#16DiasDeAtivismo … Acabou! Acabou?

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Somos biscas de palavra e de luta, e de palavras que sugerem, descrevem e inspiram lutas e de lutas que inspiram outras lutas. E, portanto, apesar da mobilização dos 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres acabar oficialmente em 10 de dezembro, Dia Mundial dos Direitos Humanos, preferimos cumprir 16 dias de fato de ativismo com textos que descrevessem, lembrassem e inspirassem essa luta. Os nossos 16 dias de ativismo acabam hoje. Não, pera… Explicando melhor. O ativismo assim, concentrado, acaba hoje. A luta pelo fim da violência contra a mulher só acaba quando a violência acabar.

E o que percebemos, amigues, em todos os posts dessa mobilização, seja nas palavras ou nas imagens, é que essa luta está muito longe de acabar. Então, façamos um passeio rápido por cada post-descrição-inspiração.

Estamos entrando nos 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência de Gênero: “Disponha-se a mudar essa situação. O primeiro passo é nunca culpar a mulher pela violência sofrida, NUNCA. Depois, vai lendo aí e vamos aprendendo juntxs formas de coibir e prevenir a violência de gênero.”

Aborto ilegal é uma violência contra a mulher. “no Brasil, o aborto não legalizado leva as mulheres às mais diversas circunstâncias catastróficas para conseguirem dispor sobre o seu corpo. Até a sua morte. Óbvio, e violento. Uma violência contra a mulher estampada nas nossas paredes e muros, nos jornais, nas janelas das casas, nos corredores das secretarias de saúde e hospitais. Triste obviedade da nossa realidade de saúde.”

O que é que vão pensar? “A violência contra a mulher não é só aquele murro no olho ou o tiro na rua. A violência contra a mulher é a construção de uma sociedade em que o murro no olho ou o tiro na rua estão implícitos. É a construção de um discurso socialmente válido em que o murro no olho e o tiro na rua são potencialmente justificáveis. Onde se pergunta, primeiro: o que será que ela fez? A violência contra a mulher é a legitimação de um lugar secundário para a mulher na sociedade. É a cristalização de uma situação em que a mulher tende a decidir baseada não no que ela pensa, mas no que os outros potencialmente pensarão – e pensarão o pior, sabemos.”

Lutar contra a violência dói. “Faz tempo que penso que esse buraco é mais embaixo, e que talvez a única forma de prevenir a violência contra as mulheres seja pensarmos em educação antimachista. Ou continuaremos assistindo a secular manutenção da honra e caráter da mulher em sua sexualidade ser reforçada.”

A Aids e as mulheres. “Dia 1º de dezembro é o Dia Mundial de Combate a Aids. A violência contra as mulheres segue caminhos distintos. O aborto ilegal, a violência psicológica, a violência simbólica são alguns deles. A feminização da Aids também é uma violência contra as mulheres. Os Estados que não se comprometem com sua prevenção, as Igrejas que orientam seus fieis a não usarem preservativo, os companheiros que se negam a usar a camisinha no sexo, e você que discrimina as pessoas que vivem com HIV estão unidos nessa violência.”

A violência contra a mulher e os homens de bem“Quando a gente olha pra esses quarenta por cento, incomoda. Tem que incomodar. Porque há algo muito errado num mundo em que tantas mulheres são mortas por aqueles que são sua família, seus companheiros. Não dá pra botar na conta das doenças mentais: ninguém vai me convencer que esses 40% são doentes, são psicopatas. Não. Uma parcela certamente haverá, mas a maioria, possivelmente, é gente como a gente. Que trabalha e ama e dorme e “paga os impostos”. Gente que, até aquele momento, era considerada “gente de bem”. Gente de bem mata mulheres. Muitas. Hoje. Aqui. A gente vive numa sociedade que permite que “gente de bem” mate mulheres. Mais: que constrói caminhos para isso.”

Histórias de horror: pergunte a uma mulher. “Sendo assim, não acho verdadeira a ideia de que nós mulheres  temos o nosso direito de ir e vir, e de ocupar os espaços públicos garantido. Estamos submersas ainda em uma cultura de estupro, que culpabiliza a vítima pela violência sofrida. E nossa sociedade e nossas autoridades estão muito despreparadas para dar assistência à estas mulheres e para coibir este tipo de crime.”

Como você contribui para o estupro de mulheres, ou quando a culpa é coletiva, ela não é de ninguém* “O que falta a nossa sociedade é entender que a liberalidade sexual é parte da liberdade de qualquer um. E que a liberdade de qualquer um está limitada e limita a liberdade de todos os demais. O que parecemos não entender e, se entendemos, não somos capazes de discutir seriamente nas mesas de bar e em qualquer outro contexto, é que a liberalidade sexual de qualquer pessoa não nos dá o direito de querer que elas façam conosco o que elas não querem. O que quero dizer com isso é que, “promíscua”, “indecentemente vestida”, ou “escandalosa”, a liberalidade da pessoa só vai resultar em sexo para a outra se ambas estiverem de acordo e NÃO HÁ qualquer outra situação que justifique isso.”

