

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero: “Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero.”

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher. “no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.”

O que é que vão pensar? “A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos.”

Lutar contra a violência dói. “Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.”

A Aids e as mulheres. “Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.”

A violência contra a mulher e os homens de bem“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher. “Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.”

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém* “O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.”

Sobre violência de gênero, medo e barbárie “Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.”

Somos, Todas, Maria! “Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.”

Miosótis. “De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge? Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”

Eufemismos, medo e morte. “Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas. Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.”

Até no trabalho. “Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.”

De quantas histórias é feita a nossa história? “De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?”

Amanhã mesmo o assunto aqui poderá ser de novo violência. Porque de novo, de novo e de novo ela se repete no nosso cotidiano e nos atinge em cheio, sufoca a poesia, embaça o horizonte enquanto não falamos, berramos e tentamos dar nome e identidade às vítimas para que não se tornem apenas números nas estatísticas. Tentamos também identificar o cerne da questão, o que está por trás de cada violência, de cada agressão, e porque é tudo tão igual, o jeito do agressor, as agressões, os “motivos”, a reação da vítima e aquilo que chamamos de ciclo de violência, que independente de classe social, escolaridade, cultura, raça ou credo. Infelizmente. E só a luta poderá fazer cessar, até que todas sejamos livres.

Sigamos!

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