Tia lésbica. Quem nunca?

h

É engraçado. Sempre que vou me posicionar sobre qualquer assunto tenho um exemplo na minha família, com o qual cresci e convivi. Escrevi ontem no meu blog confessando o meu racismo que o avô materno que conheci era negro. Também tive uma tia-avó mezo polonesa mezo alemã, loira de olhos azuis, que era mãe de santo e dona de terreiro de umbanda. Essa que foi a religião que mais pratiquei na vida, embora não a tenha abraçado quando cresci.

Até mesmo as coisas feias e que quase ninguém confessa como roubo, tráfico, prisão, assassinato teve na minha família. E teve marido corno e alcoolismo, morte de cânceres vários e espancamento de mulheres, filho doado, perdido, reencontrado e suicídio, paixões de cinema, casamento interracial nos anos 40, abortos, dores, alegrias… Acontece, nas melhores famílias.

Óbvio, teve também lesbiandade. Cresci com uma tia lésbica que sempre passava pelo menos uma semana das férias na casa da minha avó com a companheira. Minha avó a recebia como a qualquer outrx sobrinhx e a sua companheira como a qualquer outro marido ou esposa hétero. Vó Carola era a “mãe-joana” da família. Todxs sempre queriam/precisavam de sua aprovação da pessoa que se integraria a esse núcleo de doidos, e ela acolhia x todxs. A única diferença é que a companheira dela não tinha título, era apenas a cicrana.

Óbvio também que a maioria apenas a aturava, ela, a lésbica e a cicrana sua companheira. Discretas e sem carinhos públicos que denunciassem a natureza da relação entre as duas para não “desrespeitar” ninguém. Era tipo o preço a ser pago por ter escolhido assumir sua orientação sexual. Estou falando de uma mulher que tem hoje mais de 70 anos e só é bem recebida de fato de uns 15 anos pra cá, quando foi abandonada pela então companheira e ficou “assexuada”, “sossegou”, como dizia minha mãe.

Apesar de não ter pedido autorização a ela — e por isso não divulgarei seu nome e nem sua imagem — achei que deveria dar visibilidade à sua história. Só estudou até a quinta série do primário, não tinha instrução, não frequentava lugares cultos e nem tinha capacidade de teorizar sobre sua condição. Nunca a vi lamentar por agressões sofridas e nem ouvi nenhum comentário a esse respeito na família. Imagino que as pessoas deveriam fingir que eram apenas amigas morando juntas. Elas não quebravam o código moral(ista) e familiar(podre) em público e assim estava bem.

Não era feminista e nem levantava bandeira nenhuma. Ela apenas vivia sua lesbiandade. E se não sambava na cara da sociedade, sua alegria denunciava que sambava escondido, só no miudinho. Só queria uma vida normal, trabalho, casa, pagar as contas e estar com quem gostava. Nada demais.

À minha tia.

semana_lesbica_bissexualEsse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexualconvocada pelo True Love

Isso também é assunto meu

É. Eu tenho essa mania chatinha de trazer muita coisa do meu cotidiano pra cá. Mas é que vivencio tantas situações que ilustram o que penso e observo em nossa sociedade, que acabo não conseguindo evitar. Me julguem!!!

Dia desses, um conhecido me questionou sobre o porquê de uma das causas pelas quais milito ser a das bandeiras LGBT.

“Você tem certeza que não é lésbica? Porque não tem sentido defender tanto algo que não se pratica.”

Se essa cena te incomoda, é simples: olhe para outro lado. Ou comece a enxergar as coisas de outro jeito...

Se essa cena te incomoda, é simples: olhe para outro lado. Ou comece a enxergar as coisas de outro jeito…

Essas foram as palavras dele. Esse rapaz acredita que ser lésbica é praticar alguma coisa. Ou então, que para defendermos um grupo historicamente oprimido temos que, necessariamente, “ser parte” dele. E isso é recorrente no pensamento de muita gente, ainda. Não o culpo por reproduzir essas ideias, só queria mudar isso de alguma forma.

Reconhecer os próprios privilégios não é fácil. Nem acontece do dia para a noite. Faz parte de um processo contínuo, não linear e de constante aprendizado. Não pensem vocês que nós, militantes, nascemos sabendo fazer tudo isso. Tudo sempre tem um começo…

E aí, será que vocês topam começar também???