Sobre violência de gênero, medo e barbárie “Eu fui vitima dessa cultura violenta desde que praticamente me entendo por gente. Recentemente soube que um rapaz com quem tive um breve affair de poucas semanas, agrediu a atual namorada com um soco que a fez cair no chão, praticamente desacordada. Tive muito medo, muito mesmo. Porque esse soco poderia ter sido em mim. E, de certa forma, ele foi. Porque doeu saber que por mais que a gente fale, grite, se revolte, estamos todas suscetíveis à violência de gênero. Por isso, espero que a minha vizinhança de outrora, tenha mudado. Mas eu não sei. Só sei que até onde as historias de horror forem a regra e não a exceção, continuaremos a falar de violência contra a mulher com um nó indigesto e estranhamente familiar na garganta.”

Somos, Todas, Maria! “Pois é preciso que gritemos, juntxs, na mesma voz, que somos todxs Maria. Maria não é uma, mas milhares. Números de violência, morte, violação, cadáveres femininos. Maria somos nós, violadas, duramente agredidas, mortas, espancadas. Mas a voz de Maria não se calará. Estamos aqui para lembrá-la, todos os dias, e para gritar com ela: BASTA DE FEMINICÍDIO! Estamos na luta, e não nos calaremos.”

Miosótis. “De que forma a violência contra a mulher te atingiu/atinge? Hoje, vejo a agressão que sofri com um atentado a vida, com justificativas machistas. Hoje, não sofro violência física, mas psicológica, às vezes, como provocações quando caminho onde tem avenidas movimentadas, e antes quando pedalava.”

Eufemismos, medo e morte. “Enquanto jornalistas disserem “crime passional” e “relacionamento complicado” em lugar de “feminicídio” e “relacionamento abusivo”, “relacionamento violento”, não iremos impedir a violência de entrar em nossas casas, seja com relacionamentos abusivos que chamaremos de “complicados” seja com imagens como a de Letícia sendo perseguida e morta, na frente de dezenas de pessoas. Enquanto usarmos de eufemismos para tornar a violência de gênero algo que só monstros cometem, ou em algo que não existe, pois não deixou marcas, ela estará, todos os dias, em nossa vida.”

Até no trabalho. “Ser mulher é compreender que nós precisamos engolir uns sapos para não ser demitidas, é respirar fundo para não gritar, é entender que, para alguns homens, hierarquia pode ser quebrada quando quem está no comando é uma mulher. É o que dizem por aí…. Não sei ser assim. Passei por um momento em que precisei gritar, fui grosseira, enfrentei o cara no passado e, hoje, estou passando de novo por um problema desses.”

De quantas histórias é feita a nossa história? “De quantas histórias é feita a nossa história? A minha, a sua, a de cada uma de nós? Quais memórias de outras mulheres estão nas memórias de cada uma? Quais são as mortes que você vela?”

Amanhã mesmo o assunto aqui poderá ser de novo violência. Porque de novo, de novo e de novo ela se repete no nosso cotidiano e nos atinge em cheio, sufoca a poesia, embaça o horizonte enquanto não falamos, berramos e tentamos dar nome e identidade às vítimas para que não se tornem apenas números nas estatísticas. Tentamos também identificar o cerne da questão, o que está por trás de cada violência, de cada agressão, e porque é tudo tão igual, o jeito do agressor, as agressões, os “motivos”, a reação da vítima e aquilo que chamamos de ciclo de violência, que independente de classe social, escolaridade, cultura, raça ou credo. Infelizmente. E só a luta poderá fazer cessar, até que todas sejamos livres.

Sigamos!

Violência psicológica, essa sutil

A violência psicológica é das formas mais sutis de violência. Geralmente, não se percebe, e ela vem travestida de cuidado, carinho, zelo. Para as mulheres isso é ainda mais perverso, pois somos criadas sob a ideia de que só nos realizamos em função da relação amorosa em que estamos. E que um homem ao seu lado (sim, pois além de tudo a heterossexualidade é a única possibilidade de vivência da sexualidade) é melhor do que ficar sozinha. Ainda que esse homem seja violento.

If he tries to go  too fast, too soon,  this spells DANGER

“Você é o sol, a lua e as estrelas para mim…”

(If he tries to go too fast, too soon,this spells DANGER/ Se ele tenta ir muito rápido, muito cedo, isso se chama PERIGO)

Esposa: – Eu também! Eu quero fazer tanta coisa durante minha vida…
Eu quero escrever um livro, expandir minhas companhias… aprender a voar…
Marido: – Espere um momento… Você não quer ficar comigo?
Esposa: – Sim, mas…
Marido: – Sem mais – agora você precisa pensar em NÓS no plural! Esqueça as outras merdas!

(If he demands that you give  up your dreams,  this spells DANGER/ Se ele demanda que você abandone seus sonhos, isso se chama PERIGO)

Uma das coisas que dificultam perceber a violência psicológica é a sua sutileza. Ao contrário da física que deixa hematomas e sequelas que podem ser vistas por outras pessoas, a psicológica demora para ser entendida como tal. O namorado ciumento é visto como amoroso. O marido possessivo é visto como zeloso. A ideia geral é que não há violência ali, apenas amor. Um amor exacerbado e controlador.

