Ajudar, compartilhar, fazer: gentilezas e responsabilidades

Hoje de manhã estava  lavando louça – atividade que pra mim é uma meditação em movimento, sem brincadeira: dia desses inda escrevo “o zen na arte de lavar louça” – e o fugidio tema desse post atrasado apareceu, inteiro.  Isso porque pensava na atividade, ao mesmo tempo em que me lembrava de uma postagem do Alex Castro no fêice, que reproduzo aqui por ser extremamente didática e porque não consegui link (tá lá no fêice do Alex, é só procurar com mais calma que eu):

Estados Unidos, mesa grande, gente do mundo todo. O assunto: casa e filhos, homens e mulheres, machismo e feminismo. Então, um dos brasileiros, cheio de orgulho, afirmou:“Ah, eu sempre ajudo minha mulher com as tarefas domésticas.”Para sua enorme surpresa, a outra brasileira da mesa, casada com um holandês e morando há 30 anos no exterior, carimbou:“Estão vendo agora porque eu sempre digo que o homem brasileiro é machista?”O pobre brasileiro ficou transtornado. Não entendeu nada. Pensou até que fosse ironia. Pensou que talvez ela não tivesse ouvido bem. Repetiu:“Está falando de mim? Mas acabei de dizer que ajudo minha mulher em todas as tarefas da casa!”“Pois é. Ao dizer que “ajuda”, o que você está dizendo é: essa obrigação é só dela, mas eu, olha como sou tão legal e tão magnânimo! Até desço aqui do meu pedestal e… ajudo!” E acrescentou o marido holandês: “Lá em casa, nós dois dividimos as tarefas.”


Sobre isso pensava enquanto, feliz, lavava louça no domingo de manhã. Isso porque eu gosto mesmo de lavar louça: tinha lá uns copos na pia, uns dois pratos, talheres; peguei a esponja, separei a louça – meu momento mais obsessivamente organizado é na cozinha: sou um primor (pena que não em outras áreas da casa e da vida) -, comecei a lavar meditando.

“Ajudar”. Palavra que nunca fez parte do meu vocabulário nesse contexto. Nenhum dos dois pais dos meus filhos me “ajudou”: eles apenas faziam uma parte – a deles. E, quando tive o primeiro e aprendi todo um mundo de coisas sobre esse universo, ficava realmente indignada com gente que gentilmente comentava: “como ele – o pai – ajuda!”. Eu, mal-humorada e pouco educada, retrucava beligerante: “Ajuda por quê? O filho é dele também, eu não fiz sozinha.” Recebia, claro, olhares entre espantados e magoados: afinal  a pessoa estava tentando elogiar…

Pois é. Mas de boas intenções o inferno está cheio, e o caminho para lá delas se pavimenta. Todo dia, em cada pequeno gesto. Em cada palavra mal empregada. Conclamo aqui: vamos abolir a palavra “ajudar”, quando se trata de um núcleo familiar, de cuidar da casa, dos filhos. E quando se trata, à medida que os filhos vão crescendo, de compartilhar as tarefas que fazem a casa funcionar.

Abolir a palavra: parece pouco, mas é um começo. Um primeiro passo para uma mudança de atitude. Uma ressignificação. Um treinamento. Fundamental treinar para desconstruir idéias recebidas e tão facilmente naturalizadas. Tanto que o coitado do brasileiro, na história contada acima, ficou sem entender do que se falava: ele “até” ajudava, ora. Como se a casa não fosse dele: turista acidental. Como se dos céus ou da genética tivesse vindo a informação (junto com o segundo cromossoma X y otras cositas mas) que a responsabilidade de cuidar da casa incumbiria às filhas de Eva. Ora. Filhas de Eva e de Lilith, esqueceram? Eva talvez coasse o café que Adão tomava. Mas Lilith… aí não.

E digo por experiência própria: não precisa muito mais do que isso. Juro que acho que nunca pronunciei essa palavra “ajudar”, no contexto dos homens com os seus filhos, no contexto dos meus filhos com a casa. Faz diferença. Muda o olhar. Desloca. Reorganiza. Meus filhos? Provavelmente não são mais arrumados do que boa parte de sua geração. Mas não consideram que cuidar da casa, da comida, seja uma obrigação minha que lhes é devida. A cozinha? Normalmente sou eu. Se a gente não pedir na rua. Se a gente não comer fora. Eu gosto de cozinhar. Gosto mesmo. E, se isso acontece só no fim de semana, quando acontece é por puro prazer: cozinho até pra mim sozinha, com requinte e esmero. Feliz. E, sobretudo: se estiver com vontade.

Não é obrigação: acontece de não ter nada pra comer. Acontece de a geladeira tar vazia. E aí? A responsa é de todo mundo: qualquer que seja a solução, o problema é do coletivo. Não é meu. Isso, acho, eles entenderam. E muda tudo. Em outras casas, com a mesma filosofia do que a minha porém mais organizadas, há uma divisão definida de tarefas: aqui não, por motivos de eu ser um caos ambulante. Então o que acontece é que, por exemplo, no caso da pia, ela vai se enchendo. E em algum momento alguém se enche e lava tudo. No caso dos meninos, vamos dizer que ainda precisam de um “incentivo”: “`Pô, fulano, vai lá, lava aquela louça.”. O ideal seria que fosse espontâneo, mas no ideal ainda não chegamos. O que quero ressaltar aqui é que quando isso é dito eles entubam na hora: podem tentar adiar, procrastinar, enrolar, mas fazem, e fazem sabendo que não é favor. Não estão “ajudando”: estão fazendo uma parte. A casa é deles também, afinal. Há que abandonar essa atitude de visitante, de hóspede de luxo que, por generosidade, “ajuda” a rainha do lar, e se apropriar da casa. Da roupa pra lavar. Da comida. Da louça. Não é gentileza, é necessidade. De todo mundo.