Eu, Cláudia, sou heterossexual, cis, branca, cursando minha segunda graduação e de classe média. Apesar de sofrer com machismos diversos pelo simples fato de ser mulher, eu nem de longe, sofro em intensidade equiparável a de uma garota lésbica ou bissexual que tenha essas mesmas “características”. Quando ando com meu namorado na rua, por exemplo, não percebo ninguém nos olhando torto por isso. Quando nos beijamos em público, ninguém acha isso exótico/estranho/disgusting. Se eu fosse fã de algumas religiões, provavelmente não teria problemas para assumir com tranquilidade a minha orientação sexual, já que esta condiz com o padrão heteronormativo supramencionado. Será que se ao invés de namorado, fosse uma namorada, seria assim? Evidentemente, sabemos a resposta.

Gosto de imaginar que algum dia, as pessoas poderão expressar seu amor e seu desejo de forma verdadeiramente livre. É por isso que falar sobre a visibilidade lésbica e bissexual é assunto meu sim. Poderia ser nosso, né? Porque reivindicar direitos não assegurados, respeito e tolerância é uma luta legítima que deveria ser abraçada com todas as forças pelo maior número possível de indivíduos. Aí, quem sabe essa ideia de privilégio se torne realmente uma bobagem?

Les-Bi-Biscatismos

Les-Bi-Biscatismos

A postagem faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

 

Blues Lésbico e Negro

Tradução de Bárbara Lopes*, Biscate Convidada

Quando Gertrude “Ma” Rainey – conhecida como “A mãe do blues” – cantou “é verdade, eu uso colarinho e gravata… Falo com as garotas como qualquer cara velho”, em Prove It on Me, de 1928, ela estava flertando com o escândalo, desafiando o ouvinte a flagrá-la num caso lésbico. Pode não parecer grande coisa para nós hoje, mas na época, buscar relações homossexuais poderia levar a pessoa para a cadeia.

lésbico

a cantora e pianista Gladys Bentley, se apresentava de smoking e atraiu uma multidão para o Clam House no Harlem na década de 1920

A boa notícia para as cantoras que amavam mulheres, como Rainey, Bessie Smith e Gladys Bentley é que o blues nos anos 1920 estava tão fora do radar da América mainstream que as cantoras de blues podiam expressar seus desejos diferentes de vez em quando e se safar. Mesmo assim, todas se sentiam obrigadas a produzir canções sobre amar e perder homens.

“Eu não quero exagerar o significado das três músicas que Ma Rainey escreveu e gravou que têm algumas referências a lesbiandade e homossexualidade”, diz Robert Philipson, que dirigiu em 2011 o documentário “T’Aint Nobody’s Bizness: Queer Blues Divas of the 1920s” (“Não é da conta de ninguém: divas queer do blues nos anos 1920”). “É um punhado dentro de centenas de blues gravados. O fato de haver alguma é notável, na época. Isso com certeza não é visto em nenhuma outra parte da cultura americana”.

lésbico

Ma Rainey, “A Mãe do Blues”, cantou sobre a perseguição sofrida pelas mulheres em várias músicas, em 1917

Escritor e palestrante com PhD em literatura comparada, Philipson ficou intrigado com dicas como essas quando ele estava começando a carreira de cineasta e preparando um curso sobre a explosão da arte e da literatura afroamericana no começo do século 20, conhecida como Renascença do Harlem. “Eu ficava encontrando esses pedacinhos sobre tal pessoal ser gay ou tal pessoa ser bissexual”, diz.

Essas pistas o deixaram curioso. Ele viu nelas potencial para um documentário – e, em 2008, ele terminou seu primeiro filme “Take the Gay Train” (“Pegue o Trem Gay”), que puxa o fio da meada da sensibilidade gay que havia na Renascença do Harlem. Frequentemente, no entanto, o desejo de provar que os negros americanos, menos de meio século após o fim da escravidão, poderiam ser tão artísticos e literatos quanto os brancos vinha de mãos dadas como a adoção de “valores cristãos adequados” da classe média.

A comunidade blues, porém, não tinha essas preocupações com respeitabilidade e foi onde Philipson encontrou mais referências à homossexualidade. Foi por isso que, três anos depois do “Trem Gay”, ele lançou outro documentário, dessa vez abordando exclusivamente as cantoras de blues com inclinações lésbicas.

Como se vê, o mundo do blues era o lugar perfeito para pessoas consideradas “depravados sexuais”, já que prosperou bem longe do alcance da cultura branca dominante nos Estados Unidos do começo do século 20. Nos antros clandestinos e nas festas particulares da Era do Jazz, cantoras de blues tinham liberdade para explorar sexualidades alternativas e, mais raramente, até expressá-las em músicas.