If he insists that his plans  are more important than yours,  this spells DANGER

Marido: – Faça suas malas, estamos indo pra Grécia no sábado.
Esposa: – Espera, eu tenho prazo na semana que vem para entregar um trabalho no escritório.
Marido: – Esqueça os prazos, aonde esta o seu senso de aventura? Além disso, eu venho planejando essa viagem há semanas!

(If he insists that his plans are more important than yours, this spells DANGER/Se ele insiste que os planos dele são melhores que os seus, isso se chama PERIGO)

WHO-WILL-LOOK-AFTER

Esposa: Quem vai cuidar das crianças?
Marido: Não me interessa. Pergunte a sua mãe, ela deve servir para alguma coisa!

(If he uses derogatory language towards your family & friends, this spells DANGER/Se ele fala de modo depreciativo da sua família e amigos, isso se chama PERIGO)

E aí que frases ofensivas são tidas como brincadeiras. “Ah, o seu colega dá em cima de você. Ele deve bater uma punheta pensando em você hein?”. Poderia ser uma brincadeira (de péssimo gosto) ou a ideia de que você é uma pessoa irresistível e que todos os homens do mundo te desejam. Mas uma frase dita nesse viés revela o controle que o parceiro tenta exercer sobre a mulher, estendendo seu domínio até sobre o efeito que a mulher tem sobre outras pessoas. E, muitas vezes, as insinuações se aprofundam, dando a entender que a mulher provoca intencionalmente os sonhos eróticos com ela e, claro, que um dia vai realmente ter um relacionamento com ele.

If he is inconsiderate, disrespect- ful, or puts you down in public,  this spells DANGER

Marido para a esposa do amigo: – Então Lee, como você consegue estar sempre tão bonita?! Você deveria dar umas aulas pra minha Roz!

(If he is inconsiderate, disrespectful, or puts you down in public, this spells DANGER/Se ele não te considera ou te desrespeita em publico, isso se chama PERIGO)

I-DONT-WANT

Marido: Eu não quero saber de você falando com os vizinhos.

(If he tries to isolate you  from friends and family, this spells DANGER/Se ele tenta te isolar dos seus amigos e família, isso se chama PERIGO)

Com toda essa paranoia em cima, a pessoa passa, gradativamente, a ter medo de ser vista na companhia de qualquer outro homem (e, a princípio, claro, ela não chama de medo, é cuidado, respeito ao namorado, etc). Seja amigo, colega, ex-namorado. Ops, ex-namorado é entidade proibida para pessoas que se comportam dessa forma. O desejo dele é que você não tenha história, que sua vida comece a partir do momento em que se conheceram, e que você tenha nenhum afeto por aqueles com quem já dividiu a cama e outras coisas.

SLAM

Marido ao telefone: Eu te amo!
(após alguns segundos, ele bate o telefone com violência no gancho).

(If you experience illogical incidents of abuse in the middle of bliss, this spells DANGER/Se você percebe incidentes irracionais de violência em meio a um momento de calmaria, isso se chama PERIGO)

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Marido: Eu realmente fiz isso? Eu não me lembro do que aconteceu na noite passada.

(If he acts like nothing has happened after an abusive episode, this spells DANGER/Se ele finge que nada aconteceu depois de um episódio de abuso, isso se chama PERIGO)

A violência psicológica machuca. Cada palavra aparece como punhal. Corta. Dilacera. Detona com a auto-estima. E, se um dia você consegue perceber isso e reagir, ele virá pedindo desculpas. Porque é assim que o agressor se comporta. “Foi só dessa vez”. “Você sabe que eu te amo”. “Não quero te perder”. “Não fiz por mal”. “É a minha opinião”. “Você não me ama mais?”, “Me desculpa, não queria te magoar”. E depois do tempo regulamentar das pazes, ele age novamente, vociferando acusações, injúrias e dizendo que te ama.

SLUT

Esposa: Você me chamou de puta…
Marido diz rindo: Chamei? Deve ter sido por causa do seu biquini vermelho – vamos dar um mergulho!

(If he blames you for what has happened and minimizes his abuse, this spells DANGER/Se ele te culpa pelo que aconteceu e tenta minimizar a violência, isso se chama PERIGO)

DUMB

Namorado para outro homem: – Não se faça de bobo… Eu vi você olhando a minha namorada!

(If he shows intense, unwarranted jealousy, this spells DANGER/Se ele demonstra ciúme injustificável, isso se chama PERIGO)

Num relacionamento violento, só existe gentileza, amor, carinho quando há concordância. Em tudo. Se a mulher faz algo que desagrade, pronto. Tudo vira um inferno. “Seu vestido é muito decotado, mas você é quem sabe se quer usá-lo”, “Tá vendo? Sua saia é tão curta que mostra tua calcinha”, “Você vai viajar sozinha?”, “Por que você não atendeu o telefone?”, “Como assim você não quer sair hoje? Eu já comprei os ingressos, você trabalha amanhã”. “Por quê não quer que eu durma na sua casa?”