 

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14 ideias sobre “Ajudar, compartilhar, fazer: gentilezas e responsabilidades

  1. Adorei o post. Muito mesmo. Pelejei um bocado na educação do Samú, tomara que tnha efeito permanente (e resistente, porque o mundo não é mole). Ainda bem que o pai é um baita exemplo: cozinha, limpa, cuida de filhote…e nunca age como se fosse exceção. Depois dele, fiquei relutante em dividir espaço com outras pessoas.

    Eu aprendi a ser mais ativa e cuidadosa com as coisas da casa e limpeza e tal quando pensei: se eu não fizer, alguém vai ter que fazer. E alguém era mamys ou daddy e eles já faziam tanto…

    • sim, acho que esses exemplos são fundamentais. E quero prestar homenagem às figuras masculinas fundamentais dos avós (homens) paternos dos meus filhos: Sr. Guilherme e Sr. Antônio, que sempre deram exemplo bacana. Seu Guilherme fazia todas as compras da casa, com um amigo: iam de carro, pesquisavam supermercados, voltavam comprando…
      Seu Antônio, filho único de mãe portuguesa sem grana e viúva cedo, cedo aprendeu a dividir as tarefas da casa: com minha sogra ele compartilhava o lavar, o botar roupa na máquina….
      Lindos exemplos de vida pros meninos. Viva eles.

  2. Estou na batalha diária de me desvencilhar do papel que não é meu, do lugar que não quero pra mim na casa. No meu caso não trato com criança, então não acho justo ter que sugerir, não quero sugerir. Tem que ser espontâneo, consciente. Mas, confesso que ainda estamos nos ajustes e ainda me sinto com jornada dupla. Friso: Há um esforço gigante do meu companheiro em também romper com isso, mas ele está vindo de um período na casa da mãe… Desenhei?
    Talvez o teu texto seja de grande valia.
    Beijo!

    • se puder colaborar, um pouquinho que seja, ficarei honrada. Mas olha, acho que, mesmo lidando com adultos, não é justo a gente querer que eles, criados de forma machista, numa sociedade tão arraigadamente machista, não reproduzam isso no dia-a-dia. Acho que conversar sobre e apontar a questão é processo necessário também (sobretudo?) com companheiros.

  3. Eu sempre quis poder ajudar na casa…. brincadeirinha!
    Importante reflexão. Uma coisa que eu tenho visto nos últimos tempos – e que tem me deixado bem feliz – é um tanto de homens que saem SOZINHOS com filhos pequenos – médico, creche, escola… – antigamente não se via um homem cuidando sozinho de uma criança. Parece que finalmente alguns aprenderam que também são pais.
    Sorte e saúde pra todos!

    • Pois é, tem gente começando. Viva. Mas é tão tarde – século XXI já. E, olhando pra outros lugares, a gente tá tão atrás. Enfim. Vamos em frente… obrigada pela visita!

  4. … Vou contar um segredo, mas não espalha: gosto de lavar louça. É terapia.

    Bom, mas o fato é que a gente, de 40 no meu caso, aprende a abolir o “ajudar” na marra: no meu caso, quando fui morar sozinho, depois de casa da mãe e de divórcio.

    Antes, “ajudava”, num processo que é inconsciente. Foi a louça quem me contou que o verbo estava errado. E hoje conto isso pros meus dois meninos, com a ajuda da louça e das roupas pelo chão, que insistem em não irem sozinhas para o cesto.

    E na vida de hoje, ajuntado novamente, não tem esse verbo não. A casa é nossa. O resto, também. Só uma cousa…

    No fundo, gosto de lavar louça. E de rima.

    • Hahaha você viu o começo do post? Eu também gosto! E de cozinhar.
      Aqui, minha parada era sobre um certo tipo de olhar. Porque tem gente que faz (e não é seu caso, acredito, vai): mas é como o cara da história do Alex. “Ajuda”. E isso não tem a ver com a frequência. Não acho que tudo tem que ser dividido meio-a-meio: tem coisas que tem gente que gosta mais de fazer, etc.
      A questão é essa: de quem é a obrigação? A responsabilidade? O ônus?
      E aí, acho que é a sociedade inteira que deve se reeducar. Porque o comentário sobre “pai que ajuda” foi, sempre, ouvido de mulheres. Claro.
      Beijo, viva, um homem comentando! 🙂

  5. Como falei no twitter: a gente se trai com as palavras: eu falo que meu filho “me ajuda”, desmerecendo até o trabalho dele, porque ele de noite faz a parte dele, que é igual à minha: colocar o jantar na mesa e tirar a mesa. E ele sabe lavar roupa (melhor que eu, eu diria) e tudo o mais. Mas esse treco de dizer que homem “ajuda” fica na gente…

    • É isso, pode ficar mesmo.
      Acho que devo às buscas da minha mãe, ao olhar do meu pai, e também ao ter morado fora em fase de crescimento o não ter ficado com isso impregnado.
      Morava com meu irmão quando eu tinha 18, ele 16. E nunca houve questão sobre quem fazia o que, quem era responsável pelo conjunto. Eram os dois, sempre. A gente fazia feira juntos, aos sábados. E muitas vezes cozinhava juntos.
      Ajuda…

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