“Nas letras, elas falam sobre ‘bulldaggers’, que é como eram chamadas as ‘caminhoneiras’ na época, ou mulheres BD, sendo que BD é abreviação de bulldaggers”, conta Philipson. “Há referencias a estar ‘na vida’, que era entendido como atividades homossexuais”.

Em “The Boy in the Boat”, de 1930, Bessie Smith, afilhada musical de Ma Rainey, canta: “Quando você vir duas mulheres andando de mãos dadas, só olhe para elas e tente entender: elas vão para aquelas festas – de luzes baixas – somente aquelas festas em que mulheres podem ir”. Uma mulher casada, que mantinha uma amante nas turnês com ela, Smith é conhecida por ter explodido com uma namorada: “Eu tenho doze mulheres nesse show e posso ter uma a cada noite se eu quiser”.

lésbico

Gladys Bentley com maestro Willie Bryant, em 1936

De smoking e cabelo cortado curto, a menos conhecida Gladys Bentley arrastava multidões para o Harlem’s Clam House nos anos 1920, cantando músicas de cabaré, brincando com as teclas do piano e flertando sem pudores com as mulheres da platéia. A única dessas mulheres a explorar abertamente sua identidade lésbica, ela era conhecida por pegar canções famosas e dar letras lascivas e por pedir para a platéia ajudá-la a improvisar versos maliciosos.

“A rua 133 do Harlem era chamada de ‘Beco da Selva’, pelo tanto de clubes noturnos que havia alo”, diz Philipson, explicando que o Harlem tinha os únicos bares de jazz dos Loucos Anos 20 que atraíam “turistas” brancos curiosos por música negra. “O Clam House era famoso porque tinha Bentley, deleitando-se em sua imagem de bulldagger. Por causa dela, se tornou um lugar onde lésbicas e gays negros poderiam curtir. Turistas brancos de outros bairros também iam ver o show dela”.

mapa de casas noturnas do Harlem de 1932 mostra Gladys ‘Clam House, destacando que ela usa “um smoking e highhat”

Outras cantoras de blues mergulhadas “na vida” tentavam manter isso a portas fechadas – como não existiam tecnologias modernas e caçadores de fofocas, era possível. Nos anos 20, a cantora de jazz e blues Ethel Waters estava envolvida com uma dançarina chamada Ethel Williams, um casal conhecido pelos amigos como “As duas Ethels”, de acordo com uma biografia de Waters lançada em 2007 por Stephen Bourne. Elas inclusive moravam juntas, algo desonroso na época, fato que Waters conseguiu manter fora de todas biografias dela do século 20. Porque ela teve sucesso numa cena de cabaré européia mais sofisticada, a cantora e compositora de blues Alberta Hunter escondeu e se recusou a falar sobre sua lesbiandade, de acordo com a enciclopédia “Histórias e Culturas Lésbicas”, de Bonnie Zimmerman. O biógrafo de Hunter, Frank C. Taylor, escreveu que a vocalista, que também vivia com uma namorada de muito tempo, Lottie Tyler, se contorcia cada vez que uma artista lésbica, como sua amiga Ethel Waters, tinha uma briga de namoradas em público.

Ethel Waters, que começou sua carreira no circuito de vaudeville, posando para a divulgação de um show em 1929

“O que acontecia era na clandestinidade ou em cenários urbanos que eram mais ou menos secretos e difíceis de entrar”, diz Philipson. “Era em grande parte oculto pela noite, porque elas poderiam ser denunciadas por homossexualidade. Havia algumas manifestações de sexualidade alternativa na Renascença do Harlem e no Greenwich Village no fim dos anos 1920. Por exemplo, a ‘Pansy Craze’ [algo como ‘febre gay’] em que turistas e celebridades iam em festas drag no Harlem. Também havia drags nos cabarés, mas eram a exceção”.

Alberta Hunter, que mantinha sua lesbiandade em segredo

Mesmo o blues era condenado por pastores negros. Após a virada do século, os enfumaçados cabarés de blues se multiplicaram nos bairros com grande população afroamericana, o que levou a platéias quase exclusivamente negras, que transformaram Ma Rainey e Bessie Smith em estrelas. (O Cotton Club no Harlem, que só aceitava brancos na platéia para assistir a artistas negros, era uma notável exceção). Nos anos 1920, alguns estúdios estavam gravando discos de blus, produzindo vinis de 18 rotações conhecidos como “discos da raça”.