RING

Telefone toca e a namorada está dormindo.
Namorada: Alô?
Namorado: Onde você estava? Com quem você saiu?
Namorada: O que?? Onde?

(If he checks up on your every move this spells DANGER/Se ele segue todos os seus passos, isso se chama PERIGO)

E por aí vai uma série de questionamentos que colocam a companheira como um móvel a disposição do homem. Ela deve fazer tudo o que ele deseja para que assim o relacionamento possa caminhar em paz. Como ela ousa questionar suas atitudes se ele já lhe dá todo o amor do mundo? “Não entendo essa coisa de se sentir sufocada. Eu sinto ciúmes porque te amo”.

PAWS

Esposa: Brian, está 40 graus abaixo de zero lá fora – as patinhas dela (provavelmente uma cadela) estão congelando!
Marido: Olha só! Eu não preciso dessa merda… Eu já disse que não vou deixar ela entrar!

(If he mistreats pets this spells DANGER/Se ele maltrata animais, isso se chama PERIGO)

E aí que esse homem não é nada melhor do que aquele outro – sim, porque homem agressivo é sempre o outro – que bate na mulher num acesso de raiva.  Que se descontrola e quando vê já deu um soco no rosto da namorada. Que no meio do calor da emoção, puxou o braço da companheira e lhe xingou de vagabunda. Não, eles não são diferentes. Ele não é um cara legal que, de vez em quando, tem atitudes terríveis. As atitudes terríveis fazem parte de quem ele é.

DREAM

Dançando após um episódio de violência física:
Esposa pensa: Será que eu sonhei com aquela agressão?

DANGER: The first sign of dissociation is when  you start to wonder if it really happened at all. (To confirm your reality, find a witness, or write down what happened and date it)/O primeiro sinal de dissociação ocorre quando você começa a imaginar se o episódio de violência realmente aconteceu. (Para confirmar a sua verdade, procure uma testemunha ou escreva em um papel o que aconteceu e quando aconteceu.)

Então, eu convido as pessoas que chegaram até o fim desse texto a olharem para seus relacionamentos e perceber como ele está sendo construído. Dentro dessa relação que você vivencia, ou que já experienciou, você se sentia sujeito? Você se sentia livre? Você sentia medo do outro?

WHAT

Esposa ou namorada pensa: – O que foi que eu fiz de errado?

(Your better question is, “What is he doing wrong?”/Um questionamento melhor é “o que ele está fazendo de errado?”)

Esses quadrinhos fazem parte de um livro – Friends of Rosalind – que  mostra uma mulher que passa por várias situações que podem ajudar você a pensar sobre seu relacionamento também:

http://www.friends-of-rosalind.com/learn.html

Morte Matada

Você sabe o que é morrer? Acabou vida. Acabou beijo na boca, beber cerveja, atravessar a rua, dizer palavrão, tacar o dedão na quina da mesa. Acabou rir com os amigos, abraçar gente querida, se meter em briga de bar, cutucar bicho de pé, comer de boca aberta, dormir até mais tarde. Acabou procurar emprego, reclamar do emprego, trocar de emprego, sonhar com emprego. Acabou trepar. Acabou beber café quente, jogar lixo no chão, dar um mergulho na praia, visitar a avó. Acabou batucar na caixa de fósforo, combinar balada, lavar louça, varrer chão. Acabou sentir fome, sono, medo, amor. Acabou ser biscate, falar mal de biscate, bater em biscate, defender biscate. Morrer, até prova em contrário, é isso aí: acabou. Não tem mais. Não tem mais vida. Não tem, nem vida biscate nem outra qualquer. Não tem. Acabou. Fim.

Pode-se morrer de tanta coisa: doença, acidente, tempo. Morte morrida e morte matada. E a gente, que fica, dá sentido (ou não). A gente chora. A gente sente falta. A gente dói. A gente lamenta.

E, algumas vezes, a gente ignora. Ou se indigna. E protesta. E esbraveja. E questiona. Estar na rua, no Brasil, mata. Mas mata com olho clínico, quase sempre. Mata negro. Mata pobre. Mata e a gente nem conta, nem nota, nem registra. Nem diz do jeito certo. Diz assim: morreu. Não morreu não, viu? Foi morto. Mataram.

Ontem, vivo e manifestando-se, talvez fosse “vândalo”, “baderneiro”. Eu leio por aí: tragédia. Eu digo: crime.

Foto do Observatório de Favelas

Foto do Observatório de Favelas

Antes (e as coisas acontecem e se atropelam e parecem demandar esquecimento, mas eu me recuso) morreram (morreram? mataram!) 12 pessoas no Conjunto de Favelas da Maré. Nas favelas as balas não são de borracha. Procuro os nomes para colocar aqui, no post, e não encontro. Ou antes, só o do sargento do BOPE, o 13º morto. Nossa sociedade é de privilégios, até ter nomeada a morte é um deles.

As justificativas são muitas e fáceis: era baderneiro, era bandido, era suspeito. A gente liga a televisão e a repórter nos esclarece: a polícia teve que reagir (coitada, a gente sente o tom pungente) contra esses vândalos (aí, sim, o tom ardente) que, que, que…ousam. Ousam questionar o status quo, a divisão de bens, ousam indignar-se e, algumas tristes vezes, ousam apenas isso: existir.

Mas o que é uma, duas, trezes, tantas vítimas, tantas mortes ante a preservação do patrimônio, não é?

Então, eu me indigno. Me revolto. Eu esbravejo. Eu choro. Minhas lágrimas e minha dor de pouco (pouco? nada) valem. Mas existem. Urge rever os valores que sustentam nossas relações sociais. É abominável que haja tanta lamentação por carros e concessionárias e móveis e tanto silêncio e indiferença à vida humana.

Ignorar essas mortes, colocá-las na conta dos equívocos, das tragédias, da única opção, é ser conivente com elas. É criminoso.

E toda essa ignomínia pode ser agravada. Hoje se vota a lei Antiterrorismo e, até eu que sou tola e Pollyana, passo os olhos e identifico a busca de criminalizar os movimentos sociais. E o que pode vir daí senão mais perdas, mais dores, ausências e mortes arbitrárias?

Eu sou biscate, sou mulher, sou divorciada, sou quase quarentona, sou gorda, sou nordestina, sou negra. E, ainda assim, minha vida é de privilégios. Imensos privilégios. E a sua?

Biscate também diz não

Uma biscate muitas vezes diz sim. É que nos apetece ser facinha. Uma biscate algumas vezes cala, é que nos agrada o mistério. Mas nós, biscates, sabemos, há horas em que não se pode calar e é preciso gritar NÃO.

Biscate também diz não

Biscate também diz não

Não à violência policial.

Não à criminalização dos movimentos sociais.

Não à tentativa de minimizar, desmerecer ou desarticular lutas do feminismo e do movimento LGBT das pautas de esquerda.

Não à banalização das ações de repressão da polícia nos subúrbios, periferias e favelas.

Não ao silêncio complacente ante as mortes no Complexo da Maré.

Charge de Carlos Lattuf

Charge de Carlos Lattuf

Dizemos não e perguntamos, inquietxs: e você, o que diz?

Sabem o que acaba comigo? A banalidade com que se lida com a vida das pessoas. Uns dias atrás a polícia mandou balas de borracha e gás lacrimogênio e trocentos manifestantes e o país praticamente parou em revolta e era pra parar mesmo. Hoje tá acontecendo numa chacina na Maré. Já são 9 mortos. E me dá uma angústia de saber que o país não vai parar por eles. Porque eles são os outros e a carne mais barata do mercado é a carne negra.” (Iara Paiva)

 

 

Ai, se eu te pego!

Por Xênia Mello*, Biscate Convidada

Atreva-se, ouse e não deixe de biscatear, deixe o medo pra depois. Não o traga nem pra essa que é inevitável, tão presente e que tantos substantivos, pronomes, adjetivos, servem para nomeá-la. Essa que já causou tanto temor e tanta coisa já foi feita por conta dela, que talvez seja a única inafastável verdade. Pra morte eu canto e danço um tango, né Raul?! Se a morte, que não podemos afastar, tantos temem, me pergunto como é produzido esse temor? Onde é que o medo nasce? Me digam que eu ponho saia curta, bonito decote, meia arrastão e um batom bem vermelho e vou lá encarar, porque eu de biscate até o medo comigo vem flertar.

medo

Hoje temos muitas variadas formas do medo. Um medo que não tem uma cara, nem endereço. Quando criança nos amedrontavam com o famoso Homem do Saco, talvez essa seja uma versão curitibana, mas não duvido que em cada cidade haja uma versão parecida. Pois bem, todo pai e toda mãe sabe que não existe Homem do Saco. Passamos a ter medo de algo que não existe, de algo sem rosto. Sobretudo, passamos a ser controlados por ele. Pais e mães controlando os corpos dos filhos e filhas através do medo. Eu lembro de pequena ter apontado para vários velhinhos pois acreditava ter descoberto O Verdadeiro, pra vergonha dos meus pais em se desculparem pela filha que os acusava injustamente, pra minha tristeza que até hoje não peguei o dito cujo.

Atualmente me parece que os tarados do busão e os voyeurs do banheiro são os Homem do Saco, na nossa versão adulta, gente grande. E ai me pergunto, será que a gente cresceu? Por que reproduzimos um medo infantil que ainda nos controla? Por que ainda procuramos esse dito homem que nunca existiu. Crescemos, mas não amadurecemos nem nos desvencilhamos da cultura do medo, do medo do outro, e também do medo de nós mesmos. Tarados, voyeurs, bandidos, homens do saco, estupradores. Não gosto dessa cultura escapista que cria monstros indeterminados. O tarado do busão é pauta destacada nos jornais versões tribunas, o voyeur do banheiro foi muito procurado na universidade, rolou até um ato, mas não foi encontrado. No busão espaços separados, muitas pessoas deixam de usar o  ônibus pois o carro ‘é mais seguro’. Na universidade controle total de quem entra e quem sai, instalam-se câmeras e até um inspetor na porta do banheiro, pra cagar agora é necessário identificação. O Medo, esse sem rosto, sorri! Pois lucra e controla.