Na mesma época, a industrialização, o desenvolvimento da rede elétrica e a presença dos automóveis deram às mulheres jovens mais dinheiro próprio, tempo livre e opções do que elas já haviam tido. No fim dos anos 1910, as “flappers” rejeitaram os apertados espartilhos da época de suas mães e passaram a usar cabelos curtos e vestidos reveladores que era, ao mesmo tempo, andróginos e provocantes. Essas mulheres saiam para dançar e beber e abraçavam a promiscuidade.

É provável que o movimento flapper tenha aproveitado algo dessas divas do blues, que estavam na ponta da revolução sexual dos anos 1910, desprezando padrões dos bons modos das mulheres à esquerda e à direita. “Elas bebiam e se vestiam de um jeito chamativo e extravagante”, conta Philipson. “Elas não eram submissas aos homens em nenhum sentido e isso não era o modelo de feminilidade pós-vitoriana que era dominante na virada do século”.

Alberta Hunter (à direita), performance no vaudeville

“Todas essas mulheres vinham da classe trabalhadora ou mesmo de origens mais marginais, em um dos piores períodos de segregação racial na história dos Estados Unidos”, continua. “E elas estavam ganhando dinheiro, construindo uma carreira em uma época em que isso não era nada comum para mulheres negras. Mas frequentemente, tendo vindo da pobreza, elas não sabiam como lidar com dinheiro”.

Enquanto a recém-descoberta liberdade de viver na estrada inspirou algumas das letras mais picantes de Ma Rainey e Bessie Smith, essas canções celebrando embriaguez e luxuria também têm raízes nas músicas “coon” dos shows de menestréis do século 19. Nessas apresentações, atores brancos pintados de negros faziam caricaturas racistas dos afroamericanos como bufões simplórios e preguiçosos, com um apetite insaciável por comida, álcool e sexo.

Nos anos 1840, Willam Henry Lane e Thomas Dilward se tornaram os primeiros atores negros a interpretar menestréis. No fim dos 1800, todas as trupes de menestréis negros estavam decolando e, embora estivessem repetindo estereótipos, elas muitas vezes tentavam subverter as piadas racistas e sutilmente atacar a ideologia de supremacia branca. (Em seu livro “Blacking Up”, de 1974, Robert Toll descreve o entusiasmo em um show negro que mostrava o céu como um lugar “onde os brancos deixam os escurinhos existir” e onde eles não poderiam ser “comprados e vendidos”). Quando os espetáculos de variedade vaudeville substituíram os shows de menestréis, ainda se esperava que artistas interpretassem os mesmos papéis.

Ma Rainey, que era bissexual, teve seu nome artístico quando se casou com o artista Pa Rainey

De fato, Ma Rainey, Bessie Smith e Ethel Waters começaram cantando e dançando no circuito vaudeville da virada do século. Assim, não é surpreendente que tenham sido essas mulheres a revelar as atrevidas insinuações sexuais do que ficou conhecido como blues sujo ou fanfarrão. Na música “My Handy Man, de Waters, escrita em 1928, ela canta “ele sacode a minha poeira, engraxa minha chapa, bate minha manteiga, toca meu violino. Meu homem é tão habilidoso!”.

O blues sujo do underground era um grito distante do estilo de vida ambicioso e certinho promovido pela classe alta negra a que WEB Du Bois se referia como “The Talented Tenth” que, em 1903, estava criando faculdades negras e se assimilando no mundo branco.

Ma Rainey, em 1925 — as divas do blues geralmente eram fotografadas assim, com uma banda de apoio

“A burguesia negra, os negros aspirantes à classe média, eram muito hostis com a homossexualidade”, diz Philipson. “Eles não eram a maioria da comunidade negra, mas estavam tentando se colocar como líderes. A moral pós-vitoriana era de não fazer sexo antes do casamento, de se casar, constituir família e ficar junto até o fim da vida, de ir à igreja e criar filhos como bons cristãos que vão ocupar seu lugar na sociedade e se reproduzir”.

Obviamente, essas cantoras de blues lésbicas estavam criando seus próprios caminhos para uma mudança no cenário cultural. “Não é tempo para casar, nem para se acomodar”, cantou Bessie Smith em “Young Woman’s Blues”, de 1926. “Sou jovem e não terminei de rodar por aí”.