Medo2

A foto do estuprador na capa do jornal, grande, destacada, amedrontadora. Agora o monstro tem um rosto, agora posso descrever O Medo: pobre, negro, ninguém, não tem advogado, não tem dignidade, não tem defesa. Podem os jornalistas expor e explorar a ultima gota do seu sangue, ele é monstro, ele não é humano. Porque enquanto o sensacionalismo lucra com O Medo, o monstro continua sendo a carne mais barata do mercado.  A cultura do medo determina que a todo momento estamos em estado de perigo. Não relaxe, tenha medo, esse é o imperativo! Sim, O Medo, continua controlando nossos corpos, como já fazia desde que eu era criança, ali nos anos oitenta, mas acredito que de muitos séculos prá cá. Essa cultura de criar o outro, o mostro, o desconhecido só favorece que tenhamos receio daquilo que não conhecemos. Quando na realidade o outro poderia ser um convite à ousadia, à biscatagi. Acredito que o perigo está quando o outro me causa medo, quando deveria me causar interesse, curiosidade. Porque ai eu sou controlada, o terror é instaurado, um pouco de mim em vida morre, um pouco do outro eu mato em vida. Eu desumanizo e me desumanizo.

Essa cultura de reforçar O Medo, de criar o outro, o desconhecido, não liberta, não afasta a violência. Sim mulheres são cotidianamente violentadas, abusadas, mortas, agredidas. Denunciar o medo, ou melhor murar o medo não é negar a violência. Em regra a violência contra a mulher é perpetrada pelas pessoas que mais amamos, pais, irmãos, amigos, namorados. Se queremos combater a violência, devemos combater as ameaças reais e urgentes como a cultura do estupro, a vitimização compulsória das mulheresa culpabilização da vítima. Se queremos mudança não podemos reforçar ainda mais essa cultura controladora que nos assola desde a infância. Devemos nos indignar, ocupar a cidade, as ruas, denunciar e não propagar, propagandear O Medo.

E pra não dizer que eu esqueci do poetinha, com carinho a gente canta: Atravesse a vida sem medo!

Eu não quero o medo. Eu só quero saber daqui que me liberta!

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xênia*Xênia Mello é arretada e não tem papas na língua. Apaixonada, combate com o coração exposto. Advogada, corajosa, meiga e persistente. Não perde a oportunidade de sensualizar no feminismo, biscate burocrática, rata no Chinês, capricórnio quando teimam. Insustentavelmente leve e de mansinho.

Violências sutis

Naná,

Primeiro, que bom receber um email seu. Depois, que bom saber que sou “a amiga mais feminista” que você tem, embora eu gostaria que você também se reivindicasse feminista. Mas ok, isso é conversa pra outra hora. Bom, fiquei muito triste e com muita raiva do que você me contou. É muito grave o que aconteceu. Você e o Rafa são casados, dividem a mesma casa e a mesma cama, mas nada dá a ele o direito de encostar em você, se você não quiser, sem o seu consentimento. Não existe “deveres de esposa”, Naná. Você só trepa com ele se tiver com vontade e quando tiver vontade. O que ele fez foi muito nojento sim, e acho que você tem que falar isso pra ele. Não sou boa de conselho, mas isso, pra mim, seria o fim do relacionamento. Mas eu sei também, Naná, o quanto é difícil ver essas violências dentro das relações íntimas, porque tá tudo muito naturalizado e é uma mistura doida de sentimentos. Parece, muitas vezes, que a violência é só a física. Mas não é não. É psicológica também. Eu sei que você gosta dele e que não é fácil terminar essa relação, mas para o que vier, estou aqui.

Mulher_triste

Bom, quanto ao que aconteceu com a Ju eu me solidarizo com ela. Já passei pela mesma coisa. A história dela se repete tanto e tanto. A mulher que bebeu demais, adormeceu em algum canto (às vezes na própria cama) e um cara, geralmente um amigo, ou o boy que ficou no pé a noite toda e levou um não, resolve se aproveitar da situação e violentá-la. Bom, como diria minha avó: “dos males o menor”, porque a amiga dela apareceu e tirou o cara de cima dela né? Fala pra Ju que ela  – infelizmente – não está sozinha. Muitas e muitas mulheres passam por isso. O nome disso é violência de gênero. Ela não tem que ter vergonha, ou achar que deu mole, ou que está dramatizando “uma coisa besta”. O “amigo” dela que fez isso com ela é que deveria sentir vergonha, ser execrado e não pagar de gostosão. O foda, Naná, é que muita gente acha que estupro e violação só acontece em beco escuro por algum desconhecido e não sabe que ele, muitas vezes, está do lado. O cara que fez isso com a Ju nem deve achar que fez alguma coisa, deve achar que é inocente, porque pra ele e pra um monte de gente, foi só uma brincadeira.

Naná, querida, espero ter te ajudado a pensar um pouco sobre isso tudo. Acho que de tanta coisa ruim que você me contou naquele email, teve uma positiva: você percebeu que você e a Ju passaram por violências muito parecidas e muito sutis. Que nossa cultura machista vai dizer que “é normal”, ou que “vocês procuraram”. Mas, você sabe que ser violentada não é normal e que mesmo que a gente não consiga dizer exatamente o que está sentindo em relação a isso, é preciso não calar e falar, falar até ser ouvida. E mudar isso que está aí!

Beijos biscates pra vc e pra Ju!

Só fico com quem eu quero!

Ser Biscate não é estar disponível pra qualquer um! Parece que por mais que a gente fale isso, ainda tem gente que acredita que Biscatear por aí é estar disponível inclusive pra quem não queremos. Preciso explicar de novo: só fico com quem eu quero!

Liberdade de ir e vir, fazer o que quiser, como quiser e com quem eu quiser não quer dizer que vou com quem eu não quero. Respeito é uma qualidade muito respeitada por nós Biscates, nunca passamos por cima da vontade de outras pessoas e desejamos que não passem por cima de nossas vontades. Ser mulher livre não é sinônimo de ser objeto de alguém, muito pelo contrário! Somos donas de nossas vontades, de nossos corpos, não quero ter que me policiar de usar uma calça comprida no calor, quero poder escolher a roupa que eu uso, na verdade, quero viver minha vida sem ter medo de ser assediada na rua, na família, no trabalho ou entre amig@s de minh@s amig@s!

As vezes parece que toda a luta, todas as Marchas de Vadias e Biscates não teve ainda todo o resultado que sonhamos. Me preocupo em sair a noite sozinha, me preocupo em ser tratada com pouco profissionalismo por alguém do meu trabalho e ser assediada, me preocupo em ter de fugir de pessoas da minha família que me olham, me incomodam e me assediam sexualmente e, mais que tudo, tenho medo de me queixar de alguma dessas coisas com alguma autoridade, policial ou o que for, e ter que ouvir um desaforo, como se eu fosse a culpada por passar uma violência dessas.

Marcha das Vadias Recife

Não peço muito, não sou uma Biscate exigente, peço o que faço pelos outros. Peço o respeito que sempre tive por todo mundo a minha volta. E sim, existe diferença entre uma abordagem educada e uma cantada nojenta! Encontrar uma pessoa que se interessou por você quando te conheceu que, numa oportunidade, te pede o telefone e, se não forçar a barra quando notar que você não está interessada, não tem nada de errado. Mas falar frases obscenas e/ou desrespeitosas, passar a mão, perseguir, tentar beijar sem que uma mulher diga que deseja esse beijo, entre outras coisas desse tipo, não são elogios, não são agradáveis e é uma forma de violência contra mulheres. Respeite a decisão e a vontade de uma mulher.

Biscates em luto, na luta pela liberdade sempre

Minha coluna em luto. Eu. Vocês. Elas. Todas.

Dadas como presente, de outrem a outrem.

Elas não. Não tiveram palavra. Eram só corpos.

Como fica a liberdade em tempos de estupro coletivo? Hoje só me calo.

Ser biscate é um privilégio.

* * *

Este texto se refere ao estupro coletivo seguido de assassinato de respectivamente sete e duas mulheres, por dez homens, no município de Queimadas (PB). A mídia não disse, ninguém quase disse, então é nosso dever dizer. Um crime de gênero contra mulheres – esse mecanismo tão cruel de cercear a liberdade de nossos corpos. Leia textos muito bons sobre isso aqui.

Não dá pra calar: Estupro Não é Sexo!

Esse post faz parte da blogagem coletiva de repúdio ao caso de Queimadas, convocado pelas Blogueiras Feministas e pelo Luluzinha Camp. Para fazer parte, basta externar sua indignação e reportar para que seus posts sejam linkados nas páginas desses blogs.

A boa violência

Shibari, do theobscura.org

Era uma vez outra biscate – que já contei tantas histórias de biscates nessas sextas-feiras, não? – e ponto.
Essa biscate era antenada. Ligada. Pós-modernizada. Defendia o direito biscate aqui e ali. Falava de liberdade, falava de opressão. Reivindicava. Suava. Biscate que dava.

Tinha um segredo.

Não dizia a ninguém, tinha medo.

Essa biscate, tão feminista, fantasiava submissa. De quatro, amarrada, couro e correntes, apanhava. Xingava, gritava e gozava de dor.
A biscate gostava era de violência. Difícil assumir. Apontavam-lhe dedos, discursavam nos mais diversos palanques: sobre a fantasia, a pornografia, a dominação.

Até que assumiu. Assumiu e, como biscate que era, bancou.

Pois qual não foi a surpresa das outras – feministas mas tão, tão moralistas – descobrindo que a violência podia sim, ser liberdade. Biscatagem da mais pura, autêntica: bastava que ela dissesse “sim – faço porque quero”.