(artigo original de Lisa Hix, publicado em Collectors Weekly em 09 de julho de 2013)

eu

*Bárbara Lopes, não gosta de doces, é paulista, jornalista, prefere calor (talvez porque toma chopp), ama gatos, e escreve, quando em vez, no Blogueiras Feministas.

.

semana_lesbica_bissexual

A postagem faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

Umas histórias delas


Meu texto ia ser um que não foi. Aí vai outro, meio assim, meio solto, escrito no meio da madrugada. Lembranças de histórias entre mulheres. Lembranças de livros, que são minha praia. Colagens. Impressões. Gostos e sensações. Um texto colcha de retalhos.

A primeira história que me vem à mente, e que já contei aqui, é a de Pombinha com sua madrinha “mulher da vida”, de “O Cortiço” do Aluísio Azevedo. Eu, adolescente, lia fascinada a história de Pombinha, sua metamorfose. E sua entrega à madrinha. Reproduzo o trecho em que falo disso:

E, de todas as personagens, a que mais me fascinava era Pombinha, santa, pura, virgem, cuja madrinha “de vida fácil” aproveita-se de sua inocência e, aos poucos, vai transformando-a no que ela está fadada a ser. Pombinha, moça fina e pálida, e seu encontro, a um só tempo assustador e maravilhoso, com essa mulher mais velha, excessivamente maquiada, excessivamente perfumada. E ela nunca mais será a mesma. O livro descreve a incompreensão da moça, seu susto, e os olhos lúbricos da madrinha, atraindo-a, desejando-a, seduzindo-a para finalmente devorá-la qual aranha determinada.

Logo depois, lembro de Colette e de seus “Claudine”. Uma série de livros, ao que consta, inspirados na vida da autora. Amores de escola, professoras, assistentes, colegas. Amores femininos. O tempo é o final do século XIX. Começo de vida. Convivências. Amores. Ciúmes, intrigas. Faz parte. Colette, parece, continuou se relacionando com mulheres, ao longo da vida. Apesar de ter se casado com homens.

Seguindo pela senda dos livros, a gente chega a Anaïs Nin, claro. Essa explicitamente autobiográfica, em seus “Diários”. Ou será. Vai lá saber o quanto de um diário é realmente verdade. Enfim, diário. Diários.  Começo do século XX, anos 30. A história que ficou mais conhecida envolve o escritor Henry Miller e sua mulher, June. E a paixão de Henry e Anaïs por June, linda, selvagem, cigana. Anaïs, amante de Miller, se encanta também por June. Que já tinha histórias com mulheres. Aventuras. Caminhos. Possibilidades. Aberturas.

Maria de Medeiros e Uma Thurman, como Anaïs e June.

E, por último, uma história que me encantou tanto quando li, mas cujas referências nessa rede que habitamos são poucas. Pesco na lembrança, pois. A história se passa em tempos de guerra, e o livro é “Winter Love” – Amor de Inverno, de Han Suyin. História contada em primeira pessoa. História de amor e dor, de mulheres que se apaixonam em um momento de exceção. E se não houvesse guerra? E se os homens estivessem por perto? Será que teriam se apaixonado? Hesitações, vislumbres. Tons de cinza. Não dá para saber: o fato é que o encontro entre as duas moças acontece, e é lindamente contado. E, como esse post é um post-colcha de retalhos, vai o que escrevi sobre ele aqui, em outro post do Biscate:

Os estranhos desejos de tempos de guerra, onde mulheres ficavam sós para tocar a vida cotidiana, homens dormiam e acordavam com outros homens. Um dos meus livros favoritos, aqui, é “Amor de Inverno”, de Han Suyin. Delícia de história entre mulheres, em tempos de guerra. Orelha pequena, brinquinhos. Longos cabelos. Encantamento. Tempos de exceção. E o depois.

O depois é o sofrimento da personagem-narradora, já que a dona das orelhas pequenas de brinquinhos de ouro, ao final da guerra, vai para os braços do noivo que voltou pra casa. Ela, a narradora, também acaba por encontrar um pretendente, gentil e atencioso, pelo que me lembro. Conforma-se com a vida convencional. Novas diretrizes em tempos de paz. Mas o amor, a paixão, ah, esses permaneceram guardados na memória.
Junto com a imagem dos longos cabelos.
E dos brinquinhos de ouro.

Azul é a cor mais quente.

 

semana_lesbica_bissexualEsse texto faz parte da 1ª Semana de Blogagem Coletiva pelo Dia da Visibilidade Lésbica e Bissexual, convocada pelo True Love

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...