Estupro não é sexo

Infelizmente ser biscate não é só assumir o controle dos seus desejos e corpo, porque o mundo, machista como é, insiste em não apenas ignorar nossa atitude como insiste também em tentar controlar nossos corpos, desejo e prazer. E o faz através da maneira mais cruel e perversa, e que atinge tanto biscates quanto mulheres incríveis, da violência. E como o assunto do momento é o estupro de uma “biscate”, é sobre isso que precisamos falar.

Estupro não é sexo. Estupro não é uma vontade incontrolável de dar prazer à outra pessoa mesmo que ela não saiba que quer muito isso. Estupro não é um favor, não é um acidente, não é uma empolgação. Estupro é uma violência que decorre de uma relação de poder. No estupro, aproveita-se da vulnerabilidade do outro.

Precisa de exemplo? Apontar a arma pra uma pessoa na rua a deixa vulnerável. Bater numa pessoa a deixa vulnerável. Ameaçar o emprego, a família, os amigos a deixa vulnerável. Estar bêbada, dormindo, drogada, é estar vulnerável. Aproveitar-se de relações de trabalho ou familiares pra forçar sexo é aproveitar-se de vulnerabilidade. Não importa se é um marido, namorado, colega, amigo, vizinho, desconhecido, não importa o grau de intimidade e confiança… Tocar, se esfregar, penetrar, inserir objetos no corpo da outra pessoa sem que ela deseje isso e consinta explicitamente sem coação de nenhuma ordem, É VIOLÊNCIA.

Entenda: estupro não tem atenuante. Mulher pode gostar de sexo, de beber, usar roupas provocantes e se divertir e isso não dá a ninguém o direito de estuprá-la. Vamos desenhar, atenção: Não é porque ela estava bêbada que pode estuprar. Não é porque ela estava na rua sozinha depois das 22hs que pode estuprar. Não é porque ela estava com um grande decote, saia curta ou maquiada que pode estuprar. Não é porque ela é prostituta que pode estuprar. Não é porque ela dá pra todo mundo que tem que dar prá você também. Não é porque ela é gostosa que pode estuprar. Não é porque ela dança de forma provocante que pode estuprar. Não é porque ela é “feia” e nunca ia arrumar namorado que pode estuprar. Não é porque ela concordou em conhecer sua coleção de figurinhas de jogadores das seleções asiáticas de futebol que pode estuprar. Não é porque ela se deitou com você e ficou trocando carícias embaixo do edredom que pode estuprar. Não pode usar força, não pode insistir com ameaças, não pode se aproveitar que a pessoa dormiu, não pode chantagear. NÃO PODE ESTUPRAR!

Quando alguém diz não, significa exatamente isso: NÃO. Não importa o que ela “quer dizer”, importa o que ela efetivamente disse. E se a pessoa está desacordada, bêbada, drogada ou sonolenta e não tem condições de dizer sim ou não, saiba: é sempre não. Se a pessoa não pode decidir, guarde a viola no saco (guarde o pinto dentro da cueca) e espere outro momento.

Para os que se perguntam se a responsabilidade não é dos dois, um esclarecimento: a culpa de ser estuprada não é da vítima. Não, ela não provocou. Ela tem o direito de vestir o que quiser, de beber o quanto quiser, de dançar, sorrir, beijar e decidir não fazer sexo. O corpo dela não é brinquedo. Ela é uma pessoa, com liberdade e direitos. Essa é a parte que o moralismo parece esquecer. As mulheres são sujeitos e têm direitos. As mulheres não estão no mundo para provocar ou satisfazer os homens. Estão por aqui pra ser felizes, tal como eles. Antes de apontar o dedo e afirmar que ela mereceu a violência sofrida, é bom pensar que os agressores não são previsíveis. Estupra-se criança, idosas, estupra-se mulheres cobertas da cabeça aos pés, estupra-se homens, meninos, estupra-se freiras e prostitutas. Estupra-se mulheres que bebem e estupra-se as abstêmias. Porque sempre a culpa é da mulher? Porque é tão mais fácil dizer que ela deu sopa, que “pediu por isso”, que “fez por onde”? Não é o “dar sopa”, ser biscate, estar bêbada ou “a mão” que a torna alvo do estupro. Homens estupram porque acham que podem, que têm esse direito, que o mundo lhes serve. É relação de poder, pura e simples.

Então, você mulher “direita” que está aí se dando o direito de julgar e apontar o dedo para a “biscate” e dizer que “ela pediu”, “mereceu” ou no mínimo que “aguente as consequências dos SEUS atos” (como se ela tivesse escolhido ser estuprada), saiba que você não está a salvo de um estupro e toda a sua “direitice” e moralismo não irão te salvar na hora em que algum homem te olhar e achar que pode se satisfazer no teu corpo mesmo contra a tua vontade. Porque a violência contra a mulher é ampla e democrática, não julga comportamento, idade, cor, profissão, classe social, origem.

Não são as mulheres que precisam aprender a evitar e se prevenir contra estupros, são os homens que precisam aprender que não podem estuprar.

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